A trágica melancolia da Guerra
Luiz Nogueira*

Pintor renascentista - Nuremberg: 21.05.1471 - 06.04.1528
A útil inutilidade das guerras
Caso as guerras fossem motivo de felicidade o mundo seria um paraíso, tal o número de tantos morticínios desde que a humanidade existe. Mas a guerra tem sido útil, pois atende a certas parcelas da humanidade. Elas têm conteúdos variados: religioso, ideológico, econômico, racial e, tantos outros que seria impossível enumerar. Mas será que, no fundo, mesmo, há algum conteúdo maior que o econômico e religioso ?
Heróis da útil inutilidade
É verdade que nos tempos mais remotos os heróis eram aclamados, celebrados, capazes de arrancarem aplausos entusiastas das multidões. Foi no tempo das guerras convencionais, nas suas formas mais antiquadas, quando exércitos, estacionados uns defrontes aos outros, trocavam embaixadas e depois se engalfinhavam num morticínio que o cinema mostra com ênfase. Era um tempo de princesas raptadas, ou ofendidas. De um rei traído. De alguns tesouro surrupiado. De alguma divindade ofendida. A utilidade, então, da inutilidade da guerra, era a criação de mitos, de conquistadores, de teorias sobre estratégias da guerra. E também desenvolver um lado romântico da guerra: Leônidas, no Desfiladeiro das Termópilas, criou a teoria da resistência extrema, ao morrer, com todos os seus soldados, em defesa da sua terra. Júlio César, conquistador da Gália, recebeu as homenagens em forma de "suplicação pública", festa popular dedicada aos heróis.
As guerras posteriores criaram os heróis dissimulados que já não se enfrentavam de frente, olho no olho, alterando a ética da guerra: vencia o mais ardiloso e mais bem armado. O mais astucioso, portanto. Certa ingenuidade, perversa, foi substituída pela astúcia, também perversa, e isso alterou profundamente o curso da guerra.. Às barbaridades cometidas nas guerras mais primitivas, novas barbaridades, agora bem planejadas eletronicamente, fez das armas de guerra as novas heroínas, e os envolvidos na guerra apenas seus escravos. Mas além dos escravos existem os senhores da guerra, os banqueiros, os fabricantes e comerciantes de arma e, finalmente, algum político no poder mantido por eles É o requinte da destruição em massa, sem ética, quando o desespero atinge seu pico máximo. Tanques, aviões, bombas limpas, bombas sujas, bombas inteligentes, kaminazes, gazes mortíferos e tantas outras patifarias são os mais novos heróis da humanidade. Mas o incrível é que os homens-bombas do Iraque e já se noticiam meninos-bombas e até mulheres-bombas, estejam vencendo a guerra eletrônica. Faz pouco, mulheres-bombas atemorizaram, num teatro, a ainda poderosa Rússia, sem solução para a Chechênia.
O Príncipe
Em o clássico de filosofia e política, O Príncipe, Maquiavel ensina, sobre os homens:"Os homens ou se conquistam ou se exterminam". As nações conquistadoras sempre tiveram pela frente a necessidade do extermínio. Não existe a conquista cordial. Existem alianças com tempo de duração de interesses.Depois é a guerra. É conhecida a expressão "A paz é a continuação da guerra através de meios diplomáticos".
Maquiavel, portanto, falava mesmo da conquista pelo extermínio.
O Oriente Médio: a guerra fóssil-religiosa !
A atual guerra que se desenvolve no Iraque é um surpreendente laboratório sobre a guerra. As Batalhas de Berlim, Tóquio, Stalinigrado, Peal Harbor, Hiroxima, Nagasaki e o Vietnam, parecem coisas muito distantes em que pesem as eternas motivações econômicas, ideológicas e religiosas que as moveram. O Iraque é uma guerra fóssil-religiosa: petróleo, religião e dinheiro são suas pilastras básicas.
Golias e David
Um guerra eletrônica que fulminou o Iraque não fulminou seu povo. E a surpresa, de um povo mal vestido e faminto, de guerrilheiros sem fardamentos de guerra, lutando contra o maior poderio militar do planeta. E Golias havendo que aceitar trégua, fato, historicamente, e dentro da doutrina de guerra, somente possível quando um poderoso reconhece no adversário algum poder que não imaginava. Não fosse assim, dizimaria seu opositor quando ele lhe propusesse uma trégua. Mas a trégua proposta por Bin Laden pode ser um teste para saber até que ponto a Europa se envolverá profundamente na guerra. A verdade é alguns países estão retirando suas tropas do Iraque. Exército de mercenários, com ele prestadores de serviços, está se formando no Iraque. O quadro que vai se estabelecendo começa a apagar e a distorcer o significado do 11 de setembro de 2002, quando da implosão do World Trade Center. E nova eleição presidencial americana complica mais ainda essa lembrança. Além do fato de que a guerra no Iraque está corroendo a economia americana, em nome do social. Mas o que fazer, se a indústria de guerra e petróleo está em crise. De um lado o gigante americano não pode tocar seus projetos sem petróleo. De outro, o que fazer com o estoque bélico acumulado para uma guerra contra a ex-União Soviética, ou mesmo a China ? Como renovar tais estoques? Vendendo-o ? O Iraque é pequeno demais para o uso de tanto poderio. Quem se habilita a enfrentar o gigante americano, que sequer respeitou a ONU ? E o futuro das guerras voltará aos tempos primitivos? Será que a guerra eletrônica vai se tornando imprópria, cara, de alto risco ? Nesse caso as potências atômicas deveriam destruir seus arsenais. Mas não fazem isso, apenas estão limitando seus poderios e evitando que surjam novas potências atômicas.
Mas quando a sociedade humana vai, de fato, guerrear apenas do ponto de vista das guerras antigas, a pau e pedras, flechas, catapultas com caldeirões de óleo fervendo ? E agora, como reagirá um Império, no momento o americano, sabendo que a destruição em massa, de uma pequena nação, somente seria possível pelo uso de armas nucleares, ao menos nesse momento?
Hegel, num dos seus momentos de brilhantismo, e foram muitos e muitos, nos afirmava: " A história não é o reino da felicidade. As horas de felicidade são suas páginas vazias"
Afinal, a compreensão da história é circular, ou uma espiral através da qual poderíamos atingir aperfeiçoamentos dignos da condição de humanos? Ou somos baratas tontas que depois de uma pancada na cabeça ficamos girando num interminável círculo, até morrermos ?
* É escritor
Jornal Política e Negócios, Maceió, Alagoas - número 4 - Maio de 2004