O Castigo de Lenin


Em 1917 Vladimir Ilytch Lenin mudou a história da Velha Rússia dos Czares. Antes dele a Rússia dos Czares tinha nas razões de Estado um instrumento expasionista visando a conquistas territóriais, enquanto as razões ideológicas tendiam para a conservação do regime monárquico. Assim, razões de Estado e razões ideológicas eram convergentes. Quer dizer: os Czares expandiam suas conquistas territoriais por conta das suas razões de Estado a um tempo, e a outro mantinham as razões ideológicas, monárquicas, portanto.

Com Lenin e seus sucessores as razões expansionistas, de Estado, foram mantidas e até ampliadas. Mas o "pai" da União Soviética mudou as razões ideológicas da Velha Rússia, levando-a para o socialismo, saltando a via capitalista que, afinal, se houvessem sido observados os ditames da Revolução Francesa de 1789, a Velha Rússia, dos Czares, deveria conhecer primeiramente o capitalismo. E poderia haver se tornado uma das maiores potências capitalistas do mundo. Quem poderia garantir que não a maior, dadas as suas circunstâncias históricas e riquezas naturais...

 

 

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Razões

Razões de Estado e razões ideológicas de um povo, segundo George Kennan, se interligam e interagem de modo caprichoso, ao longo da história. Face a um situação de concretude ora são divergentes, e ora são convergentes. A história de uma Nação passa,inevitavelmente, pela análise do seu projeto geopolítico, o que implica, na visão de Bzezinsk, ter clareza sobre a essência das suas políticas interna e externa. O Estado soviético, segundo ainda Bzezinsk, jamais promoveu uma ruptura total com o passado. As questões acima colocadas estão no livro " L´Art de la Politique", de Gaston Bouthol, da Editora Seghers, de Paris.

Cabe, portanto, a seguinte pergunta: A Revolução de Outubro de 1917 promoveu uma ruptura total com o passado ? Para responder e correlacionar tal questão vamos examinar o "Testamento de Pedro", o Grande, Czar de todas as Rússias(1672-1725), em alguns pontos críticos e publicado em Paris, 1808 pela Ed. Seghers, e depois pela Editora Fantin, em 1812.

Testamento de Pedro, Czar de todas as Rússias

"... é sempre bom ter amigos entre as hostes de todos os inimigos; nada negligenciar para dar a Nação Russa as formas e os costumes europeus; atrair por todos os meios dos outros povos, os capitães durante a guerra e os sábios durante a paz; manter a Nação em estado de guerra, e só pensar em folgas militares por motivo de economia; participar de todos os negócios e soluções da Europa, pela força ou pela astúcia; preferir esposas alemães para os príncipes russos, tal o nosso interesse pela Alemanha; dilacerar a Polônia; tomar o possível à Suécia ( A Finlândia fazia parte do seu terrítório); isolar a Dinamarca; aprender o possível da Marinha Inglesa e repassar à Marinha Russa, a um tempo, e a outro, trocar madeira russa pelo ouro inglês; influir no Golfo Pérsico; aproximar-se de Constantinopla e das Índias, pontos críticos para o domínio do mundo; influir sobre os gregos dispersos tornando-os aliados, etc...etc. Então, subjugada a Polônia, conquistada a Turquia, desmembrada a Suécia, os nossos exércitos reunidos nos mares Bálticos e Negro, será a hora de propormos às Cortes da Áustria e Versailhes a partilha do mundo. Se um delas aceitar será usada contra a outra. Se as duas recusarem serão colocadas uma contra a outra, uma maneira de se completar o projeto de conquista da Europa"

Outros documentos de dominação do Mundo

O de Hitler, em "Minha Luta", através da supremacia étnica-militar. E o outro, do livro "Os Protocolos dos Sábios do Sião", atribuído ao povo judeu, através do poder do ouro e do dinheiro. Tanto "O Testamento de Pedro" como os "Protocolos dos Sábios do Sião" são considerados documentos apócrifos, invalidando recriminações sobre os povos judeu e russo...

Considerações sobre o testamento de Pedro

O Testamento de Pedro pode ser apócrifo, mas não inocente. Em seu projeto geopolítico suas razões de Estado eram expansionistas e suas razões ideológicas eram no sentido da conservação da monarquia. Um projeto onde as duas razões eram convergentes, portanto. E assim os Czares foram conquistando territórios da Ásia Central, tais como Casquistão, Quirquistão, Usbequistão e, Sibéria Oriental até o Oceano Pacífico e parte da Mongólia. Mais tarde Lenin, Stalin e Brejnev aumentaram as conquistas da Velha Mãe russa, anexando repúlicas por conta da Revolução de Outubro e da Segunda Grande Guerra. Os "novos"" Czares mantiveram as razões de Estado da Velha Mãe Russa, do ponto de vista de expansão territorial. Mas Lenin alterou as razões ideológicas, num ato divergente, levando a Velha Mãe russa na direção do socialismo. Estava mudada, portanto, a longa tradição do povo russo por conta desta dicotomia que tornou as duas razões divergentes, portanto..

Se a Rússia houvesse permanecido nas mãos dos Czares poderia ter sido a maior potência capitalista do mundo, hoje. Ou então haver perdido os territórios conquistados, como aconteceu com a Inglaterra, a França, a Espanha e Portugal. Ao se levar o povo russo para o socialismo e não se concluir tal projeto, abre-se, para os analistas, a evidência de que os revolucionários de outubro fracassaram. Primeiramente porque tiveram razões de Estado expansionistas. E depois, porque torceram a vocação ideológica do povo russo, destruindo a monarquia mas negando-lhe a oportunidade capitalista. Há, é verdade, que se considerar as interferências desestabilidaoras d mundo capitalista dentro da frágil organização socialista pós-revolucionária, que os analistas ocidentais tratam de modo leviano, minimizando-as.

As mudanças na Ex-URRS, retiraram as estátuas de Lenin dos pedestais, enquanto as de Pedro, o Grande, conservadas como a lembrar a velha vocação russa para o expansionismo e conservação das suas razões ideológicas. Somente o tempo devolverá ao povo russo a sua noção de projeto geopolítico: se ainda pretende a dominação do mundo através de um projeto capitalista ; ou, se o retorno a um processo socialista num futuro provavelmente remoto. Ou então, se vai se contentar com um projeto geopolítico bem comportado, contido em suas fronteiras. Mas esse não será um tempo de histerias, e sim de duras avaliações...

Gratidão mentirosa

Fulminado o Império Russo surgiu a Comunidade de Estados Independentes, a CEI. E surge absorvendo o espírito do Natal. Como novidade também criou uma nova moeda com a efígie de Lenin, o pai da sepultada União Soviética. Desmontaram a casa, o sistema, mas não mataram o pai ! A história está grávida de atos edipianos e iconoclastas. Melhor que Lenin circule, desvalorizando-se, a cada dia, não mãos de um tipo de comunidade contra a qual se colocou quando vivo. Shakespeare insiste, em sua obra, afirmando "Os mortos governam os vivos". Marx é mais explícito, : " A tradição de todas as gerações vivas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos". Logo, melhor o "parricídio cambial" para Lenin, de modo lento, descolorido, quase indolor...

Durante anos Lenin velou o sono quieto e inquieto do povo russo. Tinha ciência disso quando nos afirmou: " Nunca houve na história uma revolução na qual fosse possível cruzar os braços e dormir sobre os lauréis da vitória ". Os "novos senhores" da CEI já não precisam de Lenin, pois devem estar convictos sobre todos caminhos da história futura. A CEI não é um fato revolucionário, mas meramente restaurador do capitalismo.

A homenagem na cédula, portanto, pode ser o resultado de uma atitude tática para conter futuras reorganizações dos marxistas-leninistas empedernidos. Pelo menos até que a maioria morra de velhice e os que sobrarem percam a capacidade de contestação. E então, numa noite qualquer de uma Moscou friorenta os restos mortais de Lenin serão transladados, com ou sem pompa, para um cemitério comum aos mortais, ao lado da mãe. E já não velará o sono do povo russo, mas a insônia dos que o sepultarem.

O problema do fracasso da União Soviética poderá residir no seguinte: a dualidade teológica, o bem (capitalismo) e o mal (socialismo) acabou, fazendo surgir na terra um paraíso.

Construção do socialismo

I - As parcerias capitalistas &127

Sem reducionismo e monocausalidade, históricos, tudo parece ter origem na política do "socialismo num só país" dos anos difíceis da Revolução de Outubro, na sua tentativa de se afirmar como modelo para o mundo. Para se modernizar, a Velha Rússia de 1861 acabou com o trabalho servil, atraindo capitais estrangeiros em proporções impressionantes:

A França com 34% ; a Inglaterra com 24% ; a Alemanha com 21% ; a Bélgica com 15% e, finalmente, os Estados Unidos com 5%, o que resultou na mudança da legislação em favor do capital, favorecendo o surgimento de entidades partidáriasquedefendiam o trabalho.

II - Os anos de chumbo

Entre 1917 e 1945, portanto durante 28 anos, os russos passam por duríssimas provas: A Primeira Guerra Mundial: a Revolução de Outubro; A Guerra Civil, e, a Segunda Guerra Mundial. Foram duros golpes com perdas humanas na ordem de 3O milhões de almas, arrasamento de quase 2\3 do seu território e perda quase total das suas forças armadas, ditas estratégicas, por razões da presença de 8O% do Exército Alemão dentro dos seus domínios, entre 1941 e 1944, o que permitiu aos Aliados a formação de uma "segunda frente contra Hitler" consumada na invasão da Normandia. Tentando salvar a frágil Revolução de Outubro da saga capitalista Lenin criou a Nova Economia Política, a NEP, em substituição ao "comunismo de guerra" de Trotsky, com os seus famosos "sábados vermelhos", ou um dia de trabalho gratuito. Mais tolerante com o capitalismo, a NEP fortaleceu os "nepmans", ricos comerciantes e industriais urbanos, e os "kulaks" ( kulacs ), ricos homens do campo, ambos se preparando para a contra-revolução, apoiados pelas potências européias a renegação da dívida externa contraída pelos Czares.

Para coletivizar o campo e anular a contra-revolução Stalin mandou executar milhões, passando à história como carrasco, contingenciado pela opção socialista...

A emergência da URSS como potência mundial, no pós-guerra de 45, passa muito mais por uma contingência político-diplomática que por uma realidade militar. A URSS e a Europa estavam devastadas pela guerra. Apenas os Estados Unidos desfrutavam de uma situação cômoda:

- Haviam perdido apenas 3OO mil soldados durante a guerra.

- Detinham 6O% da produção industrial mundial.

- Tinham suas tropas acantonadas nos pontos estratégicos do mundo.

- Em Bretton-Woods haviam tornado o dólar moeda internacional.

- Tinham a bomba atômica.

Com tais vantagens, entretanto o Presidente Roosevelt havia aceito, na Conferência de Yalta, todas as exigências de Stalin contanto que ele mantivesse a URSS na guerra.

III - As parcerias com os comunistas mundiais

Todo o sacrifício para a construção do socialismo tem seus pontos críticos de abandono à própria sorte de muitos dos seus parceiros internacionais. Tudo por conta de o socialismo ser elevado à condição de arma de equilíbrio universal num mundo bipolar. Eis, portanto, alguns abandonos:

- o de Cantão, quando Chang-Kai-Check massacrou jovens comunistas chineses;

- o abandono aos comunistas gregos, mortos pela Inglaterra após a saída alemã da

Grécia, desencadeando a guerra civil.;

- imposição aos comunistas italianos e franceses para deporem as armas e fazerem coalizões com governos que iriam reconstruir o capitalismo no pós-guerra;

- negar às guerrilhas balcânicas (Albânia, Grécia e Iugoslávia) apoio além da mera luta anti-fascista, irritando o velho Marechal Tito que toma uma atitude de distanciamento da URSS. No Brasil Prestes houve que apoiar Getúlio, mal saído do cárcere da ditadura, etc...

Analistas ocidentais creditam à tese do "social-fascismo" ( horror a qualquer discórdia da linha do PCUS, por parte dos seus parceiros internacionais) a razão dos estranhos comportamentos da ex-URSS, quando abandonava seus parceiros...

O que sobrou do Império Russo ?

Nos dias atuais já não existe a URRS. Existem a Rússia e os russos. E que compromissos residuais os partidos comunistas mundiais podem assumir com eles numa parceria internacional com vistas a um interrompido projeto socialista? Nenhum, pois tudo indica que da Revolução Soviética sobrou apenas o velho nacionalismo russo...

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Luiz Nogueira Barros é médico, cronista e sócio efetivo do IHGA