Os paulistas

 

            Estranho era vê-los ( nos primeiros dias dos seus retornos ) envergarem seus ternos de tropical , ou de casemira  sob um sol de quarenta graus, com os cabelos cheios de brilhantina, o andar sofisticado, a contarem  maravilhas da terra onde andaram, sobretudo São Paulo. E por conta daquilo muitos se tornaram lendas, tais as histórias que contavam. E mais estranho eram as suas "estranhezas" sobre as coisas da terra que os viu nascer. Entre histórias e estranhezas "os paulistas" iam fazendo história. De um se dizia que voltou chamando urubu de " uribas ", e que, alertado por alguém que lhe disse ser o urubu  o seu irmão mais novo, reagiu:

Urubu  é  a mãe, filho da puta! 

De outro, um tal de Lulu Felix , se dizia haver afirmado :

            – Vi um boi de quatrocentas arrobas ! 

            E que  inquirido respondia sempre :

            – Vocês não andam! Não saem daqui !

            E ainda que  o tal mentiroso teve o  "apoio" de Zé Panta, eterno galhofeiro :

            – Acredito! Naquela cidade tinha um circo cuja cobertura foi feita pelo couro do boi de que o Lulu Felix está falando.

            Numa única coisa alguns " paulistas" eram iguais: curtiam  férias  que jamais terminavam. E quando interrogados  sobre  aquele fato tinham sempre a mesma resposta:

– Nem sei se volte. Pedi um tempo para pensar. Vou  terminar  ficando por aqui mesmo. Aquilo lá é um inferno.

            Mas todos desconfiavam de que eles haviam perdido  os  empregos, por não absorção das exigências culturais da grande cidade, ou então por haverem recebido notícias  de  que as chuvas seriam promissoras  naquele ano em que voltaram. As chuvas, quando chegavam, serviam-lhes  como desculpa  para não mais retornarem. Alguns, aqueles  que haviam realizado aventuras culturais, sempre afirmavam :

            – Mandei a carteira de trabalho para São Paulo, pedindo baixa do emprego.

            Mentirosos, " os paulistas " se incorporavam à paisagem  como lendas vivas e símbolos para os futuros aventureiros.  E  nasciam : ora da miséria, do desemprego e da falta de chuva. E ora da falta de esperança cultural, naquele  longínquo  sertão dos anos 40.

 

Gazeta de Alagoas, 29. 8. 93

 

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