O cientista das flores

    Ele é assim: apaixonado ! Vive submerso no mundo das plantas e das flores, como um vigia ambiental. Mas não é só isso.Ele é, sobretudo, um vasculhador do mundo das plantas. Se a superfície da natureza lhe parece pouco, então, mergulha na terra em busca das raízes perguntando-lhes pelos mistérios da criação. Ouve o tempo e, se não o advinha, faz cumplicidade com as plantas que melhor sinalizam sobre tais mistérios. Essa é a humildade do cientista. Ele faz isso quando dialoga com a "Vanila planífolia" que, com seus longos ramos se abraça com volúpia aos galhos das cajazeiras, onde murcham, mas não se enrolam às folhas das laranjeiras, o que indica proximidade de chuvas. Tal paciência, inexistente no homem comum, faz com que ele espere por mais de dez anos pela floração de uma planta num vaso de xaxim, ou dessa mesma planta crescida sobre as "dracenas", plantas ornamentais da família das "liliáceas", que dão flores coloridas e variadas.
    Ele é assim: apaixonado ! Com florações, inflorescências, rácimos, botões, cores, seivas, flores desabrochadas e de outras vezes surpreendidas pela morte, vai nos passando um mundo de tal beleza plástica que, por vezes, dá-nos a impressão de um arco-íris ou um caleidoscópio. E mais notável:transmite-nos tudo isso sem a pretensão do estilista desavisado e arrogante. Mas antes, e antes mesmo, com aquela naturalidade apaixonada e sonhadora de uma terra recoberta de árvores e flores, num mundo calcinado pela usura e pelas guerras.
    Ele é assim: poeta das flores e cientista das suas sobrevivências ! Seu olfato perscruta odores, seu olhar prescruta as cores, seu tato prescruta chuvas, sua audição perscruta os ventos e sua gustação recusa o amargo fel da destruição das matas.
    Ele é assim: apaixonado ! Com o menino que resistiu dentro do adulto de olhar triste, sonha um mundo que somente as crianças sabem amar e admirar. E tal Vinicius de Moraes ainda lamenta a Flor de Hiroshima.
    Ele é assim: apaixonado ! E por isso chora a morte das matas, tal "Seu" Manoel, velho machadeiro (cortador de árvores) quando fala dos genipapeiros e das cajazeiras:

    - Não é para cortar pé de cajá. Nem de genipapo. Para quem corta, é uma malquerência tão grande, tão grande, que logo tem de se mudar do lugar, senão morre. Se for preciso cortá-los, então, a pessoa que o faz tem que chegar perto e dizer, três vezes, que apenas está pedindo os seus troncos de empréstimos. E só então pode fazer o corte. Mas depois tem que plantar duas mudas, dos dois.

    Ele é assim: apaixonado! E que nos lembra a floração azul do jacarandá no mês de janeiro, dos janeiros das nossas vidas. É um jardineiro do mundo, um cientista das flores. Um amante das orquídeas. E que se chama Luiz de Araújo Pereira.

Gazeta de Alagoas. 06.O6. 93

Esta matéria serviu de prefácio para o livro Ciência e Literatura, do autor em questão, lançado a 28 de fevereiro de 1996, no salão de conferências do Hotel Beiriz, sob o patrocínio da Academia de Medicina de Alagoas.

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