Natal: tema para domar leão e adorar Menino !
Tem sido assim:
nascemos, crescemos e nos fazemos homens. E mais das vezes
homens endurecidos pelas agruras da existência. Urge tudo ao
nosso redor: a inocência, a juventude, o despertar, o
estudar, o crescer e, finalmente, o encontrar o espaço da
nossa realização. E aos poucos vamos passando de cordeiros a
leões, que a vida exige assim. Do contrário, numa esquina
qualquer da selva do mundo, seremos devorados. E sobretudo
depois que transportaram a lei da selva para a sociedade
humana, num passe de mágica, para que se atendesse à
sobrevivência do mais apto, pecado manipulado com uma frieza
que choca os mais inocentes projetos de uma vida fraterna
sobre o planeta.
Enfim, leões endurecidos pela existência sacudimos a
juba empoeirada nos caminhos e urramos bem alto a que
viemos. E nem sempre o que urramos é fruto dos nossos
melhores sonhos, das nossas melhores conclusões, senão, por
vezes, as sobras de experiências angustiadas. Poucos, e
entre eles os santos, os filósofos e os sábios, conseguem
ter apascentados os seus piores instintos. E por isso a
média geral do comportamento humano pende mais para a falta
de fraternidade universal, tal o quadro de horror e guerras
instalados no planeta, ou convulsões sociais nesse meridiano
ou naquele paralelo - linhas que dividem a humanidade em
ilhas ora de angústias e ora de felicidades, feliz ou
infelizmente.
Mas eis que é Natal ! Como se fossem uma chave mágica os sininhos tocam aquela
musiquinha que aos poucos vai abrindo os nossos corações. As luzes piscam,
multicoloridas, em seus arranjos sobre as pequeninas e também sobre as grandes árvores
de Natal. Estou nas ruas, nos shoppings, nas lojas e em todos os lugares observando os
homens, esses leões endurecidos mas agora com um olhar descontraído. E como o homem é o
único animal que sabe rir também rio e recebo risos de cumprimentos. E ouço as mesmas
frases da infância:
- Boas Festas e Feliz Ano Novo!
Respondo o mesmo, também descontraído. E percebo a força mágica de tais palavras mesmo
passados todos esses anos. E chego a pensar:
- Os homens ainda não se lembraram de que o Natal poderia ser o momento mais
propício para a solução do gravíssimo problema da falta de fraternidade.
E me sinto um tolo, um leão que perdeu a ferocidade. Prossigo entre as pessoas, ávido
por lhes dizer mais coisas. Ávido por lhes falar sobre a minha conclusão sobre o Natal.
Mas elas estão muito ocupadas, fazendo compras, rindo, desejando boas festas e feliz ano
novo, sobrecarregadas de pacotes de presentes. Decido-me por esperar a noite chegar,
quando estaremos reunidos. E penso:
- Melhor
durante a noite ! Teremos mais tempo para uma conversa...
Mas vem a noite e as pessoas continuam ocupadas com brindes, comidas, abraços, taças de
champanhe e vinho, inebriadas pela musiquinha dos sininhos. Descubro que
não consigo lhes falar sobre as minhas conclusões. E passo a
ver no Natal um velho tema: tema para domar leão e adorar
menino ! E logo me sinto como um velho leão domado adorando
O Menino Jesus - motivo da festa de Natal.
A musiquinha dos sininhos enche os meus ouvidos. As
pessoas passam, tontas de alegria e de champanhe.
Também bebi um pouco e estou tonto. Confundo as coisas sobre
as quais desejava falar às pessoas. E decido-me por esperar
o próximo Natal !