"Seu" Isaías

 

            Da sua casa comercial, uma das maiores da cidade, ele ficava observando a feira atento a tudo. Muitas vezes se meteu em brigas que não eram dele, quando os matutos iniciavam alguma confusão. Porte médio, alvo, cabelos lisos e pretos, "Seu" Isaías lembrava os tipos portugueses. Possuidor de espírito duplo ora fazia confusão e ora se portava como um delegado de polícia. Na parede do pequeno escritório,  improvisado na sua casa de comércio, havia um paletó pendurado num prego e que ele jamais usara, justificando-se, para os curiosos:

            – Está aí de reserva. Qualquer um pode ser preso. Se um dia me acontecer vou usá-lo. Mas sei que Senhora Santana há de me protejer contra isso!.

            Casado, "Seu" Isaías não tinha filho. Cercado por várias filhas amargava  a  frustração de  não ter um "machinho" dentro de casa para  sucedê-lo  nos negócios e responsabilidades familiares, como costuma dizer. Por aquilo adorava um sobrinho de nome Jarbas,  no qual depositava  esperanças de que um dia ele viesse a lhe descansar na condução dos negócios quando a velhice chegasse. Mas Jarbas só pensava em ir para a Marinha, alheio às preocupações do tio.

            Temperamento forte, quando visto fazendo compras nas outras casas comerciais da cidade, com a sua esposa, dava motivo a comentários de que os dois "haviam quebrado pratos" durante alguma briga. Ele não confirmava e nem negava, alimentando os fuxiqueiros.

            Num final de ano "Seu" Isaías  foi  indicado  para ser o delegado de polícia. Para quem sempre  se  metia em brigas aquilo não lhe seria uma novidade, embora fosse conhecido como um homem bom e justo. Até mesmo um  "mão aberta" tal o seu sentimento de caridade pelas pessoas. Sua primeira  providência foi, por ser final de ano, a de liberar alguns presos para que passassem  as  festas  com os seus  parentes. Mas com a seguinte observação:

 Fiquem certo de uma coisa: gastarei tudo o que ganhei na minha vida  mas  irei procurar, mesmo no fim do mundo, "o cabra" que não voltar.

Ao final das festas todos os presos voltaram, para a surpresa geral.

            Como castigo para "cabra" que costumava "deflorar" filha alheia e fugir do casamento "Seu" Isaías tinha um santo remédio, depois de mandar prendê-lo:

            – Pois bem, "seu cabra": você ou casa ou mando lhe capar ! E casando tem que viver pelo menos cinco anos. Escolha!

             O remédio permitia o padre Bulhões fazer muitos casamentos.

            Mas numa tarde "Seu" Isaías cochilava no seu  escritório improvisado, onde o paletó continuava pendurado, quando o seu sobrinho Jarbas lhe apareceu entre desconfiado e risonho. "Seu" Isaías, sonolento, olhou para ele e indagou:

            – Se você me acordou é porque tem um bom motivo.

            Jarbas sorriu. Depois, sem quaisquer palavras de conforto foi claro:

            – Verdade,  tio !  Acabei de receber a comunicação para me apresentar na capital. A Marinha me aceitou.

             "Seu" Isaías deu um salto:

            – Então você se inscreveu sem me dizer nada?

             De cabeça baixa Jarbas lhe respondeu:

            – O senhor não iria entender.

             "Seu" Isaías olhou silenciosamente para Jarbas. Depois olhou para o céu  onde as nuvens passavam vagarosamente e não se conteve:

             – Pois bem: vá para a sua adorada Marinha. E só me volte aqui se um dia conseguir ser, no mínimo Almirante de Esquadra, "seu" peste!

  

Gazeta de Alagoas, 21.02.93

 

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