Fatalidade 1
Só os desinformados e os que não têm mais capacidade para uma reação organizada acreditam no recuo da desestatização.
No comando da questão, o Presidente Fernando Henrique Cardoso evoluiu da teoria da dependência para a da interdependência. Na verdade, a sua teoria da interdependência, juntamente com o seu colega sociólogo Falleto, nunca foi uma análise crítica do capitalismo, mas uma reflexão sobre como inserir as economias dependentes no contexto do capitalismo internacional às custas de negociações políticas favoráveis aos dependentes.
Quem leu a entrevista de Pierre Bordieu, do Colégio de França, no Jornal Wolrd Média de nº 1.033, compreende que a países como Espanha, França, Itália e Inglaterra, interessa, pela perda dos seus antigos impérios conquistados à polvora, a aventura pelos caminhos de uma nova colonização histórica, agora centrada numa espécie de recolonização econômico-cultural, totalmente compatível com o que Pierre Bordieu chama de lógica da compensação histórica. Aliás, a Europa - berço da nossa origem - sempre foi um cemitério mal assombrado e seus fantasmas costumam migrar para os projetos políticos do Terceiro Mundo. Se à Alemanha o fato parece despercebido, é bom que se compreenda que ela enfrenta o problema da identidade nacional após a queda do Muro de Berlim. E também pelo fato de haver sido o contraponto da Revolução Francesa, de vocação universal, embora a serviço do nacionalismo francês, do mesmo modo que o internacionalismo comunista sempre esteve a serviço do nacionalismo russo. Mas, e apesar disso, a Alemanha também estará entre nós, comprando o que for possível do nosso espólio desestatizado.
Durante anos tomamos dinheiro no mercado internacional. Grande parte da nossa indústria foi montada com base em empréstimos internacionais. A nossa produção sempre enfrentou o seguinte: a) a de alta qualidade enfrentando as sobretaxas protecionistas impostas pelo países do Primeiro Mundo, dificultando nossa inserção no processo de livre concorrência; b) a de baixa qualidade ficando restrita ao nosso mercado interno. Tais fatos fizeram do nosso parque industrial um parque industrial endividado, dependente e montado sobre uma fantástica dívida externa.
Estranhamente, têm sido estatais estrangeiras os compradores de estatais do Terceiro Mundo: uma estatal espanhola comprou a estatal de energia da Argentina; uma estatal francesa está no páreo para ser acionista da nossa estatal de comunicação. Nos Estados Unidos a iniciativa privada entra no processo na extensão dos serviços públicos, com isso permitindo que o Estado mantenha um certo "poder de barganha", mantendo suas estatais, e justifique o fato de recolher impostos, o que o obriga à prestação de serviços sociais essenciais.
Por enquanto não há nada a temer. O que se diz é que apenas haverá flexibilização dos monopólios, que continuarão com a União. E que o capital que se prentende atrair não será o especulativo, mas o de risco, que virá se incorporar à nossa história e desenvolvimento.
Mas vale a pena não nos esquecermos de um fato que não está sendo discutido: o dinheiro da venda das estatais servirá para abater a dívida externa ? Minimizará os efeitos da dívida interna ? Será, de fato, destinada a serviços básicos nas áreas de educação, saúde, estradas e saneamento ?
A última barreira - o sindicalismo de confronto - está caindo não pelas armas, mas pelos instrumentos da justiça, confiscado, endividado. Um novo sindicalismo, o de resultado, que um dia ( e não será de imediato ), se enganado, poderá voltar a ser de confronto.
A classe média brasileira, que durante anos viveu da ilusão da poupança como fundamento para a aquisição de bens, sofreu vários golpes nas mudanças da moeda. E já não tem outra fonte de recurso que não um salário contido em limites historicamente impensáveis. E nem está apta para avaliar os custos do momento histórico.
Tudo conspira contra a estatização, anunciando o fim de um ciclo histórico. O que se espera é a magia de devedores crônicos imporem no mercado internacional vendas e acordos políticos que lhes sejam favoráveis. Muito difícil. Mas, ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, cabe provar a tese na qual acredita e pela qual está lutando.
O Diário, 15.06.95
Fatalidade 2
Baruch de Espinoza, pensador holandez, excomungado pela comunidade judáica de Amsterdam, em 27 de julho de 1656, quando a Holanda já adotara o " livre comércio" e considerava o poder civil como "não-subserviente" à Igreja, nos alerta para a chamada " substituição eficaz " dentro da história das sociedades humanas. Exemplos: a ) O cristianismo substituiu o antropomorfismo e o politeismo dos gregos antigos em nome de um único Deus; b ) a representação divina do Imperador; c ) a decadência moral dos antigos impérios; d ) a necessidade de uma nova ordem econômica, etc. O livre mercado susbstituiu, de modo mais eficaz, o mercado planejado, centralizado.
O intervalo de duas grandes guerras mundiais, com a configuração de dois grandes blocos políticos que manteriam o mundo sob as suas estreitas ambições propiciou, como substituição contra os dois senhores do mundo, um nacionalismo dos países menos desenvolvidos, o que não evitou que eles se ligassem, por motivos da interdependência universal, de algum modo, a um dos blocos diante da possibilidade de um cataclismo de proporções apocalípticas. A fragilidade de tal nacionalismo centrava-se na possibilidade de aproveitar-se alguma coisa de um ou do outro senhor do mundo, falando claramente, União Soviética e Estados Unidos. A Guerra Fria alimentou tal nacionalismo, embora seu conteúdo real não conseguisse ir além do fato de propiciar deslocamentos ideológicos para um dos lados. Na verdade aquele nacionalismo do entre-guerra e mesmo o do pós-guerra de 45, era una nacionalismo dependente e atendia a uma utopia dos países em desenvolvimento do Terceiro Mundo. Daqueles anos, a maior tentativa de formação de um bloco político independente aconteceu com Abdhal Nasser, quando criou a RAU - Repúblicas Árabes Unidas, lastreada no petróleo. E nenhum outro bloco político surgiu entre os países em desenvolvimento com fins a fazer face aos dois senhores do mundo, que se comunicavam através de um "Telefone Vermelho", cada um devendo ter telefones especiais para os seus consorciados dos atos de guerra, como a China, a Inglaterra e a França, membros do fechadíssimo Clube Atômico - entidade apocalíptica que poderia destruir o mundo. Recentemente o Tratado de Maastricht - reunificação da Europa - exercita-se, mesmo com as pernas bambas, para devolver ao velho continente muitos privilégios perdidos.
Suspensa a experiência socialista soviética (de natureza político-militar-burocrático-partidária) o internacionalismo comunista volta a servir ao velho nacionalismo russo, deixando à orfandade os antigos e mais das vezes apenas estratégicos deslocamentos ideológicos com fins à obtenção de vantagens internacionais, ou então à busca de um equilíbrio contra a guerra atômica, doutrina que, se não ficar comprovada como definitiva, ao menos alimentou muitas fantasias e somente será comprovada se a tal guerra acontecer dentro do período de restauração do capitalismo, em processo supostamente triunfante.
Mas eis que, outra vez, os países em desenvolvimento se defrontam com nova forma de internacionalismo, agora sem mais aqueles dois grandes senhores do mundo, porque, um deles, arruinado economicamente, passa para a condição de economia de Terceiro Mundo, embora ainda tendo nas mãos um esquema militar de Primeiro Mundo e pretendendo inserção num mercado mundial loteado, parqueado e com perspectivas que, se não caminham para o esgotamento, exigem das ciências novas descobertas que abram um "guarda-chuva" para todos - utopia que se chama otimização do mundo e da economia, ainda movida pela luta disfarçada com o nome de livre concorrência.
O quadro, hoje, é o seguinte: esgotou-se o nacionalismo frágil e romântico dos anos da Guerra Fria, e ainda nos move um nacionalismo cego e irracional que acredita ser possível reagir ao quadro que se configura como de adesão a um internacionalismo não mais do Clube Atômico, mas ao Grupo dos Sete, que mantém o mundo sob rédeas curtas. Ou melhor : sob rédeas econômicas.
Estamos no contexto de uma internacionalização da economia. Duas coisas nos aguardam: a) se entregarmos as nossas reservas estratégicas poderemos nos tornar "país-filial privilegiado" - dentro da nova composição do mundo; b) se incendiarmos nossos remanescentes nacionalistas poderemos arder em holocausto ao atraso, como dizem os teóricos da modernidade.
O dilema é o seguinte: que modelo de "substituição eficaz" é possível para os países em desenvolvimento ?
O Diário
16.06.95