Onde andará ele ?

    Por vezes trágicos, vítimas de algum destino indecifrável, alguns personagens populares nos sensibilizam, arrancando de nós outros, que vagamos em busca das soluções para os nossos problemas existenciais, algum ato de piedade nesses tempos de durezas e indiferenças. Quando somem, se é um tipo com o qual nos habituamos, então, não sei se por egoísmo ou outro tipo de sentimento nosso, ele faz falta. E só então nos damos conta e nos perguntamos:

    - Onde andará ele ?

    Faz algum tempo não vejo aquele homenzinho que metia as pernas atrofiadas, com os pés para cima e para trás, dentro de duas botas. Vestia-se de guarda de trânsito e, apito na boca, o quepe aprumado, controlava o trânsito defronte ao sinal da ponte sobre o Salgadinho, no final da ladeira da antiga Estação Rodoviária, cruzamento com a Barão de Atalaia.

    Fechava o sinal e ele, frenético, acenava e apitava para todos os lados, miúdo, enterrado nas botas e muitas vezes sendo identificado que por ali se encontrava apenas pelo apito com que alertava as pessoas. Parecia uma autoridade constituída (a boa autoridade), tal a convicção com que exercia aquela função de proteção à vida humana.

    Faz tempo não o vejo. O que eu teria economizado em ajuda àquela criatura, durante a sua ausência, está multiplicado em doações ao sem número de mães e meninos pobres (paupérrimos) que ali estacionaram e fizeram ponto para a exposição das suas misérias.

    Confesso que ao improvisado guarda de trânsito eu encontrava mais sentido para a minha ajuda. Não que os meninos e as mães não a mereçam, absolutamente. É que ele representava uma espécie de resistência à sua tragédia pessoal, como se a vida ainda lhe palpitasse nas entranhas. Além do mais, muitas vezes me detive em meditar como criaturas sadias se entregavam ao desastre sem nenhuma reação. E olhava aquele homenzinho cheio de vontade de viver e ser útil, sempre que eu não estava num bom dia, com os naturais maus momentos que a vida reserva para todos nós. Mais das vezes me distraí tentando interpretá-lo, quando o sinal já estava aberto e ele, agradecido pela ajuda, me ordenava prosseguir, já agora com alguma severidade da autoridade que precisava cuidar de outros tantos que já me incomodavam com as suas buzinas estridentes e neuróticas.

    Muitas vezes - observando aquele homenzinho - senti alguma vergonha de mim mesmo. E não sou uma pessoa fácil de se entregar, tais as dificuldades que tenho vencido ao longo da minha vida. De outras vezes me perguntei se não havia tomado, inconscientemente, aquele homenzinho de pernas para o ar, atoladas em duas botas, como confidente sem diálogo - algo paradoxal e estranho de se dizer - e como símbolo de que é preciso ir adiante. Por vezes me condenei quando me perguntei se estava lhe dando uma esmola, uma ajuda, ou lhe pagando uma consulta com o mais estranho dos psicanalistas - aquele com o qual não falamos, não dialogamos, apenas nos cumprimentamos, sorrimos, choramos, e logo a solução procurada por nós se avizinha. Sim, porque aquele homenzinho dispensava a confidência, a cumplicidade, o diálogo estéril, uma vez que representava um quadro, vivo, a dispensar palavras e capaz de forçar a meditações. Aquele homenzinho representava a força de querer viver. Era um exemplo ambulante, gritando e apitando aos quatro ventos do mundo. De uma vez me lembrei de Geir Campos, nosso grande poeta, quando disse, num verso, que desejava ser tão claro que quando dissesse já todos o entendessem.
    Acho que aquele homenzinho era assim: vivo e claro ! Não dava margens à dúvidas: materializava o desejo do poeta.
    Onde andará ele ?...

O Diário, 07. 06. 95

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