O que não tinha sorte...

 

 

 

            Não se sabia da sua origem. Indagado, respondia misteriosamente:

             O mundo é grande ! O mundo é grande !...

            Pedro Baia começou pintando a mesma  paisagem nos muros da cidade: uma campina com uma vegetação rasteira onde corria uma ema, com as asas abertas semelhando levantar vôo, tendo ao fundo suaves montanhas...

            Incomum, a pintura de Pedro despertou o interesse de todos, dividindo opiniões. Mas a maioria não tinha dúvidas:

            - É um grande pintor !

            E logo  Pedro  conseguiu trabalho, pintando as casas para  as festas de Natal e Ano Novo. Era visto cantarolando, feliz, nos degraus  das escadas. Conseguira trabalho e um novo nome: de  Pedro Báia havia passado a Pedro Ema, nome que de início não lhe incomodava, soando-lhe como uma homenagem. Mas  com o tempo  Pedro foi se tornando um homem amargurado, sobretudo quando o nome era gritado em coro por  bandos de meninos-moleques  em todas as ruas. Socorrido pelas pessoas de bom senso Pedro ouvia:

            - Bobagem Pedro, é uma questão de inveja.

            Pedro ficava feliz e prosseguia. Mas há sempre uma esquina na vida dos amargurados. Ao dobrá-la, Pedro ouvia dos meninos, endiabrados, e às vezes de alguns adultos:

            - Pedro, cadê a ema ?

            E Pedro meditava, em sua tristeza:

            - Vou parar de pintar !

            Terminadas as festas Pedro estava desempregado.

            Mas chegava a festa de Senhora Santana e o  “Seu”  Edmundo, chefe do leilão da santa, colocou Pedro para vender as oferendas, nas noites da festa. Numa noite Pedro gritava:

            - Quanto me dão por esta dúzia de ovos, quanto me dão ?

            E lá estavam os meninos acompanhando Pedro:

            - Pedro, é ovo de ema ou de galinha ?

            Aborrecidíssimo, Pedro jogou os ovos sobre os meninos. Perplexo, o “Seu”  Edmundo retirou uma cana de açucar da barraca da santa e a desferiu sobre a cabeça de Pedro, que desmaiou.

            Um dia Pedro foi trabalhar na casa do Padre Bulhões, cuidando de animais. Fez-se amigo de um macaco. Ao fim de algum tempo conseguiu convencer o  padre  de que  poderia ganhar  algum  dinheiro na feira, pois o macaco  havia aprendido os truques que ele  lhe  houvera ensinado. E num dia de feira  o padre  houve  que pedir ao delegado para  relaxar a prisão de Pedro, e também a do seu macaco que, irritado, durante o espetáculo, havia distribuído  mordidas a um sem número de pessoas.

            O prefeito, atendendo a um pedido do padre, colocou  Pedro  para  trabalhar  na construção do novo cemitério do bairro Camoxinga, ao pé do maçico da Serra do Poço - sobra do desmonte da Serra da Borborema acontecimento aí por volta de quatro milhões de anos por conta das intempéries.        

            Pedro já era um homem agressivo. As pessoas desconfiavam da sua mulher, uma jovem na flor dos anos e que Pedro ainda não havia engravidado. Tanto que, agora, Pedro era chamado de Pedro Capão, um apelido que o magoava.

            Numa tarde, pela proximidade da casa de Pedro do campo de futebol, a torcida gritava:

            - Pedro Baia  Ema  Capão me dá um tostão...me dá um tostão!

            Pedro ouvia e sabia que se referiam à sua mulher. Pegou  da espingarda e foi para o mato. De volta, ao final da tarde, torcedores retardatários  bebiam  num  boteco. Ao avistar Pedro um deles se aproximou e gritou:

            - Pedro Baia Ema Capão me dá um tostão...me dá um tostão!

            Pedro recuou. Armou a espingarda. E um estampido seguido de fogo e fumaça  esfacelou  a  cabeça do torcedor...

            Anos depois, bastante envelhecido, Pedro saiu da cadeia. E lá estava a sua mulher a esperá-lo, um tanto envelhecida, já com algumas rugas ainda claras. E os dois seguiram, de mãos dadas, pelas ruas de pessoas silenciosas. E  atingindo o extremo da cidade, já na estrada, “destamparam-se no oco do mundo”, como se costumava dizer  para  com os de origens e destinos incertos.

 

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