A morte e Joana dŽArc

 

Durante o sacrifício de Joana d’ Arc, em Ruão, a 3O de maio de 1431, na praça Vieux Marché, podia ser lido num poste, em grandes letras:

 

 

" Joana, que se fez conhecer pela Donzela, mentirosa, perniciosa, abusadora do povo, advinha, supersticiosa, blasfemadora de Deus, presunçosa, malcrente na fé de Jesus Cristo, jactaciosa, idólatra, cruel, dissoluta, invocadora de diabos, apóstata, cismática e herética"

A 09 de janeiro de 1431 da-se a ordenação de abertura do julgamento de Joana d’ Arc. Pierre Cauchon, Bispo de Beauvais, lê :"

"A todos quantos virem as presentes palavras, nós, Pedro, pela misericórdia divina Bispo de Beauvais, e o irmão Jean de la Maistre, auxiliado pelo mestre Jean Braverant, Inquisidor da fé e da perversidade herética no Reino da França. Saudamos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi desejo da Divina Providência que uma mulher, comumente chamada de Donzela fosse capturada...esquecida da dignidade própria do seu sexo...de toda a vergonha...vestindo por singular e monstruosa deformação trajes insólitos, convenientes somente aos homens..."

A subserviência de Cauchon invoca o ""Sereníssimo e Cristianíssimo D. Henrique VI, Rei da França e da Inglaterra", ainda criança e tendo como Regente o Duque de Bedford, que permitiu ao Papa Martinho V participar da "colação de benefícios do Rei de Reims, Ricardo VI", numa França ocupada pelos ingleses face à demência precoce deste rei. Pierre Cauchonn é um homem do seu tempo, no qual os talentos não se expandiam muito, se fossem apenas movidos pelas virtudes e escrúpulos. Foi reitor da Universidade de París. Sabia da importância de prestigiar os inglêses e como castigar os chamados hereges, com fins a que a fé não fosse ofendida, mesmo em suposição. Era doutor em Teologia. Era capaz de qualquer negócio em função da sua ascensão. E levar Joana para o sacrifício, na praça Vieux Marché, em Ruão, não lhe era uma oportunidade que pudesse ser desperdiçada. Também o Cardeal Winchester deseja usar Joana como um exemplo para o povinho, a arraia-miúda, que via em Joana alguma coisa superior. Warwick, governador do castelo onde Joana estava presa também soube ser subserviente, quando, numa carta, foi muito claro: " O rei não quer - e o ordena com todo o empenho - que ela morra de morte natural, pois Joana saiu-lhe cara e ele, na realidade pagou por ela um alto preço. Ele entende que ela deve morrer por determinação da justiça e que seja queimada".

Fazia pouco, a mãe de Ricardo VI, Isabel da Baviera, a "Libertina’, face à demência do seu filho e ao casamento de sua filha Catarina com Ricardo V da Inglaterra, havia doado o Reino da França ao monarca inglês, como presente de casamento, ato abençoado por Felipe, o Bom, Duque de Borgonha.

E como persistiam dúvidas sobre a legitimidade da Ricardo VII, e, havendo falecido Henrique V, o Regente Bedford haveria de ser o "todo-poderoso" do Reino da Inglaterra e uma França a ele incorporado, por ser o tutor de Ricardo VI. Mas havia resistência em Orleans, mesmo militarmente sitiada. Foi para lá que "as vozes de Deus" guiaram Joana d’ Arc. O refrão popular corria por toda a França: "A França, perdida uma mulher, será recuperada por uma donzela".

Joana procura Robert Baudricourt, um "condottière ", chefe militar contratador de mercenários. Não obtém seu apoio. É muito estranho falar em nome de Deus. Depois Joana convence dois dos seus capitães, Poulangy e Jean de Metz. Os dois forçam e Baudricourt cede. Joana é levada a Ricardo VII. E reconhece-o entre todos, sem jamais tê-lo visto. Era um milagre, para o bastardo. Um assombro, mesmo. Joana ganha tropas. Comanda homens, embora não participe dos Conselhos de Guerra, porque ouvia apenas a " voz de Deus". Em Orleans vence os ingleses. Depois, em marcha triunfal até Reims, sagra Ricardo VII Rei da França.

O orgulho nacional francês pode estar salvo por Joana. Os ingleses estão ofendidos. O caso é grave: os ingredientes da fogueira estão prontos. A marcha iniciada a 29 de junho de 1429 até 17 de julho, data da sagração de Ricardo VII, é de curta duração. Inacreditável e militarmente considerada impossível é a vitória de Joana, e até diabólica, porque Deus não poderia estar ao lado dos franceses e contra os ingleses. Logo, Joana só poderia ser uma "bruxa". Apenas os demônios poderiam derrotar os ingleses . O remédio era a fogueira...

Em Orleans Joana comandou homens. Entre eles o seu "Belo Duque", o Duque Jean d‘Alençon, como ela dirá muitas vezes. E dela Jean d’ Alençon dirá: " por vezes lhe via os seios e que eles eram belos". A afirmação soava estranha, quando se sabia que Joana vivia trajada militarmente. O fato é descaracterizado de importância pelos seus carrascos. Joana virgem, com hábitos de homem, é mais interessante para os ingleses e seus colaboradores franceses.

O Tribunal Eclesiástico de Pierre Cauchon é diabólico. Conhece os instrumentos universais da covardia. Usa-os contra Joana. Hierarquiza o sofrimento de Joana, passando pela tortura psicológica, quase passando pela física e, por fim, armando um processo fraudulento. Fracassando nos interrogatórios e, não conseguindo dobrar Joana nas péssimas condições da prisão, a cargo dos ingleses e não dos franceses, o bispo de Beauvais arma um espetáculo público. A massa assiste à admoestação de Joana e lhe pede que se poupe. Joana "abjura". Assina o termo de abjuração "Eu, Joana, prometo nunca mais, no futuro, usar armas, traje de homem e cabelo curto; declaro submeter-me à determinação , ao julgamento e às ordens da igreja". O termo da "abjuração", de seis a sete linhas, será falsificado por Pierre Cauchon...

Joana volta à prisão dirigida pelos ingleses. Não tem direito a uma guarda que seja mulher. Negam-lhe roupas de mulher. Tentam violentá-la. Exaurida, Joana recorre às antigas roupas de homem, pois não poderia ficar nua. Assim procedendo renega à "abjuração". Torna-se uma herética. Será entregue, portanto à "justiça secular"- A Inquisição. A renegação à "abjuração" é espalhada por todos os ventos. A desmoralização foi bem urdida. A Igreja Militante, com a qual Joana se indispõe, é mais forte que a Igreja Celestial ( Triunfante)...

Durante todo o período críítico Joana não ouve as vozes da Providência. O hiato de silêncio é sintomático. Como se com esse silêncio ELA fizesse os santos: a um custo altíssimo e que somente pode ser pago pelas criaturas com o coração transbordante de amor e o olhar fixo nas grandezas universais e celestiais. Joana, camponesa simples, de 19 anos, poderia nem haver entendido assim, mas os doutores em teologia se descuidaram dos secretos caprichos da Providência. E Joana virou santa...

Em Ruão, a 30 de maio de 1431, Joana padeceu sob chamas da fogueira. Houve a pressa premeditada. Mal se leu a sua condenação e os ingleses já acendiam a fogueira. Por ordem deles as cinzas de Joana foram jogadas no rio Sena, de cima da ponte Mathilde.

Dos inquisidores eclesiásticos de Joana muitos passaram recibos pelos "bons "dinheiros ganhos" durante a vigência do tribunal. O seu promotor, Jean d’Estivert, afogou-se num esgôto de Ruão. Warwick, o seu carcereiro, morreu prematuramente. O cardeal Winchester morreu louco. João de Luxemburgo, que vendeu Joana ao ingleses por 10.000 libras, teve morte inexplicável. E o seu confessor a mando da Igreja, Nicolas Loyseleur, morreu de modo súbito e misterioso numa igreja da Basiléia, onde se refugiou após a morte de Joana. São muitos, os que pagaram caro e não há espaço para continuarmos citando os seus nomes...

Ricardo VII aumentou suas vitórias contra os ingleses. Mas há indicações, severas, de que poderia ter oferecido mais dinheiro, no leilão a que foi exposta Joana, a quem tudo devia. Recuperou París a 13 de abril de 1436. Criou a Organização dos Arquitetos do Rei. Reviu a organização da Infantaria, arma de Joana. Em 1453, após a Batalha de Castillon, último combate da Guerra dos Cem anos, travada em solo francês, mandou cunhar uma moeda comemorativa da vitória. Antes, em 1450, quando entrou triunfalmente em Ruão, ordenou a Guilherme Bouillé a revisão do julgamento de Joana...

De Ricardo VII diremos, ainda, que não participou do leilão no qual Joana foi vendida. Outrossim, que somente depois da vitória em Ruão é que ordenou a revisão do seu processo...

Um outro Tribunal Eclesiástico anulou o julgamento do anterior, naturalmente a pedido da família de Joana, para não se deixar falha na tramitação do novo e rápido processo. Já estamos com um novo Papa, Calisto III. A 7 de julho de 1546, no Palácio Arquiepiscopal de Ruão, Joana foi considerda livre das calúnias de 1431. Mas para ser canonizada ainda seria necessário atingirmos o nosso século, no ano de 1929...

Joana d’Arc não é apenas uma santa. Mas a santa da nacionalidade francesa, do orgulho nacional francês...

O mundo te saúda, Joana, neste 30 de maio de 1995, decorridos 564 anos, quando se debate entre internacionalismos e nacionalismos...


O Jornal 30.05.95

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