"Dona" Concebida

 

            A preta velha que tinha uma tolda na feira. De tão antiga, sabia contar histórias que ouvira dos pais sobre a escravidão. Difícil era saber se o que era mais largo era o seu sorriso, ou o seu coração. Os seus olhos eram vivos e guardavam uma expressão sem amargura, apesar do mundo e dos seus momentos difíceis. E assim, quando ria, parecia que o mundo era todo uma felicidade e que viver era o bem supremo da humanidade. Era como se agradecesse a Deus a permissão de poder viver mais ou menos livre, na sua luta diária.

            Na sua tolda passava a maioria dos matutos, nos dias de feira. O feijão cheirava a cominho, aguçando os olfatos mais exigentes. A carne, temperada com óleo, sal  e colorau, borbulhava na panela de barro parecendo um quadro-vivo de algum pintor exótico. Mais das vezes, nós, os meninos, também íamos ali e experimentávamos aquela comida feita para os matutos que vinham de longe vender os seus produtos na feira e aquilo nos causava estranha felicidade. Tanto que, um dia, a "velha" Concebida havia dito para minha mãe:

            - Esses meninos não têm juízo. “Repare” se tem sentido eles  irem  comer  na  minha  tolda!

            Trinta anos de ausência e fui visitar "Dona" Concebida. Acompanhado por Nilson e Ernande encontrei a minha  amiga  quase  cega, numa casinha  lá  p´ras bandas do Camoxinga. Desmanchou-se em risos quando lhe falei de mim e dos amigos com quem estava. Nenhuma queixa, nenhuma amargura. Apenas, num certo momento, ainda me disse:

            – Tudo bem, meu filho. Apenas estou perdendo a visão. Também... com a idade que tenho  não "havera" de ser  diferente. Deus  põe e Deus  tira. O que os meninos vieram fazer aqui ?

            Refleti e lhe falei:

            – Talvez a senhora esteja esquecida de que um dia eu e alguns amigos ( liderados pelo Celso Nepomuceno ) andamos lhe roubando duas galinhas, quando a senhora morava lá no "Lajedo Grande.

            A minha amiga riu :

            – Ora, menino!  Que conversa mais tola. Eu nem me lembro mais disso.

Insisti em que ela deveria se lembrar. Tanto que, dizia não mais se lembrar. Isso a fez ficar em silêncio. Depois  lhe disse que as tais galinhas haviam servido para um "pic-nic" que havíamos feito num certo final de semana, no qual  Zé Lemos  havia  perdido  o ponto de cozimento do arroz fazendo-o virar papa. Coisa que quase lhe valeu umas "piabadas"  de todos nós.

            "Dona" Concebida relutou em se deixar fotografar. O seu olhar revelava certa tristeza e me fixava com avidez. Os  cabelos  enbranquecidos  contrastavam com a escuridão da sua pele, agora enrugada. Mas alguma coisa muito linda havia pousado na sua fisionomia, plena de candura. Depois lhe sobreveio certa impaciência. A catarata ( vi de perto ) embranquecera os seus olhos  diminuindo-lhes a transparência.

Um cálculo com juros e correções me fez ver, melancolicamente, que num  país  inflacionário  como  o nosso eu não poderia pagar a conta. Contentei-me em lhe dar certa quantia ( considerada razoável e complementada por uma das minhas filhas ) como recompensa.

            Ela riu e me disse:

            – Como pagamento não aceito.

            Optei por tornar aquilo uma lembrança e ela aceitou. Despedimo-nos, entre risos. Do Rio de Janeiro enviei as fotografias  para  que  o meu amigo Juca Silva  os colocasse  numa  moldura  e presenteasse a minha velha amiga, que morreu pouco depois.

 

 

Gazeta de Alagoas-14-3-93

 

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