“Seu” Moreninho
Dono de uma das farmácias da cidade, “Seu” Moreninho era sempre um homem brincalhão e disposto a uma boa conversa. Eternamente de bom humor, tinha um andar defeituoso devido a um problema na perna esquerda. Costumava dar gargalhadas porque o seu cachorro tinha o mesmo defeito. E ria dele mesmo e do cachorro. Era a imagem da pessoa de bem com a vida, sempre solidário com todos. Tocava a vida fazendo amigos. Nas horas vagas substituía o médico da cidade "prescrevendo" medicamentos. Na dúvida, obrigava o paciente a procurar doutor Arsênio, o velho médico que viera dos lados da Bahia e com quem fizera grande amizade, afirmando:
– Agora procure o doutor .Arsênio.
Num jogo do meu time, “O Sete de Setembro” (do grupo escolar), cujo técnico era José Gonçalves (Zezinho), tive o braço quebrado por uma "escora" de Zé Galego, do time dos homens, dirigido por "Seu" Lucena. Fui atendido por "Seu" Moreninho, uma vez que o doutor Everaldo, o novo médico, não estava na cidade. Meu braço foi enrolado com ataduras recobertas de "elixir sanativo". Dia seguinte doutor .Everaldo me atendeu. Encaminhou-me para Palmeira dos Índios onde fui atendido pelo doutor Remi Maia, que nada fez e me devolveu ( com a radiografia da fratura ) para o doutor Everaldo. Por falta de gesso tornei a voltar ao doutor Remi. Finalmente tive o braço engessado. Numa das viagens vomitei o carro do "Seu" Dota, um homem conhecido como cuidadoso, quase “pão-duro”. Armou-se uma mal-estar. Meu pai ameaçou comprar-lhe o carro. Depois se acalmaram. Apesar de tudo eu estava feliz porque o jogo havia sido "empate" com o time dos homens, para o espanto geral. Na manhã seguinte Thomazinho desenhou Zezinho (numa cartolina) imitando o "O Pensador", de Rodin, defronte a "Seu" Lucena usando uma "chupeta" pendurada no pescoço como se estivesse chorando. O desenho foi exposto no bar de Antonio de Marcelon.
Já sem o gesso passei a fazer massagens com "Seu" Moreninho. E de outras vezes com o próprio doutor Everaldo. E foi um dos seus livros "Os Caminhos de um Cirurgião" (que li de empréstimo) que definiu a minha vocação para médico. Era a história de um cirurgião italiano que fizera carreira na Inglaterra.
Mas a cidade crescia e um dia tivemos outro médico de nome Oswaldo que, coincidentemente, também tinha um defeito da perna, tal o "Seu" Moreninho. Diferentemente dos doutores Arsênio e Everaldo, esse novo doutor Oswaldo não era homem para intimidades. Bastante míope usava óculos que mais pareciam fundos de garrafa. E jamais tirava o seu chapéu. Nunca era visto sem paletó chovesse ou fizesse sol, diferentemente dos seus colegas, mais das vezes vistos usando camisas. E a cidade não teve boa vontade com relação à sua beleza do novo doutor Oswaldo.
Algumas vezes o "Seu" Moreninho já havia sido chamado a atenção pelo novo doutor. E brincar com "Seu" Moreninho, doutor Oswaldo não sabia, poderia não ser boa coisa. Tanto que, um dia, após interpelar "Seu" Moreninho ele ouviu, perplexo:
– Perfeitamente, colega, não vou mais passar medicamentos para ninguém!
Espantadíssimo, o doutor .Oswaldo retrucou:
– Não estou lhe entendendo: colega? Que história é essa de colega ?
O ambiente ficou tenso. A conhecida capacidade de improvisar, em horas críticas, fez com que "Seu" Moreninho olhasse para o doutor Oswaldo com seriedade. Depois, pensar um pouco e responder-lhe:
– Não se afobe, doutor. É coleguismo de feiúra. Só isso!
Gazeta de Alagoas, 04. 4. 93