"Seu" Fernando

 

            O Alto do Monumento estava sempre em festa. No mínimo a garotada brincava correndo sobre os planos inclinados, de cimento, que protegiam a capela  onde as cabeças dos corpos dos "cabras" de  Lampião haviam sido expostas  após  a  derrota dos cangaceiros. Mas ali também nos reuníamos para todo o tipo de conversa. Ou então, mais das vezes, para esperarmos a "Sopa" (ônibus) do "Seu" Leusinge, sempre ao final das tardes. Fosse verão, e ficávamos a observar as pessoas: empoeiradas e com os olhos irritados, tal a poeira das estradas-de-barro. A "Sopa" nos trazia as revistinhas infantis Mickey, Vida Infantil, O Globo Juvenil Mensal, O Gury e o Gibi, sobre heróis de um mundo distante do nosso, fictício, e que nos eram vendidas pela "Dona" Afra Nepomuceno. Ela morava na casa de "Seu" Fernando Nepomuceno, um homem  sisudo, louro, parecendo um holandês, de óculos cujas lentes pareciam fundo de garrafa. E dele se dizia ser homem de boa índole. Homem que tinha sob  as  suas  asas um  sem  número de pessoas da família, e que até criara e adotara filhos de outras pessoas. Mas encarar "Seu" Fernando, para nós, os meninos, era como se tivéssemos de encarar alguma coisa séria demais, além das nossas limitações. Mas lá um dia aquele  homem  sisudo olhou para mim e falou, rindo, com aqueles  olhos azuis profundos:

            – Estou precisando de alguns meninos para me  ajudarem  lá  na loja. Eu sei que os pais de vocês vão permitir, pois todos são meus amigos.

Fomos aos  testes eu Nilton e Zé Lemos. E "Seu" Fernando brincava com Zé Lemos, fingindo-se de comprador:

            – Não. Não. Esse tecido não me agradou. Veja outro !

            Zé Lemos desdobrava-se, e ouvia:

            – Não. Não. Esse também não. Esse chapéu também não me agradou. Veja outro.

            Impaciente, por haver oferecido quase tudo de uma prateleira, Zé Lemos rebateu:

            – Ora, "Seu" Fernando, o senhor que é o dono não se agrada do que tem. Imagine os outros!  É melhor o senhor ficar com as suas porcarias e não vender para ninguém.

            E "Seu" Fernando desatou a rir. Eu e Nilton, assustados, ficamos aguardando a nossa vez. Mas "Seu" Fernando foi prático:

            – Foi um teste de paciência. O freguês sempre tem razão e vocês têm que compreender isso. Muitas vezes ele vê tudo, vai embora e depois volta. Mas volta se o vendedor for atencioso, delicado. Não vou fazer teste com vocês dois porque seria uma repetição.

            Ficamos aliviados. E como eu estava de olho no serviço de som da loja, fui rápido:

            – Eu preferiria ficar no serviço de som, colocando músicas para os matutos.

            Fui aprovado. Nilton e Zé Lemos tornaram-se balconistas. Nossos empregos limitavam-se aos dias de feira. O salário era  fabuloso: cinco mil réis mensais. E assim, durante meses coloquei músicas de Vivente Celestino, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Luiz Gonzaga, Dorival Caymi e Dalva de Oliveira, atendendo aos pedidos dos matutos.

Um dia, no seu escritório, "Seu"  Fernando conversava com um matuto. Por trás da sua cadeira havia uma fotografia antiga. O matuto a observava, perplexo. E depois de algum tempo não se conteve:

- "Seu" Fernando me desculpe, mas quem é este homem tão feio ?    

Gentil e risonho "Seu" Fernando foi rápido:

            – O meu pai !

             O matuto, incomodado, voltou a olhar a fotografia. E arrematou:

            – Bonito ele não  é !  Mas  olhando bem até que é um feio-simpático.

 

Gazeta de Alagoas, 23.05.93

 

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