Zé Panta

 

Alto e magro, achava-se um "moreno queimado pelo sol". Preto, nunca! Passava muito cedo vendendo pães da padaria do "Seu" Siloé. Mesmo muito jovem tinha incomuns arranjos de inteligência. Ninguém que o tentasse pegar com tapeações. Tinha respostas fulminantes. Ria de outro  vendedor de pães quando dizia para a minha mãe:

           – Imagine a senhora que aquele vendedor de pão ao invés de dizer  "pão petrópolis", sai por aí gritando "pão petróleo.

          E depois, dava boas gargalhadas.

          Um dia Zé Panta  fabricou uma "sopa", espécie de ônibus, com tábuas de caixões de querosene, frágeis. Um sucesso!  O ônibus cabia quatro pessoas e descia a ladeira do velho Fomento Agrícola, indo parar nas areias do Ipanema. Algo inédito, a "sopa" revelava o engenheiro escondido que havia naquele menino cheio de arranjos de inteligência. E não espantava  ouvir  as pessoas afirmarem:

                – Um gênio! Só precisa de uma escola superior.

                Mas as noites de lua e o violão exerciam mais fascínio sobre o menino, que crescia e se fazia homem. Homem que adorava um terno de linho irlandês, branco, a balançar a vento. Tanto que, indagado sobre o preço do terno respondia:

                – Quem dá o preço é o vento.

                Depois ria, dava alguns passos e olhava para todos de modo sobranceiro.

                Um dia criou um conjunto musical. Dava festas. Fazia serenatas. E mais que isso, havia criado uma variante para  dançar o  bolero. Tinha um jeito especial de frear o passo, subitamente, e trazer a dama sobre o seu joelho aproximando-a  do seu  corpo e do seu rosto. Depois  soltava-se, ágil como um pássaro, liberando a dama para, outra vez atraí-la como um imã e, novamente repetir a cena do passo onde parava subitamente, arrancando aplausos nos salões onde a fumaça  dos cigarros criava fantasias sobre as lâmpadas multicoloridas. E isso não bastasse a sua voz já  era  comparada  com  as das aves canoras.

                Um dia, abrilhantando uma festa noutra cidade  e depois de muitos aplausos foi até o bar. Tomava uma cerveja  quando alguém o surpreendeu:

                – Estou  perplexo com a sua voz e a sua dança. Todos, aliás !

Já embriagado  Zé Panta respondeu-lhe, esquecido de que estava numa cidade que gozava da desagradável alcunha de Cornelândia, por parte da má vontade popular:

                – Ou o espanto é porque não tenho chifres?

                 O momento seguinte foi de quebra-quebra. A cidade gozava da fama de que as mulheres traíam exageradamente aos seus maridos. O final da festa revelou instrumentos musicais quebrados e os tocadores do conjunto dispersos, em correrias noite a dentro. Tempos depois, indagado, Zé Panta respondia:

                – Eu  devia estar de porre quando falei aquilo. Perdi o meu conjunto. Não posso pedir indenização. E pior: não posso  passar  por  lá tão  cedo!.

                O ano  48  começou  com  o maldoso boato:" Em 5O preto vai virar macaco!". Todos brincavam com o assunto. Mas não com Zé Panta, sempre capaz de alguma resposta desconcertante. Mas alguém precisava arriscar. E um dia um tipo louro, também seresteiro, de voz fina e que não suportava o sucesso de Zé Panta, foi estimulado a perguntar-lhe  sobre o assunto.  Zé Panta acabava de chegar na pracinha central, de D.Pedro II, quando o alourado, empertigado, a ele se dirigiu:

                – Então Zé Panta, preto vira ou não vira macaco quando 5O chegar ?.

                Zé Panta não se abalou ante a curiosidade de todos:

                – Claro que vai virar !

                O alourado riu, vitorioso. Todos riram. Fez-se silêncio e Zé Panta concluiu:

                – Mas há uma coisa que não lhe disseram.

                 O espanto redobrou. O alourado insistiu:

                – Pode falar !

                E todos ouviram:

                – Pois bem: no dia que preto virar macaco branco vai  virar  viado !..

 

Gazeta de Alagoas, 11. 1. 93

 

Voltar