"Seu"  Lourival

    Poucos homens eram conhecidos pela matreirice como o Seu Lourival. De razoável porte físico, além de "galêgo", em muitas ocasiões se deleitava em enganar pessoas tolas, com um sotaque estrangeiro enrolado, e que traduzido não significava nada. A matutada dos distritos, das feiras e dos pequenos restaurantes de beira de estrada, ficava extasiada com aquele homem de cabelos amarelos, olhos azuis e exímio tocador de piston. Boêmio, Lourival perdia noites em farras acompanhado por um ganso domesticado. Numa das farras, quando faltou tira-gosto, o ganso foi sacrificado e serviu de repasto aos boêmios. Durante uma procissão, o bolso de alguém estava furado e deixava cair moedas. Lourival se abaixava, parava de tocar deixando o padre Bulhões aborrecido, apanhava as moedas e as guardava no bolso, e voltava a tocar, criando verdadeira confusão entre os músicos. E ainda se falava que, em várias ocasiões deu belíssimas carreiras mato a dentro quando descoberto em suas "estrangeirisses". Fiscal da Prefeitura, Seu Lourival fiscalizava não se sabia bem o quê. Era irmão de um rico e influente comerciante, o que o salvou de grave aborrecimento quando, numa farra, colocou uma gravata na estátua de D.Pedro II, na pracinha central de Santana do Ipanema.

    Afora tais peraltices Seu Lourival era um bom sujeito. Tanto que "Seu" Zé Quirino, rico comerciante da cidade, terminaria por aceitá-lo para um serviço especial. Após o balanço da sua loja, seu gerente, o "Seu" João Yoyô , mostrou para Zé Quirino o montante de dívidas num livrinho do "fiado". Zé Quirino deu de ombros:

    – Isso é coisa perdida !

    Gerente dedicado João Yoyô insistiu:

    – Claro que não ! E tenho um homem indicado para receber.

    Mas quando falou no nome de Lourival Zé Quirino ficou sério:

    – Mas logo o Lourival !

    Depois, mais calmo, ordenou a João Yoyô fazer a tentativa. Quando Seu Lourival chegou Zé Quirino foi claro:

   - Dou-lhe a metade da dívida se você conseguir receber essas dívidas.

    Seu Lourival não vacilou:

    – Aceito. Dê-me o livrinho e uma autorização.

    Nas semanas seguintes Seu Lourival somente era visto aos sábados e domingos, trazendo porcos, cabritos, perus e outros animais. Por vezes saía durante a madrugada para alguma farrinha. Mas era só amanhecer o dia e sumia na estrada. O fato começou a incomodar Zé Quirino porque muitas pessoas já lhe perguntavam, com ironia, sobre o "trato" com Lourival. Dois meses depois, impaciente, Zé Quirino foi ao encontro de Lourival mal ele havia acabado de tomar um banho, preparando-se para mais uma farrinha das suas madrugadas. Surpreendido, Seu Lourival não teve como evitar o amigo que dava mostras de impaciência:

    – Então, Lourival ? Já se passaram dois meses e você não me aparece. A dar ouvidos às pessoas parece que a sua tarefa não vai tão mal assim !

    Seu Lourival olhou para Zé Quirino e falou:

    – Já devia ter aparecido, é verdade!

    Zé Quirino foi objetivo:

    – Claro que sim ! E não estou lhe entendendo !

    Seu Lourival não perdeu a calma:

    – O diabo é que somente tenho conseguido receber a minha metade das dívidas. Mas assim que receber a sua metade vou aparecer...

    Zé Quirino pediu de volta a "autorização para o recebimento da dívida" e o livrinho de anotações das dívidas, encerrando os serviços de Lourival...

Gazeta de Alagoas 03.1.93

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