"Seu" Frederico
Era um homem alto e magro, com o tórax fletido sobre o abdome. O nariz grande, avermelhado. O olhar sério, complacente quando a falar de experiências vividas. Por vezes fechava os olhos e dizia frases definitivas sobre determinados assuntos. As suas mãos giravam no ar como bailarinas. E cansei-me de ouvi-lo dizer:
- Mas isso é coisa dos tolos. Até as crianças sabem disso. Passei a vida a ver essas coisas acontecerem.
Das vezes que o vi conversar com o meu pai prostrei-me em admirar-lhe a figura esquálida, séria, e que ouvia o seu interlocutor de olhos fechados. E não conseguia entender como aquele homem, sempre de terno, chapéu e um invariável guarda-chuva, fosse verão fosse inverno, não usava gravata e conseguia encerrar os assuntos do modo tão formal, despedir-se de olhos fechados e sumir. Do que eu sabia ela havia sido fabricante de doce ou de algum tipo de bebida em Palmeira dos Índios, e indicado " prefeito-interventor " pela Revolução de 3O. A ausência da gravata me intrigava. Eu cansara de ver a minha mãe polir as abotoaduras de ouro que o meu usava nas camisas de mangas compridas e punhos endurecidos por água-de-goma , passados a ferro de engomar, cuidadosamente. Mas o que me chamava a atenção, nas camisas do meu pai, era o "botão-de-colarinho", também de ouro, igualmente às abotoaduras. O colarinho da camisa, também com água-de-goma e passado e ferro-quente, era o ponto crítico de afirmação doméstica da minha mãe. Nem mesmo Téo, a velha empregada, merecia confiança naquele momento. O que não impedia que ela desse algumas instruções que, no fundo eram uma maneira de mostrar que somente ela sabia fazer aquilo:
- Veja bem Téo, basta que se faça com o ferro menos quente e tudo está perdido. Tem que estar na temperatura certa. Há mulheres que nem ligam para o colarinho e os punhos das camisas dos seus maridos.
A velha Téo franzia a testa com ares de quem havia entendido tudo, depois ria e sempre encontrava palavras gratificantes:
- Isso é quase uma arte. A senhora sabe que pouca gente tem jeito para isso.
A minha mãe ficava vaidosa.
Um dia, inopinadamente, intrometi-me naquela cena doméstica entre a minha mãe e a velha Téo:
- Só não entendo porque a senhora perde tanto tempo passando punhos e colarinhos das camisas do meu pai e ele raramente usa tais camisas, porque não gosta de usar terno, a não ser quando viaja.. "Seu" Frederico pelo menos usa terno todos os dias, embora não goste de gravata.
Minha mãe me fez sinal para que eu me retirasse, com um olhar de reprovação. Téo me fez um sinal com a testa franzida. Silenciei e obedeci. E ainda ouvi a minha mãe perguntar para Téo:
- O que é que ele tem hoje ?...
Naquela noite fui para o quarto de Téo. Ela me recebeu um tanto séria e depois desatou a rir:
- Você sabe a história da gravata do "Seu" Frederico?
Respondi--lhe que não. E ela, sem mistérios, me contou que quando ele havia sido prefeito usava gravata. Mas que num certo dia havia tido uma briga com "Seu" Adeildo Nepomuceno, um homem muito pequeno, quase anão. E como ele não tinha outro recurso contra o tamanho do "Seu" Frederico agarrou-se à sua gravata e quase o enforca, não fosse a interferência dos amigos. E que então a partir daquele dia "Seu" Frederico fizera uma promessa.
Insisti para saber sobre a tal promessa. E Téo me falou como se falasse com a voz do "Seu" Frederico, engrossando a voz:
- Jamais usarei gravata ! Não é coisa para homem. Se fosse não serviria de instrumento para eu morrer pelas mãos de um homenzinho do tamanho do Adeildo.