Pedrão

 

 

            A ladeira ao lado da ponte do Camoxinga era o local  onde os "carros-de-bois" paravam. Dali os matutos levavam as suas produções agrícolas para a feira, onde as vendiam. Do apurado das vendas compravam mantimentos e alguns utensílios domésticos, fosse uma enxada, uma pá, querosene, candeeiro, um chapéu e, por último carne verde e xarque.

            A ladeira, cheia de "carros-de-bois" e os bois cada um com o nome mais bonito, era ponto de encontro dos meninos. O "carreiro", aquele que conduzia o "carro-de-boi", realizava manobras chamando pelo nome de cada boi. Os nomes eram caprichosos: "mimoso", "malhado", "vermelho", "teimoso", etc...etc. O "carreiro" usava uma longa vara que tinha na ponta um ferrão para espetar os bois. E nós, os meninos, ficávamos maravilhados com aquele espetáculo. Tanto que, também tínhamos os nossos pequenos "carros-de-bois" nas nossas brincadeiras. A observação dos "carreiros" ainda nos permitia ouvir histórias capazes de arrepiarem nossos cabelos, sobre a vida daqueles personagens. E uma delas, sobre um tal de Pedrão, fez com que eu insistisse  junto a Téo - a preta velha que cuidava de mim  - sobre a veracidade do fato. E ouvi:

            – É verdade: ele enfrentou Lampião ! Vinha de uma viagem e entrou num povoado. Lampião estava ali com o seu bando. Parou o carro. Entrou na mercearia  e  pediu mantimentos. Lampião ficou calado. Pedrão era um "negão" grande e valente. Pagou a conta e quando ia saindo  Lampião colocou-lhe a mão sobre o ombro  e  lhe falou:

            –  Gostei de ver. Você entrou. Não me pediu licença. Acho até que nem me respeitou. E quer sair do mesmo modo que entrou !

            Eu estava atento  e Téo continuou:

            – Foi  aí  que   Pedrão lhe respondeu  dizendo  que apenas  estava  de passagem. Que não desejava atrapalhar  a festa de ninguém.

            Insisti:

            – E  Lampião  se  conformou ?

            Téo não perdeu tempo:

            –   Claro que não. E falou para  Pedrão  que ele não sairia dali sem que primeiro não tomasse uma cachaça. Mas Pedrão lhe respondeu que não bebia, que apenas gostava de trabalhar. E aí Lampião danou-se. Foi até o balcão, retirou um punhal  da  cintura  e  ali  o enfiou com tanta força que o bicho ficou  zumbindo no ar.

            Téo  parou  um  pouco  e  respirou:

            – E aí gritou para Pedrão que ele podia fazer de tudo. O que não podia era lhe faltar com respeito. Naquela hora os “cabras” de Lampião tomaram posição de combate, apontando as armas  para  Pedrão.

            Eu  estava  muito  atento  e  Téo  mal  respirava. Mas continuou, séria:

            – Foi aí que Pedrão foi até o balcão, retirou o seu punhal  e fez o mesmo que Lampião. E o fez com tanta força que os  dois  punhais ficaram batendo um contra o outro, zumbindo.

            Eu estava mais que ansioso:

            – E  falou  alguma  coisa ?

            Téo  parecia  uma  sacerdotisa:

          – Claro. Ele  gritou  para Lampião que o ferreiro que havia  feito  o  dele  também  havia  feito  o seu. E que talvez até já houvesse até morrido. 

            Não me contive e perguntei:

            – E então ?

            Téo deu largo sorriso:

             – E aí  os  “cabras” apontaram as armas para  Pedrão, com os dedos nos gatilhos. Mas Lampião gritou para eles  abaixarem as armas.

            Téo se ajeitou na cadeira e prosseguiu:

            – Passada a agonia Lampião falou para Pedrão que fazia muito tempo não encontrava um homem da sua coragem.  E que um homem da qualidade de Pedrão não podia morrer senão em combate, como um homem  devia  morrer. E dizem até que convidou Pedrão para fazer parte do seu bando. Aí então Pedrão, com humildade, retirou o punhal do balcão, colocou-o na cintura, agradeceu a Lampião e lhe pediu permissão para continuar sua viagem, dizendo-lhe que aquele lhe seria um grande presente. E mais ainda, que se lembraria do seu encontro com Lampião, claro, aonde fosse e onde estivesse. E por último convidou Lampião para um dia ir lhe fazer uma visita, que seria bem recebido. Lampião disse para Pedrão partir a hora que desejasse, que estava livre. Depois, olhou para a “cabroeira” e ordenou que cada um gravasse bem a cara de Pedrão, para que nada pudesse lhe acontecer. Finalmente, abraçou Pedrão e ele partiu, acenando para  todos.

            Olhei para Téo e devo ter-lhe dado a impressão de incredulidade. Ela me olhou atentamente e me afirmou:

            – Pode acreditar, filho ! Pode acreditar !...

 

Luiz Nogueira Barros, édico, sócio efetivod do IHGA

 

 

Gazeta de Alagoas, 11.04.93

 

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