A que me desvendava mistérios
Da margem esquerda do rio Ipanema a pequena montanha, conhecida como serra, irradiava mistérios e uma cor azulada, contornada pela estrada velha que dava acesso a Olho d'Água das Flores. Vista de perto, entretanto, era recoberta por uma vegetação miúda e sem graça. Por vezes, ali ou acolá, uma árvore de maior porte ou um mandacaru quebravam a sua monotonia. Lá no topo, um Cristo de cimento vigiava a cidade. E naquele ponto as árvores eram mais numerosas e até faziam sombras. Dos seus mistérios, a serra escondia aquele que dizia sobre o fato de, por vezes, Lampião chegar até ali, descansar, orar pela santa da sua devoção, Senhora Santana, e depois ir embora calmamente, sem molestar a cidade e sem ser molestado pela polícia. O outro mistério dizia respeito à marca de um pé esculpido numa imensa pedra. Entre sussurros, as pessoas diziam tratar-se da marca do pé Cristo. E que a marca ficara por conta das suas andanças pela terra.
Um dia, numa excursão com Nilton e Ernande, subi a serra pela lado mais difícil. Foi um desafio iniciado pelas oito e completado por volta do meio-dia, num sol causticante. Além dos mistérios da serra pretendíamos saber, também, se havíamos acertado alguns tiros de fuzis, disparados contra o Cristo, do fundo de quintal da casa de Nilton, pertencentes ao seu pai, velho soldado do "Comando de Caça a Lampião", esquecidos em sua casa, descalibrados. Um dia esperamos que ele saísse de casa e fizemos alguns disparos na direção do Cristo. Depois experimentamos um sentimento de culpa. Ainda que estivéssemos convencidos de que o Cristo era apenas de cimento e que talvez nem fosse "bento", benzido, nosso sentimento de culpa nos forçou a tal expedição. E até levamos um pouco de cimento para, no caso do Cristo estar ferido, fazer-lhe o reparo necessário. Mas ele estava lá, intocado, sem ferimentos, apenas gasto pela ação do tempo. O nosso sentimento de culpa acabou, mas a nossa frustração de maus atiradores redobrou.
Depois fomos explorar a serra. Por minutos ficamos olhando a cidade, que nos parecia longínqua e inacessível. E discutimos a possibilidade de até estarmos sentados nos mesmos lugares onde um dia Lampião e seus "cabras" também estiveram. Fomos ver a pedra com o pé do Cristo. E lá estava ela com uma marca parecida com a de um pé, semelhante ao direito. O fato nos intrigou. E Nilton, pensativo, nos indagou:
- Por que só um pé? E o outro?
Ernande ficou sério. Também não respondi. Mas Nilton continuou, colocando o seu no pé na forma do pé esculpida na pedra:
- Tudo mentira! O meu não se amolda a este aqui.
De fato também não se amoldaram nem o meu nem o do Ernande, quando tentamos. A crença de que qualquer pé alí colocado se amoldava ao esculpido na pedra, para nós, acabava de ser desmistificada. E uma imensa decepção nos acompanhou durante o regresso da expedição.
Durante a noite perguntei para Téo, a velha empregada:
- Você acredita naquela história do pé do Cristo?
E ouvi:
- Claro! Mas isso já faz tanto tempo que o pé esquerdo já se apagou. Quando o direito se apagar será o dia do "juízo final". Alguns tolos, e até mesmo alguns idiotas, pensam que os seus pés se ajustam ao do Cristo, lá da pedra. Pura crendice ! Ninguém pode ter o pé igual ao do Cristo. Acreditar nessa tolice chega a ser um pecado!
O Diário, 25.02.96