A que exigiu uma estrela-candente !

 

 

                Na visão fantasiosa  dos  meninos  dava  gosto  ver  as flores desfilarem juntas, inseparavelmente  juntas. Uma, alva como o lírio, a boca de carmim, os dentes alvos tal o marfim e os cabelos negros como a noite, além, era claro, dos sorrisos fartos e que mais pareciam  sementes jogadas sobre os campos que esperavam  as chuvas, e mais das vezes parecendo  um postal antigo, tal a beleza que irradiava. A outra, morena, também com a boca de carmim, os dentes alvos como o mármore, os cabelos também negros e  o  riso farto como o sol e mais das vezes parecendo com alguma coisa que houvesse germinado da própria terra, telúrica, a aquecer os campos semeados, tal uma deusa. A primeira, Mirian, um nome clássico. A segunda,  Eluza, um nome brejeiro  e  com  os ares do sertão. Na nossa visão infantil  ficávamos  maravilhados com aquelas duas  flores  das  tardes  sertanejas. Mas elas estavam  longe das nossas pretensões por serem moças já em idade de casamento. Tínhamos que nos contentar com as meninas da nossa idade: que sorriam das janelas, que mandavam recados, ou então com as que temiam mesmo serem abordadas para um  elogio,  tal a inocência dos nossos anos.

            Hábito comum era o  de escrever  poesia nos albuns de recordações, que as meninas cobriam  com  capas delicadas. Uma vez escrevi num certo album: "Teus cabelos são fulvos, fulvos \ como a tarde ao por do sol.\  São bonitos, são profusos \ tal a canção do rouxinol."  Mas nada nos dava a certeza da conquista. Por  vezes  tudo  falhava. E sobrevínha-nos  algum  sofrimento. E naquelas horas costumávamos analisar os nossos fracassos. E numa daquelas ocasiões, sempre durante a noite, Guido chegou e foi nos dizendo:

                –  Sei de um jeito que não falha !

                Foi grande o nosso espanto. E quase todos perguntamos, ao mesmo   tempo:

                – Então fale logo.

                Guido brincou com os dedos da mão, olhou-nos e ficou rindo. Insistimos. Ele pediu calma, todo importante. Depois, mais importante ainda, começou:

                – Muito simples ! Basta olhar o céu durante a noite, esperar uma "estrela-cadente" correr no firmamento e fazer um pedido dizendo o nome da menina que deseja amar. Depois passar na igreja e rezar uma oração em agradecimento.

Ficamos perplexos e intrigados e desconfiados com a simplicidade da questão.  Foi aí que Guido insistiu:  

–  Mas não é simples. Só se tem direito a uma única escolha.

            Respiramos fundo e quase falamos ao mesmo tempo:

            – Assim  é  fogo!  Isso é uma armadilha!

            Noites  e noites  fiquei  a  olhar o céu, abrindo a janela depois que os meus pais dormiam,  em busca da minha "estrela-cadente". Na hora  em  que  uma  corria  no  firmamento  eu  ficava  tomado de dúvidas sobre o nome da menina  escolhida, e perdia a minha estrela e a minha chance. E nos dias seguintes procurava  reconferir meus sentimentos. Mas, um dia,  uma menina vinda de outra cidade ribeirinha me acendeu os sentimentos. E pensei:

            – É ela !  Não tenho dúvidas !

            Na mesma noite olhei o céu. A "estrela-cadente" passou. Fiz o pedido. Na manhã seguinte fui à Igreja-Matriz e rezei. Esperei ! E tivemos um frágil e inocente ensaio de amor.

            Noutro   dia,  lá do passado ( o  do  destino ? ) mudei-me para a capital.

            Anos depois, numa  noite, me disseram:

            – Ela se casou com um professor do ginásio !

             Olhei  o céu  e  fiquei a rastrear  estrelas. Depois  ri e me lembrei de que nem precisei de estrela-candente nem de orações para encontrar o meu grande amor, uma professorinha tímida no olhar e no sorriso, que vi pela primeira vez atravessando uma pracinha, numa linda manhã de sol

 

O Diário. 21.01.96

 

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