O mundo cai na armadilha da globalização
Quando já se imaginava que o problema ideológico capitalismo versus socialismo houvesse chegado ao fim, com o encerramento da experiência socialista da ex-União Soviética, realizando-se assim a utopia do sistema ideológico único, no mundo, de repente, parece que a transição russa para o capitalismo não será tão fácil como se presumia. Lenin, em 1917, mudou as razões de Estado da velha Rússia. Manteve as razões de Estado no tocante ao expansionismo territoriais, mas torceu as razões ideológicas levando seu país da monarquia para o socialismo, abrindo um hiato que dificultou seu desenvolvimento histórico natural, queimando etapa, criando a União Soviética. E o ex-império volta a conturbar o mundo, com sua economia danificada, suas armas atômicas intactas e, o mais grave, sem conseguir se inserir num contexto de capitalismo sem grandes estragos tanto na sua política interna quanto na externa. E justamente quando está nascendo o mundo do próximo milênio, com sua nova sociedade, a sociedade 20 por 80, do mundo cibernético, dos computadores e do desemprego. De um capitalismo que tudo indica vai substituindo o lucro pela usura, liquidando com os Estados nacionais em nome de alguns trilhões de dólares acumulados pela iniciativa privada.
O livro "A armadilha da globalização" , com algumas outras anotações intercaladas, dos jornalistas e cientistas sociais Hans-Peter Martin e Herald Schuman, da Editora Globo, é um roteiro para esse trabalho.
Mundo do próximo milênio
Reúnem-se, em fins de setembro de 1995, 500 representantes da riqueza mundial.. A reunião foi promovida por Mikail Gorbachev, no Fairmont Hotel. Ao fundo o Vale do Silício, da revolução dos computadores, Gorbachev presente, anfitrião, agraciado com um velho casarão de uma penitenciária desativada após a Guerra Fria, que lhe foi doada para a fundação que tem o seu nome. Foi ator principal nos fatos que marcaram os atuais rumos tomados pela ex-União Soviética. .
Presenças ilustres:
George Bush, George Schultz e Margareth Tatcher. Ted Turner, proprietário da CNN, que fundiu suas empresas com as da Time Warner. Washington SyChip, mandarin do comércio asiático. As maiores cabeças pensante de Stanford, Harvard e Oxford. Jonh Gage, dono de grande firma de computadores. O governador da Saxônia, Kurt Biedenkopf, Heulett-Packard, Lest Brown, diretor do Worldwatch Intitute, fundado em 1974 e ligado aos problemas do meio ambiente com preocupações ecológicas, estudioso da capacidade dos estoques de trigo, sobretudo ( mas também de outros cereais, como o milho e o arroz ), como nova arma mundial, etc...
As regras para os participantes:
Severíssimas: 5 minutos para falarem. Dois minutos para rebaterem. A imprensa a distância .
As falas
Jonh Gage: empregamos por computador e desempregamos também por ele.
A expressão "ttiynaimente", de Zbigniev Brzezinski, polonês, do Serviço de Segurança do Governo Carter, presente para explicitar "diversão anestesiante e alimento suficiente" ( entretenimento) faz parte do cardápio. O mundo não precisará é o discurso dominante de mais do que 20% de empregados para produzirem o necessário para a humanidade. O restante, 80% vai ter que se contentar com "entretenimentos": Os 80% de baixo terão enormes problemas ! Para Scot MacNealy o problema do futuro será: "Ter o que almoçar ou ser almoçado".
A lei da Selva no contexto da burguesia
A lei da selva, de Charles Darwin, nunca foi tão deformada. Naquele novembro de 1859, quando lançara sua obra, "Origem das Espécies" o sábio não contava com a sua transposição para a sociedade dos homens. Hobbes, filósofo britânico, com o aforismo "bellum omnium contra omnes" foi o coroamento da premissa da sociedade burguesa para, até certo ponto, a inocente e harmônica luta pela sobrevivência travada entre os três reinos do planeta, segundo Charles Darwin. A competição irracional mas harmônica entre os três reinos da natureza, descoberta por Darwin, foi transformada em competição social-animalesca entre seres racionais, num passe de mágica. E pouco importou que a argüição de Darwin sobre homens e macacos superiores terem um ancestral comum, liquidando com o mito do judeu primitivo, Adão, como embrião da humanidade, importando, de fato, a luta entre os homens, com o extermínios. Reflexões grafadas no livro "Liberdade e socialismo", de Dirceu Lindoso.
O admirável mundo novo
.Aldous Huxley de "Admirável Mundo Novo", ficção irônica sobre uma sociedade geneticamente constituída de seres superiores e inferiores: alfas e betas, gamas, deltas e ipsilones, sendo os alfas e betas com características superiores. E os demais, os deltas, os gamas e os ipsilones, originários de produção em massa, espécie de "fordização , como na produção de automóveis, mas cujo processo de nascimento, no livro, é chamado de "bokanovskzação", o que eqüivale a produção em massa.. Entre os alfas e betas poderão estar os 20% que conseguirão empregos, Os demais os deltas, gamas e ipsilones nem isso conseguirão, embora na ficção de Huxley realizassem trabalhos inferiores. . O critério utilizado por Huxley para a "boskanovskização" foi " a quantia de álcool no cérebro durante a gestação de cada novo ser". Não há notícias de como os homens do Fairmont Hotel comemoram o encontro.
Nasce a "sociedade de um quinto".
A sociedade do Estado do bem-estar social torna-se uma ameaça ao futuro, na visão desses endinheirados homens. E o futuro, bem entendido e examinado, adquire a conotação de "retroagir". Portanto, "para trás, eis o lema do futuro". O Estado do bem estar social fora dos caminhos da iniciativa privada. Está nascendo também a sociedade do sacrifício social.
As falam continuam:
Heinrich Von Pierer
Presidente da Siemens, foi muito claro: "O vento da concorrência internacional virou tempestade e o verdadeiro furacão ainda está por vir"
Fim do Estado:
Desregulamentação é a palavra de ordem, liberalização do comércio e do fluxo de capitais, privatização de empresas estatais, temas logo assimilados pelos governos nacionais e pelas organizações internacionais: FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio. Em apoio a tais teses veio em socorro a falência do modelo centralizante do Leste Europeu. Gorbachev recebeu o Prêmio Nobel, com a sua Glasnost e Perestroika. Fukuyama teorizou o fim da história...
O futuro
O futuro correrá nos trilhos da máxima eficiência e do mínimo salário. Hans-Peter Martin cita Karl Marx, com a seguinte frase que considera profética: " A tendência geral da produção capitalista não é de aumentar o nível médio das remunerações, mas sim de reduzi-lo, ou achatar o valor do trabalho até seu limite mínimo". O rebaixamento social das nações não desperta qualquer temor por parte dos participantes da reunião do "Fairmont Hotel". Os excluídos, os 80%, com o tempo, se tornarão supérfluos, descartáveis, marginalizados.
Apocalipse
Embora a reunião de setembro de 1995 pareça haver estabelecido bases da sociedade de 20 por 80, o livro "Armadilha da Globalização", apocalíptico, registra o seguinte:
"O que existe nos mercados financeiros segue à risca uma lógica largamente comprovável e é provocado pelos próprios governos dos grandes países industrializados. Em nome da doutrina da intocabilidade do mercado livre, desde a década de 1970 ( Canadá, Estados Unidos, República Federal da Alemanha, Suíça, etc ) vêm demolindo as cancelas que permitiam administrar o trânsito de dinheiro e o fluxo de capitais na passagem das fronteiras, em função das exigências dos grandes bancos e da rápida expansão industrial. Depois viria o Japão, Inglaterra, França, e a iniciativa privada, através dos bancos e fundos de pensão acumularam entre 6 a 7 trilhões de dólares apenas naquela década..
Preocupações de Chefes de Estado
Jonh Major, ex-primeiro ministro da Inglaterra:
"É inadmissível que manobras nos mercados financeiros ocorram com tamanha velocidade e numa ordem de grandeza que as colocam totalmente fora do controle dos governos e instituições internacionais"
Lamberto Dini, presidente do Banco Central Italiano: "Não devia ser permitido aos mercados minarem toda a política econômica de um país"
Jacques Chirac, presidente da França: "A globalização é a AIDS da economia"
Voltando a Bretton Wood, no pós-guerra de 45
Algumas regras devem ser lembradas:
a - Para as moedas de todos os países participantes, vencedores da Segunda Grande Guerra Mundial, "valia uma paridade fixa com relação ao dólar, enquanto o banco central americano garantia a conversão das reservas em ouro.
b - Simultâneamente, as transações com moedas estavam submetidas à fiscalização do governo. A troca, ou transferência de quantias vultosas na maioria dos países exigia autorização prévia.
c A internacionalização do dólar, portanto, estava compensada pela regras para o câmbio, controle de remessas de lucros e transferências de capital. Os fluxos de capital, portanto estavam controlados, numa medida que favorecia o tempo na busca de maiores entendimentos. O dinheiro não entrava nem fugia através dos computadores, ao menos como se vê nos dias de hoje.
Em nome dos trilhões de dólares
Acumulados pela iniciativa privada desde a década de 70 vale tudo, para os homens do Fairmont Hotel, importando muito pouco o destino dos Estados nacionais.
Robert Kurz, sociólogo alemão de "Colapso da modernização", aventa a possibilidade de ressurreições nacionalistas nos países globalizados, satelitizados, onde o Estrado do bem estar social vai acabando, numa leitura e interpretação da sociedade onde a economia afastou todas as correntes do pensamento da formulação de uma doutrina de Estado.
No Primeiro Mundo, o emprobrecimento da classe média vai se tornando um fato consumado. As quedas das receitas governamentais por conta de isenções de impostos que atendem à usura do capitalismo são grandes responsáveis No Terceiro Mundo os dados são mais alarmantes, sobretudo no tocante à explosão demográfica..
Não há qualquer garantia de que em nome dos trilhões de dólares os canhões, os jatos e os navios de guerra, os submarinos, os mísseis e até mesmo a bomba atômica, serão ou não usados.
A Europa versus Estados Unidos,
A Europa, que pretende se reunificar através do Tratado de Maastricht, avalizada pela Alemanha, de Helmut Khol, hoje, e ontem também por François Mitterrand, com a adoção da moeda única, o Euro, poderá controlar os juros internos e tornar os "paraísos fiscais" menos atraentes, criando assim um mercado de 400 milhões de consumidores, libertando-se da dependência do dólar, criando um novo modelo de comportamento, um novo pólo de atenções do mundo.
O discurso político do próximo século
Ou os Estados Unidos tomam a decisão de reverter o processo de globalização em função do velho Estado de bem estar social, imaginado, diga-se de passagem, por Franklin Roosevelt, ou a Europa poderá fazer isto se o Tratado de Maastricht for vitorioso. Mas cabe perguntar, ainda, se Europa e Estados Unidos deterão a globalização da economia ou se preferirão se engalfinhar numa nova luta pela hegemonia econômica do mundo.
Quanto aos políticos e governos do Terceiro Mundo, ajoelhados diante da globalização, restam-lhes ir administrando a miséria e as inquietações sociais dos seus países, porque já não terão estatais para exercitarem nepotismos e fraudes; nem terão mais verbas a fundo perdido e, por fim, o projeto de qualquer obra de efeito político-eleitoreiro vai exigir a contrapartida de 50% no momento da sua execução quando da tomada de empréstimo internacional, fato que exporá muitos governos ao vexame de não disporem de tal quantia. O capitalismo já assumiu uma nova forma: nada de riscos. Melhor a especulação. Investimentos ainda, mas sem sentimatalismos sociais! E filantropia também o mínimo. Do lucro à usura, eis o grande salto do capitalismo desde a década 70, e agora sistematizado pelos homens mais ricos do mundo, reunidos no Fairmont Hotel.
Ideologização
Quem leu "Fim de Século", de Hillel Shuwartz, compreende porque todo final de século propicia o surgimento de messianismos e profetas, permitindo que a humanidade se transforme numa raça de bobos, que em tudo acredita.
Benjamin Barber, sociólogo da Universidade Rutgers, Nova Jersey, alerta-nos para o tema "Globalização e Fragmentação". A globalização, o otimismo da abertura das fronteiras e do sistema de livre mercados e juros otimização do mundo e que ele chama de "McDonaldização" do mundo; e do outro lado o que ele chama de "Djihad", ou "regressão tribal", embrião de reações nacionalistas e guerras regionais de libertação, toda a vez que os problemas de raça, religião e geografia e economia , principalmente estes, padecerem de solução adequada dentro do processo de globalização.
O temor, desses anos de globalização, é que a cor das regressões tribais seja a da miséria, com máscaras sobrepostas.
Fragilidade da globalização
Algo meio fictício no dizer de Luís Veríssimo, como Bolsa de Valores, faz despencar impérios. E um da dimensão da ex-União Soviética, que encerrou uma experiência político-militar-burocrática, faz tremer os alicerces do mundo através de uma economia danificado e um destino incerto. Sem se contar que por ali se tem conhecimento de um arsenal atômico que parece não haver sido desativado a ponto de que a humanidade possa dormir tranqüila.
Hora da opção
Ocorrerá quando a globalização atingir seu nível crítico. Quando alguns países que levaram a globalização a nível crítico mostrarem a sua verdadeira e triste face de país neo-colonizado. Tanto do ponto vista econômico quanto cultural , e então perdidos na miséria econômica e nas suas lembranças em cujos atavismos estão inscritas as glórias que marcaram os seus nascimentos como Estado e Nação, esboçarão alguma reação, em função da evasão dos seus bens e do futuro dos filhos e netos.
O capitalismo, na ronda dos séculos e tal uma serpente, vem expulsando todas as demais correntes do pensamento da formulação de uma doutrina de Estado. Isolou-se: isso é gravíssimo ! E tem extrema dificuldade para dividir seus lucros. E mais ainda inserir, na estrutura complicadíssima do livre mercado, uma economia do tamanho do ex-União Soviética, quando se sabia da sua incapacidade de acompanhar a tecnologia ocidental. E precisa resolver outra questão crucial: ter uma melhor política com relação aos bloqueios econômicos que impõe àquelas nações que por acaso lhe contestam o direito de ser uno e universal, espécie de pai do universo.
O fim da história
Não a de Fukuyama, aquele japonezinho engraçado que brincou com o conceito de história.
Nada nos garante que mesmo a realização de objetivos superiores colocados acima das nossas individualidades possa ser considerada a felicidade, na interpretação de Giorg Hegel. E poderemos estar caindo na sua velha afirmação: "A história não é o reino da felicidade. As épocas de felicidade são suas páginas vazias....", e então estaremos sempre a reescrever a história. Como farsa, ou como tragédia, eis a questão ! O melhor é esperar !
Gazeta de Alagoas - 13.08.98