A sepultura da estrada

 

        A sepultura da estrada tinha uma pequena capela, encimada por uma pequenina cruz. E irradiava um mistério. Muitas vezes me perguntei porque pessoas eram sepultadas naquelas solidões, se existiam os cemitérios. Mais das vezes eu havia visto o padre encomendar os mortos: quando crianças, chamando-as de anjos; e adultos, exigindo-lhes alguma confissão e só depois ministrando-lhes a "extrema unção" como garantia para um repouso no céu. E por isso, o morto lá da sepultura da estrada ocupava as minhas inquietações. E pior: todos me torciam o nariz, se eu insistia sobre o mistério daquela pequenina sepultura.

       Um dia apelei para Téo, a minha velha empregada. Do tempo em que os mais velhos contavam histórias, Téo me encarou com alguma seriedade. Fiz-lhe ver que éramos grandes amigos. Que confiava nela mais do que em minha mãe, que durante anos só vivia grávida. Téo me olhou com um olhar de reprovação:

        - Coisa da vida. Você não pode censurar a sua mãe. Ela lhe quer bem. Isso é coisa do casamento.

        Voltei a insistir e ouvi:

        – Ouça bem: até concordo que você confie em mim. Afinal, cuido de você desde os seus primeiros dias de vida. Mas seria melhor não lhe contar aquela história. Ela é muito triste.

A última palavra de Téo me aguçou os sentidos. Fui decisivo:

        - Conta ou não conta ?

        A velha Téo sorriu, alisou minha cabeça e iniciou:

     - Muito bem! Naquela sepultura está um rapaz de nome Heitor. Quando morreu tinha trinta e três anos, a idade de Cristo. Foi morto naquele local. Namorava uma moça conhecida como uma das lindas, aqui da região. Todos sentiram a sua morte misteriosa. E ali, então, por vontade da família, foi erguida aquele pequena sepultura em forma de igreja, com aquela pequenina cruz. Mais um dia o pai de Heitor apareceu de namoro com a namorada de Heitor. E dizia, para as pessoas, que estava compensando a falta que o filho fazia para aquela moça que não se conformara com a morte de Heitor. E lá um dia os dois se casaram. O espanto foi geral. E houve até certa revolta da parte das pessoas. E mais revolta ainda quando do casamento nasceu um filho deformado, um monstrinho! Tão deformado, que adoeceu e sua doença durou trinta e três dias, após os quais morreu. A coincidência dos trinta e três dias com os trinta e três anos da idade de Heitor fez com que a polícia reabrisse o inquérito, tal a inquietação que o fato causou nas pessoas. E então se descobriu que a namorada de Heitor e, claro, o pai de Heitor, os dois safados,  é que haviam assassinado o pobre Heitor, pois já tinham, em segredo, um caso de amor.

         Curvei a cabeça sobre o joelho de Téo. Perplexo, quase não podia respirar. Ela me alisou a cabeça. Depois, respirei e perguntei:

        - E aos dois, o que aconteceu?

        Téo me respondeu, com tristeza:

        - O pai sucidou-se....na prisão. A moça ficou louca!

     Fiz-lhe a última pergunta:

     - E por que não mudam os restos de Heitor para um cemitério ?

     Téo me parecia triste. E concluiu:

    - Aí é que está. Pela tradição ele somente poderá ser mudado dali se a sua alma falar sobre o que aconteceu. A polícia descobriu tudo, mas a sua alma ainda não falou. Talvez pela tristeza com a traição. E se isso não acontecer Heitor ficará ali até o fim dos tempos.

        Olhei para Téo: ela se benzia e me olhava com ternura. E ainda me falou:

        – Eu nem deveria ter lhe contado. Mas contei. É um segredo. Não fale para ninguém, prometa-me.

        Demorei-me a dormir, imaginando sobre a maior das juras que devo ter feito em minha vida. Mas, finalmente, apoiando a cabeça sobre as suas pernas, o colo de ninar, terminei por adormecer. Na manhã seguinte fui até a janela, ainda muito cedo, e fiquei a observar, na curva da montanha, a pequenina sepultura, quase invisível. Alguns meninos já passavam pela rua. E me senti um tanto envelhecido, com o olhar perdido, dono de um enorme segredo.

         

Gazeta de Alagoas-6-12-92

 

Voltar