Dona Marinita

    Depois das professoras que gostavam de "apertar", nas provas, dar beliscões, reguadas, chamar-nos desse ou daquele nome pelas nossas peraltices, o que havia de melhor eram as aulas de Dona Marinita, professora de Trabalhos Manuais. Era uma espécie de lazer onde reencontrávamos alguém que conservava alguma coisa das nossas mães.

    Estatura baixa, morena de cabelos pretos, olhos grandes, um sorriso largo e infantil, Dona Marinita costumava nos fazer sentar em círculos, no próprio piso da sala de aula. E só depois iniciava as suas aulas contando histórias, fazendo perguntas, pedindo para que demonstrássemos essa ou aquela habilidade e, finalmente, analisando os nossos trabalhos. Por vezes ela saía dos assuntos de aula e tomava o rumo de um infindável número de historinhas acontecidas num local distante, misterioso e com um final feliz na maioria dos casos. Mais das vezes ela própria era a heroína de alguma historinha. Sempre revelava preocupação com os nossos dentes:

    - Meninos e meninas que não escovam os dentes ficam banguelos e feios. Suas bocas ficam sujas. Quando crescem não podem namorar. E terminam no dentista. E depois pedia para que mostrássemos os dentes. Mas continuava:

    - Estes dois dentes que vocês estão vendo aqui na frente, são dois "pivôs", quer dizer, são dentes supostos, postiços, colocados pelo dentista. Eu tinha muita vergonha de ter os dentes estragados. Já mocinha e precisando namorar tive de ir ao dentista. Felizmente os dois dentes são bem feitos. Posso mastigar. Pude casar e ter filhos. Se eu tivesse tido cuidado com os meus dentes, quando criança, talvez nem precisasse ter ido ao dentista. Por isso obedeçam às suas mães, escovando os dentes pelo menos duas vezes por dia.

    Lá um dia chegou o Dr. Gastão, um dentista alvo, meio gordinho e baixinho. Tinha ares risonhos e cativantes. E lá estava eu, temeroso. Depois de um exame, o planejamento. E o veredicto fatal para o meu pai:

    - Não tem jeito, Seu Ernesto, na parte superior só chapa completa !

    A minha mãe resistiu, ao ouvir o meu pai:

    - Esse dentista é louco, ou burro. Vou lá agora mesmo.

    O desentendimento não foi pequeno. Mas minha mãe venceu:

    - Nada disso, doutor. Muitos dentes podem ser obturados. Os da frente o senhor faz "pivôs", iguais aos de Dona Marinita, professora do meu filho. Do contrário levo meu filho para outro dentista ainda que seja em Maceió.

    E o doutor Gastão, aos poucos, foi corroendo com aquela broquinha infernal o que me restava dos incisivos superiores. E aos treze anos eu exibia um sorriso de "pivôs" e obturações de ouro...

    Adulto, estou em Maceió. Encontro um velho amigo e ouço:

    - Dona" Marinita está internada no Hospital do Câncer. Você sabia ?

    Perplexo, pergunto-lhe mais algumas coisas. Ele apenas insiste em que ela não está bem. Mudo de rumo e vou ao hospital. E lá encontro a minha amiga, magrinha e debilitada. Ao me ver ela riu do mesmo modo que o fazia, um dia, quando minha professora. Beijo-lhe a cabeça e tomo-lhe a mão. E ouço:

    - Já está usando chapa completa ?

    Sorrio e lhe respondo:

    - Não! Mesmo passados mais de trinta anos.

    E ela me pergunta:

    - E agora, devo lhe chamar de Luiz ou de Doutor Luiz ?

    E ficamos a rir, de mãos dadas, como o se tempo houvesse parado. Depois, com o olhar entristecido ainda me disse:

    - Estou partindo, meu filho ! Estou partindo...

Gazeta de Alagoas 9-4-93

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