Doutrina das águas (I )

Juntamente com alguns sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas visitei as Hidrelétricas de Paulo Afonso e Xingó, esta última tornada realidade no Governo Fernando Collor.

Impossível, em poucas linhas, resumir uma história do aproveitamento das águas para fins energéticos. Durante um encontro com o presidente da CHESF, o sócio Olavo Machado entregou um documento sobre a história e estudos do Rio São Francisco, e em seguido realizamos um debate. Muitas coisas foram ficando claras. Mas uma coisa ficou muito clara: aos 5O anos de idade a CHESF parece não ter uma doutrina muito bem definida para as águas do São Francisco.

Entre tantas inquietações, que levaram o governo a adiar a privatização, alguns fatos precisam ser colocados para a grande população e para os políticos:

1 - A transposição das águas do São Francisco para a criação de rios perenes em Pernambuco, Paraíba e Ceará, trará com conseqüência imediata a diminuição do volume de água, e diminuição do potencial energético da Xingó, justamente quando as condições ecológicas são de baixíssima precipitação nas cabeceiras do São Francisco tanto que, até hoje nenhum teste foi feito, de fato, para a abertura das comportas que controlam o excesso de água. O Rio São Francisco, a partir de Piranhas resume-se ao escoamento das águas usadas pelas gigantescas turbinas, tornando-se, assim, um rio do que sobra da atividade energética. O que fica claro é que o São Francsico, aprisionado está entre cinco hidrelétricas. Mas um dia, num futuro longínquo, pelo castigo das variações ecológicas que sequem as suas cabeceiras, a própria água que escapa pelas turbinas poderá obrigar a que as hidrelétricas precisem de um sistema que rebombeie as águas utilizadas, tal o que vemos em exposições nas lojas, onde uma bomba remaneja a água que desce e retorna, formando um circuito, sob pena de não virarem esculturas mortas, num cenário dantesco esculpido pela natureza – num grande canyon também dantesco e desertificado.

2 - A transposição das águas poderá levar para outros estados o que resta do rio. E justamente em estados que poderiam ter água a partir de subsolos, segundo estudos, abundantes de água, bastando, no caso de ser salobra, de um tratamento dessalinizador. Ou então irem buscar água nos rios da Bacia Amazônica, bem mais próximos. Portanto não seria justo que se procurasse tirar à população ribeirinha de Alagoas e Sergipe o que ainda lhe resta. Mas tudo poderá acontecer se os prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais alagoanos não definirem, de fato, suas posições com relação a tão grave projeto.

3 - As águas do São Francisco servem tanto à agricultura, melhor estruturada do lado sergipano, quanto às necessidades domésticas, mas fato que poderá sofrer colapso em tempo muito breve, pois os sistemas de captação de água cada dia ficam mais distantes do antigo leito do rio, exigindo investimentos por parte dos governos, cada dia mais e mais deficitários de orçamentos.

4 - As águas do São Francisco, contidas no grande lago artificial de Xingó, ainda estão aguardando um projeto de piscicultura que substitua o velho rio que matava a fome dos pobres e gerava riquezas para os produtores rurais, sobretudo na área do arroz – a rizicultura.

5 - O projeto das hidrelétricas brasileiras mostram-se frágeis diante do problema da privatização: ao longo dos anos não formularam uma doutrina que envolvesse os sentimentos nacionais, e até nacionalista, dos seus construtores. Tanto que, uma simples frase, dita não sei ao acaso, tal esta que tenho sempre escutado "Não há mais dinheiro para investimentos. E mesmo o rio já deu o que podia. Nele nada mais poderá ser feito", e a privatização parece decidida, irrefreável, aguçando o faro dos investidores estrangeiros e deprimindo a iniciativa privada nacional, tal o valor das cifras aventadas para a venda. Carecemos de uma estratégia nacionalista.

Doutrina das águas ( II)

A falta de estratégia de mercado, para efeito de privatização, tem alguns fundamentos:

1 - Ao longo dos anos a política trabalhista dos governos foi permanente fonte de causas trabalhistas que oneraram as verbas governamentais, pelo fato de o Estado nem sempre cumprir o que determinavam as leis trabalhistas, dando origem a greves por vezes prejudiciais.

2 - A hidrelétrica brasileira teve um fundamento de busca de independência, e portanto um sentimento nacionalista. E como tal também um componente fortemente paternalista, quando o Estado era o grande empregador. Sem contar o fato de que nem sempre foi poupado o erário, porque a hidrelétrica também atendeu ao capricho e uso da classe mandatária.

3- O uso de tecnologias adiantadas, vindas do Primeiro Mundo, além dos empréstimos externos, mostram o quanto estivemos dependentes, mesmo quando a aquisição de máquinas eram feitas em indústrias estrangeiras sediadas no Brasil, nacionalizadas, portanto. E prova que ainda não podemos dispensar tanto a alta tecnologia quanto o capital estrangeiro. Embora fique claro que a tecnologia aqui desenvolvida, pelos nosso engenheiros, com o tempo, está sendo aplicada em países altamente desenvolvidos, uma vez que nossas firmas estão a construir hidrelétricas fora do Brasil não cabendo aqui relacionar o nome de todas elas.

4 - Se por um lado somos vitoriosos, por outro lado, após o término das construções de cada hidrelétrica o que se viu foi o desemprego em massa, e a falta de uma política na qual o Estado e a população se irmanassem num sentimento nacionalista pelos grandes feitos, porque a educação e o amor para o bem que se conquistava não foi passado de modo permanente para a população, senão que por vezes serviu apenas para discursos inflamados da classe política, ávida por resultados eleitorais, ou eleitoreiros, se o termo parece o mais real do cotidiano político.

5- A descontinuidade entre a compreensão do povo para o bem que conquistava, e o uso político do bem conquistado permanece como enorme lacuna jamais preenchida pelo Estado, por ausência de doutrinamento.. Enquanto isso uma massa de desempregados perambulou pelos juizados em busca de vitórias trabalhistas frente a algumas ingratidões sofridas. Resultado: povo e desempregados não compreendem a grande conquista que realizaram, os primeiros com suas mãos machucadas e por vezes com o custo de suas vidas, e os segundos com os seus impostos destinados para a grandeza do evento. Quer dizer, finalmente : o Estado brasileiro foi incompetente na defesa do patrimônio conquistado, tornando-se presa frágil diante da cobiça internacional, na hora das privatizações. E por isso estamos na iminência da venda das nossas hidrelétricas por preços que somente podem ter um nome: ignomínia, afronta, mais apropriadamente ! E sem a certeza de que capitais nacionais participem dos leilões, o que ainda seria um lenitivo.

Diante de tantas dúvidas, ouvindo sempre a mesma expressão "O governo não tem verbas para projetos novos. Ou então, "o São Francisco está no limite máximo de uso, e nada há por ser feito", acordei muito cedo e fui para a margem do grande canyon, que ainda prefiro chamar de vale. E lá fiquei a observar a sobra das águas jogadas por elas, estrepitando sobre as pedras, formando ondas nas quais os pequenos arco-íris geravam fantasias luminosas contra a paisagem escavada ao longo dos anos, e já recoberta por plantas teimosas que surgem por todos os lados, por todas as brechas das pedras, algumas floridas, de umas florações teimosas, fiéis às suas tradições genéticas, outras mutantes, pequenas, mas resistentes à toda sorte de agressões impostas. E vi os homens, operários e engenheiros, irmanados, trabalhando, numa imensa tarefa de domarem a natureza e dela extrairem um bem, a energia, para o atendimento às aspirações do desenvolvimento e do progresso. E bendisse aqueles homens extraordinários, aqueles heróis que poderão ficar sem um bronze, sem um mármore, para o futuro. E retornei ao hotel, pesaroso, porque divisei urubus num céu plúmbeo contra um sol vermelho, e me lembrei dos leilões de privatizações...

Luiz Nogueira Barros é médico, e sócio efetivo do IHGAL e da AAL

Gazeta de Alagoas

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