Ciclo históricos alagoanos

Eleições definidas: Heloísa e Kátia no segundo turno. Mas ainda está cedo para se afirmar que o voto definiu uma opção ideológica. O que se pode vislumbrar , mais ou menos, é o seguinte: que está havendo uma mudança sócio-histórica com indicativos de que um "ciclo de dominação historiográfica" está se esgotando. Que certos modelos, certos valores, já não animam a vontade popular, tais os desgastes sofridos ao longo dos anos. Tanto que, uma simples administração dentro dos padrões normais, como a de Ronaldo Lessa, resiste a toda a antiga fúria devastadora das elites, encolhidas, sem projeto de Estado, fato que sempre reclamei no aguardo de milagres.

A última e grande eleição

Quando da eleição de Divaldo Suruagy escrevi que me daria por satisfeito se ele conseguisse trazer as elites para um projeto de Estado, mostrando que alguns ciclos históricos haviam se encerrado melancolicamente, como os dos Góis Monteiro, Maltas, Fernandes Lima, dos Interventores de 30, Muniz Falcão, Lamenha Filho, Afrânio Lages, Luiz Cavalcante, etc. E que apenas os senadores Rui Palmeira, Teotônio Vilela e Arnon de Mello deixaram e qualificaram filhos para o processo político sucessório.

O Governador Divaldo Suruagy apresenta indicativos, sobretudo na parte de herdeiros varões, que podem fazer o seu ciclo terminar em si mesmo. Quando da eleição de Divaldo Suruagy cheguei a citar Charles Peguy, pensador francês, que nos afirmou " A história está cheia de oportunidades perdidas, de becos sem saídas. Um acontecimento luminoso deve ajudar a história a dar um passo adiante..." E a eleição de Divaldo Suruagy, com 82% da preferência alagoana, poderia e pode ser considerada um acontecimento luminoso. E era inteiramente imprevisível que o governador aos poucos fosse caindo da posição de mito para a de guerreiro de causas provavelmente perdidas, atualmente muitas delas quase perdidas, e outras tantas exigindo soluções dramáticas. Lest Thurov, economista americano, considera que as oligarquias sul-americanas não têm projeto de Estado, senão o de o esgotarem em benefício próprio. Daí que parecia pedir e esperar muito do governador Divaldo Suruagy, quando esperei que ele convocasse as elites alagoanas para um projeto de Estado, mesmo no sentido burguês tradicional, fato que aguardo até hoje, e também o que me faz crer que Lest Thurov tem razões na sua afirmativa. Estranhamente, entretanto, as tradicionais economias nordestinas, dos engenhos e das usinas apresentam-se em processo de falências. E as indústrias que prosperam, mais pelo Sul, têm a marca do capital internacional, de algum modo, como se as nossas forças econômicas tradicionais estivessem assumindo o papel de capatazes de uma Nação que não se definiu sobre orgulho nacional e comprometimentos internacionais.

Registro para a história

De outra vez escrevi sobre a marcha para o interior realizada pelos políticos, toda a vez que a decisão implicava em eleição para governador de Estado. O que ocorria, antigamente, era que os antigos doutores PSD e UDN se elegiam com a maior facilidade para a Assembléia Legislativa. Com o tempo, de promessas não cumpridas, os políticos do interior decidiram-se por ser seus próprios representantes, invertendo a representação na Assembléia Legislativa. Em função de tal situação a capital virou um deserto no período de eleição para governador. Até que ponto a mudança representativa alterou o comportamento político, ético, e ideológico da Assembléia, claro, somente após estudos comparativos dos períodos políticos antes e depois de tal fato, é que poderemos afirmar se tal inversão foi benéfica ou maléfica. O que pode se argüir, ao menos de imediato, é que algumas questões já devem ser postas pelos analistas e historiadores, com vistas ao futuro, por exemplos :

1 ) O abandono da capital, os descontentamentos com as políticas governamentais ( tanto estadual quanto federal ) acompanhadas da falta de herdeiros varões, ou de outros não qualificados em tempo hábil, foram razões eficientes para o avanço das forças menos conservadoras e mesmo das chamadas forças de esquerda ?

2 ) Se o avanço das esquerdas não passa ainda de puro descontentamento, uma atitude de represália, com a política historiográfica de dominação ? 

 3 ) Se apesar da significativa dificuldade ( até mesmo a falência de uma esquerda padrão, institucionalizada no poder, como a da ex-União Soviética ) pode-se afirmar que a esquerda ainda tem chance ideológica em Alagoas , num momento no qual seu maior expoente, Eduardo Bomfim, vem de ser derrotado ?

4 ) Se Heloísa Helena e Kátia Born representam uma esquerda ideológica, quando os seus partidos não têm uma proposta padrão ( tomando-se Marx como paradigma ) em seus estatutos ?

5 ) E, finalmente, se existe uma esquerda filosófica (ideológica) e outra político-social, independentes ?

As derrotas e a festividade eleitoral

A derrota, fragorosa embora setorial, do tradicional discurso de dominação política não pode e não deve passar apenas como um festival eleitoral. Todos sabemos que o final de um ciclo histórico não implica em que todos os seus personagens com ele naufraguem. Muitos republicanos de última hora mandaram muito mais, instituída a República, que os republicanos de primeira hora, uma vez que mantiveram seus bens patrimoniais, alguns títulos de importância e, o mais importante, suas reservas monetárias, somente sofrendo graves derrotas com a Revolução de 30, havendo que aguardarem o final da Segunda Grande Guerra para outra vez se reorganizarem, na UDN, no PSD, na Arena e finalmente no PFL, eminência parda do Neo-Liberalismo de um governo rotulado de social democrata. Derrotas eleitorais, portanto, não indicam que os vitoriosos, ocasionalmente, mudem o rumo ideológico do país. Tudo indica que os velhos monarquistas, republicanos de última hora, guardaram um sentimento colonialista nos seus inconscientes. Tanto que, reorganizaram-se na UDN, foram derrotados eleitoralmente, esgotaram-se nas tentativas de golpes de Estado, ressuscitaram na ARENA e, finalmente, fortaleceram-se no PFL, hoje quem verdadeiramente volta a ganhar eleições e serve de amparo à política Neo-Liberal que nos impõe a globalização da economia sob o manto da modernidade, eliminadas as velhas tradições da mídia esquerdista, eventualmente no poder, que sempre apregoou que a política de globalização não passava de entreguismo desenfreado. Portanto, alguns considerados avanços da esquerda, me fazem lembrar do seguinte: apertadas, as tradições conservadoras costumam fazer algumas concessões que os vanguardistas consideram avanços. Depois as pedem de volta, quando as coisas esfriam. Exemplo recente: as conquistas populares da Constituição de 88 estão sendo retiradas, progressivamente, cessadas as agitações internacionais com o fim da experiência socialista soviética, é bom que se diga, de natureza meramente político-partidária.

Precauções negligenciadas

Mesmo considerando-se que as esquerdas vão conseguindo vitórias eleitorais algumas gravíssimas situações estarão em seus caminhos, e que não podem ser negligenciadas:

1) Os "sem-terra", no passado tratados de modo romântico por Francisco Julião e suas ligas camponesas, hoje invadem propriedades, têm suas próprias lideranças ( maioria originada dentro da luta rural, telúrica, semelhando-se aos líderes das "chuaneries", ou chuanerias, ocorridas no Nordeste da França após a Revolução Francesa de 1789, dispensando, portanto, as lideranças de esquerda próprias da cidade, urbanas, inclusive porque elas não estão qualificadas para tal evento, de natureza mais social e ideologicamente ainda precisando de maiores qualificações, maiores decodificações;

2) Os resíduos nacionalistas parecem remanescer nas Forças Armadas e nas esquerdas, embora entre tais forças estejam os mortos e desaparecidos, tema de difícil solução para o caso de um confronto ideológico com as forças ( externas e internas ) da globalização da economia, que avançam de modo inexorável, desnacionalizando todo o antigo projeto ( brasileiro ) de Estado;

3) Extremamente difícil é imaginar discutir programas de esquerda, nacionalistas, com as novas gerações nascidas no clima dos shoppings centers, do vídeo-game, da calça jeans, da coca-cola, da violência, do sexo fácil, da AIDS e, finalmente, do sonho de estrelismo fácil imposto pela mídia que faz dos astros de televisão, cantores, jogadores de basquete e futebol e as lindas e peladas mulheres da revista Playboy, os novos padrões de realização e felicidade.

O peso das conjunturas nacional e mundial

É impossível evitarmos que os pesos das conjunturas nacionais e internacionais não influam na administração futura de Kátia Born ou de Heloísa Helena. Seria extrema bobagem imaginarmos que a futura prefeitura ficasse restrita a um padrão doméstico. Salta aos olhos que a administração Ronaldo Lessa transformou a Prefeitura de Maceió num mini-Estado, retirando-a da antiga condição de cozinha do Palácio dos Martírios. Mas se realizou tal milagre, não está livre de, nas negociações externas, sobretudo, defrontar-se com as novas condições da globalização da economia, que exigem contrapartidas nos empréstimos para a realização de obras sociais, bastando que sejam analisados os pedidos de empréstimos para realizações dos projetos que interessam ao turismo, como o Costa Dourada, ou o saneamento do Salgadinho, até agora com lento andamento. E em tal situação o velho discurso nacionalista ( ortodoxo ) enfrentará as chamadas exigências da modernidade, num teste definitivo para a sobrevivência ideológica do pensamento esquerdista. Portanto, uma festividade eleitoral, com vitórias setorizadas, ainda não significa que os rumos ideológicos brasileiros estejam definidos. No máximo poderá se dizer que estaremos dando alguns passos adiante. Mas até que cumpramos a premissa de Charles Peguy, já citado, muita água vai rolar.

Projetos culturais

Heloísa Helena e Kátia não foram claras nos seus projetos culturais. Aliás, nem mesmo tiveram tal preocupação. E não sei se, chegadas ao segundo turno sem uma definição clara sobre cultura, terão qualquer preocupação em tal sentido. Sobretudo com a cultura mais ortodoxa, de certo modo acadêmica, praticada por intelectuais ligados ao soneto, ao verso livre, ao teatro, à pintura, à escultura, ao ensaio, ao conto, ao romance, à historiografia e, finalmente, à memorialística, etc. O temor é aquele de que as esquerdas continuem apostando em festas alienantes como os tais "fests" e "trens de forró movidos à cachaça", que somente interessam aos fabricantes de bebidas e donos de hotéis porque, no mais, tais festas trazem a marca da disseminação das drogas e a violência que o álcool e o sexo impõem, e, finalmente, são altíssimos os custos pagos aos artistas. Não que eles devam ser evitados, mas controlados. Mas jamais deveriam superar eventos como o teatro popular, a biblioteca tanto fixa quanto itinerante, e o estímulo a outros tantos acontecimentos da cultura popular. O problema é que não sei onde conseguirão patrocínios para a cultura mais tradicional, aferrada às tradições nacionais, se os grandes patrocinadores preferem financiar os eventos menos comprometidos com as nossas tradições.

Cuidados finais para Kátia e Heloísa

No tocante às coligações, sobretudo. Convém examinarem, detidamente, todos os derrotados e suas coligações que sugeriram ligações com políticos que a população julgou estarem em final de ciclo histórico. Outrossim, verificarem os "recibos" que terão de assinar por conta de tais coligações. Não se esquecerem de que foram votadas pelo povo, numa instância extrema, imaginando estar votando num projeto de esperança.

A Gazeta de Alagoas. 13.10.96

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