Shopping Center - o templo !

    Fui lá para ver um filme sobre Cristovão Colombo. Minha filha,Valéria, fez-me companhia. Ela me havia alertado se tratar, provavelmente, de algo imperdível. Tem sido assim: ela sempre me alerta. E por conta disso tenho visto filmes da melhor qualidade.
    Num momento cruciante do filme Colombo, que não é um nobre, pergunta a um nobre o que ele vê através da janela. E ouve:

    - Vejo torres, prédios e outras tantas coisas

    E Colombo lhe responde:

    - Coisas feitas por pessoas como eu. A diferença básica entre nós é que vocês jamais farão isso

    O diálogo é profundo: mostra a diferença básica entre uma nobreza preguiçosa, gastadora de impostos e decadente, e o espírito empreendedor da burguesia em plena ascensão.
Saímos.Vi a pista de patinação no gelo. E fiquei a ver a multidão de moças e rapazes patinarem com agilidade, semelhando delicadas aves. Riam. Cumprimentavam-se. E se algum derrapava ou caía, então um estrondoso murmúrio de vozes ecoava pelo salão. Olhei para Valéria e sorri. Ela me disse:

    - Um dia vou experimentar.

    Encontrei com amigos da minha geração.Um deles me falou dos netos:

    - Com três netinhos já gastei mais de quinhentos mil cruzeiros, só em brincadeiras

    Sorri e lhe disse que netos não nascem todos os dias. Ele também riu e me disse não estar reclamando. Que estava feliz. Mas ainda ensaiou um discurso contra o custo de vida. Mais adiante encontrei outro amigo, de bermuda e camisa cheia de flores semelhando um rapazinho dos dias de hoje. Cumprimentou-me fugazmente e se foi, galante, ágil, com os cabelos visivelmente tingidos de preto, fazendo com que eu me sentisse um velho casarão mal assombrado.
    Observei as lojas de roupas, calçados e jogos eletrônicos: literalmente lotadas. Olhei para a livraria: pouquíssimas pessoas. E pensei:

    - O shopping é um templo ao lazer e ao consumo. E sua mística é o sonho.

    A conclusão me assustou. Depois, mais calmo, lembrei-me de que, no passado, a minha também foi uma geração de sonhos. Era verdade, refleti, o tamanho e as condições do sonho haviam mudado. A minha havia sido uma geração da era mecânica, lenta e pouco resolutiva. E aquela,que eu via, era uma geração da era eletrônica, rápida e resolutiva.
    Voltei a pensar no filme: uma apologia à capacidade empreendedora da burguesia. Colombo passa de explorador colonial a construtor de um Novo Mundo, castigando a nobreza, decadente, com pena de morte e trabalho físico. A mudança da figura de Colombo permite a comemoração dos quinhentos anos de descobrimento da América, com suas glórias e misérias, e quando na própria Europa a colonização é questionada.
    Isabel, de Espanha, (movida pelas intrigas da Corte) havia dito para Colombo:

    - Seu Novo Mundo é um desastre

    E ele contrapôs:

    - E o antigo é um sucesso?

    Isabel entendeu Colombo, ao afirmar:

    - Ele não me teme!

    De fato, o espírito empreendedor da burguesia não temeu nem a Igreja nem a Monarquia. Em 1789, com a Revolução Francesa, a burguesia assumiu o poder de mando no mundo...até hoje.
    O Shopping é um Novo Mundo, pós-colombiano, com as refinadas e modernas tentações que o consumismo pode oferecer. Colombo sabia o que fazia, e por isso está sendo absolvido pelos seus continuadores.

Gazeta de Alagoas-12-12-92

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