"Chá Preto"

 

 

            Era o mais famoso galo de briga da cidade. De plumagem preta tinha no dorso plumas amarelo-prateadas que se derramavam sobre o peito, onde se entrelaçavam às suas congêneres formando um contraste com o preto brilhante do restante do corpo. A cauda, discretamente, também mesclava  o  preto brilhante com o amarelo-prateado da plumagem. Robusto, a cabeça pequena e o bico das aves de rapina, Chá Preto tinha uns olhos amarelos-claros que sugeriam a convicção do guerreiro. E de pronto se erguia, quando estalávamos os dedos, numa postura de guerra, emitindo sinais que pareciam inquirir  se alguma coisa estava  por  acontecer. E, a passos curtos, olhava em todas direções. Por vezes cantava um canto rouco, curto, próprio dos galos da sua linhagem. Comparado a outros galos parecia um deus, tal a beleza e a imponência.

            Seu dono, o meu amigo Valter, desdenhava de quem  o ousasse  desafiar com algum "galinho" sem categoria, aquele seu espécime guerreiro. E com razão: Chá Preto jamais havia sido dobrado numa luta.

            Num  dia íamos na direção do Camoxinga. Na curva  que se nos abria a vista de todo o bairro em linha reta  um galo comum nos apareceu, repentinamente. Como todo "comunzão", como chamávamos o que  tinha o fogo dos vulcões e a resistência dos rufiões. E tal provocação causou, que o meu amigo terminou por atirar Chá Preto ao chão. O "comunzão" partiu, alvoroçadamente: os esporões imensos e recurvos, a crista longa e serrilhada, o bico frágil e a plumagem vermelho-prateada, no que, diga-se de passagem, parecia um guerreiro. No primeiro embate e Chá Preto jogou-o pelo chão. Mas no Segundo o comunzão ainda atingiu a cabeça de Chá Preto, perfurando o seu olho esquerdo. No terceiro embate  Chá Preto, aprisionando o "comunzão" pela crista, desfechou-lhe os esporões sobre o peito e o pescoço, prostando-o, quase inerte, estertorando em cantos de pedido de socorro. Valter correu e retirou  Chá Preto antes que o "comunzão" morresse e seu dono chegasse. E de pronto fugimos. Mas Chá Preto estava cego.

            Transformado em reprodutor Chá Preto brincava no fundo quintal com os seus filhotes, catando migallhas  na  terra. Depois  emitia  um  canto  e eles  corriam  na sua direção,  batendo as asas.

            Comprei  um dos filhotes de Chá Preto. Valter, mais velho do que eu, foi para Recife trabalhar  na  Chapelaria Opera. Um dia voltou "falante", o cabelo abrilhantinado, contando histórias maravilhosas, deixando-nos boquiabertos. Debaixo dos braços trazia discos de "bolero" e coleções de "estampas" do sabonete Eucalol, sobre " lendas da antigüidade" e " Índios do Brasil ", que nos exibia como tesouros.

          O filhote de Chá Preto havia crescido, semelhando o pai. Ao vê-lo o meu amigo ficou enlouquecido. E me propôs:

 Dou-lhe as coleções de estampas e os discos de bolero em troca do filhote.

Vacilei mas aceitei o negócio. Dias depois tentei desfazê-lo, alegando:

            – Os discos são velhos, arranhados e muito  usados!

            O meu amigo ouviu a  minha queixa em silêncio. Depois, habilmente me falou:

            – Você já é um rapazinho. E negócio é negócio. Se você insistir vai ficar sem confiança quando quiser fazer outro negócio. Pense nisso!

            Pensei e lhe respondi, entristecido:

            Tudo bem!

            Meses depois me mudei para Maceió. E nunca soube se o filhote repetiu as proezas do seu pai, o velho Chá Preto.

  

Gazeta de Alagoas-3O-5-93

 

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