DONA JOVINA

 

     Estava longe de ser classificada como uma empregada comum. Havia sido admitida como cozinheira, tal a sua experiência na capital, coisa reconhecida por todos. Não que houvesse apresentado algum documento por escrito, de alguma casa de família, ou de algum restaurante. Era coisa mesmo "da palavra" assumida, e difícil de se comprovar. O que iria valer mesmo para sua admissão seria a palavra do meu pai:

    - Na hora de fazer a comida é que iremos saber se fala a verdade. Deixe ela ficar.

E minha mãe não teve saída, ainda que alguma coisa não lhe agradasse, na D.Jovina. Preta, cabelo redondo, repuxado, e preso por algumas presilhas, Dona Jovina tinha um rosto bonito, lábios finos, dentes alvos, um olhar misterioso, e em muito lembrava as pessoas brancas. Até mesmo tinha uma certa intolerância a pretos. Uma vez ouvi, da sua própria boca:

   -Preta mesmo, não sou. Sou mestiça. E não tenho nada contra preto.Tenho dois filhos, o João Branco, e o João Preto, de pais diferentes.Quero bem aos dois. Meu pai era preto, e a minha mãe era branca. Mas isso é coisa da vida.

     A chegada de Dona Jovina alterava o ambiente doméstico. Teo olhava para ela com alguma desconfiança. Não que ela lhe ameaçasse com alguma competição. As coisas eram diferentes. Téo continuaria sendo a segunda dona da casa, pela confiança da minha mãe. E além do mais sendo eu o filho mais velho e por ela praticamente criado, o meu pai jamais duvidava das suas palavras, isso quando não se dobrava aos seus caprichos. Se a minha  precisava ir à capital, para tratamento de saúde, era a velha Téo quem tomava conta de tudo. E muitas vezes fiz-lhe empréstimos que ela discutia com meu pai ,quando da sua volta:

   - Pois bem, Seu Ernesto: o restante eu "emprestei aí p´ra o menino. O senhor resolva com ele.

    O meu pai se voltava para mim e falava:

   - Depois nós acertamos isso. E jamais tivemos nenhum acerto.

     Ciumenta, Dona Jovina não gostava de muitas pessoas transitando pela cozinha. Se isso acontecia com a minha mãe ela falava:

   - Criatura, eu não gosto de patroa na cozinha. A senhora tem que confiar em mim. Qualquer dúvida eu lhe chamo.Se a senhora não gostar eu mudo tudo. Lugar de dona da casa é na sala.

    Minha mãe sorria e olhava para Téo, que procurava sair, sem um gesto definido.

     Durante algum tempo tudo foi acontecendo assim. E o meu pai sempre chamava Dona Jovina e dava alguma ordem, na hora da refeição:

   - Ponha um pouquino mais de sal...de gordura...de pimenta.Ou então:engrosse mais o caldo do feijão.Coloque mais verduras na sopa de macarrão.

   - E D.Jovina balançava a cabeça confirmando haver entendido.De uma vez vez chegou a falar:

   - Acho que vou ter de fazer a comida separada, pois a D.Isaura está grávida e sal e gordura não fazem bem para ela.

    A resposta do meu pai foi rápida:

   - É claro.É claro que sim   

    Depois, voltou-se para a minha mãe:

   - E você ainda não deu essa ordem para a empregada?

     A passividade da minha tinha uns tantos motivos que eu não entendia totalmente. O que me chamava a atenção era o fato de que jamais a vi senão grávida,um filho depois do outro. Durante anos vi morrerem alguns irmãos,de diarréia,de peneumonia,ou então de "crupe", mais chamada de angina diftérica. A figura de Téo avultava, porque era ela quem tomava conta dos filhos da minha mãe, como um segunda mãe.

     Mas se Téo era calada, quase ranzinza, Dona Jovina falava pelos cotovelos, fora das horas de trabalho, lá pelas três horas da tarde, no fundo quintal, fumando seu cachimbo, recordando as glórias da juventude. Aos poucos fui me sentindo atraído pelas suas histórias.

     De todas as histórias de Dona Jovina a que mais lhe fazia assumir um ar de seriedade misturado com fantasia, era a história Escola de Samba Cavaleiros do Monte e dos bailes do Teatro Deodoro, na capita.

    Na verdade era a mesma história. Começava na escola de samba, que em verdade era um bloco carnavalesco e terminava na glória do baile do Teatro Deodoro, o coroamento do carnaval.

     Muitas vezes Dona Jovina olhava o tempo, voltava-se para mim e começava:

   - Podem até não acreditar, mas já fui uma espécie de porta-bandeira da escola Cavaleiros do Monte, lá do Vergel".

    Falava da sua beleza e do atrativo que exercia sobre os homens. Do seu primeiro casamento havia nascido João Branco.

   E continuava:

  - Menino bonito, gordo,risonho, que me trouxe muita felicidade. O pai ficou feliz. Ele já não era um homem muito novo. Era viúvo e aposentado, da polícia. Morreu cedo.

    E eu ficava sabendo que Dona Jovina havia conhecido o seu primeiro marido durante os ensaios carnavalescos.

     Com uma certa calma, olhando D.Jovina, comecei a ver em seu rosto alguns traços de uma beleza que mesmo cansada e em fuga, pela ação da dureza da vida e do tempo, haveriam de  ter atraído muito homens. Ela não podia estar mentindo. Poderia até estar exagerando um pouco, mas mentindo,não. E por isso, aos poucos fui convivendo com as suas histórias. Muitas vezes Dona Jovina mudava o curso das suas histórias e nunca conseguia terminar o desfile da escola e chegar ao Teatro Deodoro, o que realmente me interessava. Se eu insistia ela me dizia;

   - Calma, a gente chega lá...é que depois do almoço em sinto muito sono.

    Várias vezes interrompeu as suas histórias deixando o seu bloco na rua do comércio, defronte ao Relógio Oficial, ponto de encontro e de "choques" entre as várias agremiações carnavalescas, como o "Bloco do Vulcão", e outros que eu não conseguia gravar.E nesses choques sempre um sem número de "pequeninas histórias" surgiam, interrompendo os desfechos que a levariam para o Teatro Deodoro, para o baile de gala.

     De certa vez me aborreci e afirmei:

   - Mas finalmente, essa história do baile do Teatro Deodoro a senhora vai ou não vai contar?

   E ela nem se afobava:

   - Mas é claro, meu filho.Só no fim.

     E eu não podia ter raiva da Dona Jovina , até mesmo porque eu já podia fazer uma idéia do que era o mar, com suas ondas, a rua do comércio com um cinema permanente, o relógio oficial, o bonde elétrico, e finalmente o Teatro Deodoro, coisas suficientes para que eu pedisse ao meu pai para conhecer a capital. E lá um dia meu pai me disse:

   - Você vai comigo, na próxima viagem. Ficaremos no Hotel Luso. Pode ser até que deixe você passar uns dias na casa da sua avó .Fiquei exultante. E até falei para D.Jovina;

   - Mesmo que a senhora não me conte a história do Teatro Deodoro, não tem importância. Meu pai vai me levar para Maceió. D.Jovina reagiu com algum espanto:

   - Só assim você vai ver que falo a verdade  

    E em seguida se mostrou misteriosa:

   - Mas quando?

    Respondi-lhe que não sabia quando, mas que seria logo, numa daquelas viagens que ele  fazia, freqüentemente. E ai D.Jovina me pareceu enternecida:

   - Você vai gostar.Você vai ver o Teatro Deodoro. É um prédio grande, alto, bonito, defronte de uma praça que tem um coreto onde uma banda de música toca, todos os domingos, durante a noite. Ainda mocinha eu ia para ali,arranjar namorado.

     Como voltei a insistir sobre o baile, Dona Jovina passou a me dizer que ele acontecia depois de se brincar durante boa parte da noite na rua do comércio. Que muita gente ia para casa, para os bairros. Que os ricos iam para os bailes das sociedades. E que o povo mais modesto ia para o Teatro Deodoro, onde dançava até o dia amanhecer, e de onde saia completamente feliz sob a luz do sol ainda cantando as músicas de carnaval.

     E um dia me confidenciou que o seu segundo filho, o João Preto, havia nascido de um romance que havia começado no baile do Teatro Deodoro.E me esclareceu:

   - Eu já estava viúva.

   Na verdade eu jamais consegui saber completamente sobre as fantasias de Dona Jovina , o que em verdade lhe havia sido tão importante. Curiso, insisti sobre o assunto. E ela me respondeu:

   - A vida,filho...a vida...eu vivi.

    Só então então eu compreendia que viver não podia ser a mesma coisa para as pessoas. Minha mãe, Téo, e Dona Jovina tinham vida inteiramente diferentes, e devia ser aquilo que ela estava querendo me dizer. A frase ficou ecoando em minha imagianção: " A vida, filho...a vida...eu vivi" . E um dia perguntei para a minha mãe:

   - A senhora vive para ter filhos.É bom?

   Ante o espanto da minha mãe Téo não perdeu tempo:

   - Isso é coisa daquela cachaceira, Dona .Isaura.

    Minha mãe voltou-se para Téo e perguntou:

   - Você está querendo dizer que ela bebe?

   Séria,Téo respondeu:

   - Por que é que a senhora acha que ela não quer ninguém na cozinha?  Passe lá e veja a garrafinha de cachaça debaixo da prateleira das panelas.

     De algum tempo o meu pai vinha se aborrecendo as comidas feitas pela Dona Jovina. E um dia falou para minha mãe:

   - A Jovina não está fazendo as coisas como eu gosto. Ou está cansada, ou então toma cachaça. Mande ela embora.

    E só então a minha mãe se decidiu por intervir na cozinha, dispensando Dona Jovina, e agradecendo os seus préstimos durante o tempo que esteve em minha casa. E eu fiquei sem poder saber os finais apotéoticos dos bailes do Teatro Deodoro.

     E lá um dia, na capital, na casa da minha avó, pedi ao primo Eizinho para me levar ao baile do Teatro Deodoro, uma vez que era carnaval.E ouvi:

   - Vamos lá,é o baile das "piniqueiras".O melhor para uma sacanagem.

    Fiquei chocado, porque a D.Jovina não era o que se chamava de "piniqueira" termo jocoso e nivelador, para empregadas comuns. Dona Jovina era uma cozinheira. E mais que isso, havia sido porta-bandeira do Bloco Cavaleiros do Monte, sem contar que o Teatro Dedodoro tinha as características de um palácio com tudo que lembrava a realeza.

     Naquela mesma noite vi o encontro dos blocos carnavalescos defronte ao Relógio Oficial. Algo vulcânico, algo como uma terremoto, um maremoto, onde muitos se machucavam. Depois fomos ao Teatro Deodoro. O que vi, por lá, foi realmente um baile do povo. Fantasias baratas, suor, perfumes desagradáveis misturados com lança-perfumes de odores também desagradáveis.

     Comparando com o "corso", aqueles desfiles de carros realizados pelas elites, no início da noite, com pessoas limpas, bem fantasiadas, espalhando confetes, serpentinas, e aspergindo lança-perfumes de odor altamente agradável, o baile do Teatro Deodoro parecia mais um castigo, nas minhas comparações.

     Na viagem de volta, quando tomei o trem ainda olhei o mar, com suas ondas incessantes e um  azul de sonho, e me lembrei da Dona Jovina:

   - A vida, filho...a vida...eu vivi...

 

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