Reflexão sobre a ordem
Para tal questão analisemos os pensadores, os políticos e os militares. Os pensadores alteram a ordem mundial instituída, quando propõem novas teorias. Os políticos, de posse de tais teorias, procuram torná-las realidades. E como sempre surge o conflito os militares entram para definir os seus rumos. Por aí se compreende o mecanismo dos golpes de Estado, das guerrilhas, das guerras civis e das guerras mundiais. A vida dos pensadores, dos políticos e dos militares, portanto, têm sido cheias de sacrifícios, mas também de loucuras.
Veja-se a história, cuidadosamente. Quem leu sobre o Iluminismo sabe do imenso esforço que os pensadores tiveram para substituir a "noção de mistério" (que submetia a humanidade ao princípio incontrastável da autoridade, na época com forte e quase exclusivo conteúdo teocrático) pela "noção de problema", ( que permitia a busca de instrumentos metodológicos para as suas soluções.)
A mudança da noção de mistério pela noção de problema abriu um campo para o exercício da liberdade, destronou o que restava das Idades Média e Moderna e deu à luz a Idade Contemporânea, materializada na Revolução Francesa de 1789, claro, com a participação dos militares. No Brasil, os pensadores da Independência, da libertação dos escravos e da implantação da República, deram aos políticos os instrumentos de mudança. E outra vezes lá estiveram os militares na definição de tais rumos. No Brasil de 1964 as esquerdas ( que desejavam fazer sua revolução socialista ) e a direita ( temerosa de perder a condição de mando histórico ) forneceram os elementos críticos para o Movimento Militar apodado como Revolução de 64.
A galeria mundial de sacrifícios dos pensadores, políticos e militares é muito vasta. Não seria num trabalho, minúsculo como este, que poderíamos agradecer ( ou condenar ? ) a todos pelas suas passagens pelo mundo histórico. O ponto de convergência e o critério que utilizo para eles é o sacrifício, o destemor de se darem pelo que acreditavam corrreto, verdadeiro. E por isso anoto alguns nomes sem a preocupação de separá-los como pensadores, políticos e militares. Eles foram grandes, e basta: Sócrates e Von Romel (envenenados), Joana d'Arc e Giordano Bruno (queimados pela Inquisição), Karl Marx (morreu na miséria), Gandhi , Indira Gandhi , Anuwar El Sadat, Jonh Lennon, Almirante Darlan, General Patton e o Presidente Kennedy (assassinados), Almirante Canaris, o casal Rosemberg, Rosa Luxemburg, Graco Babeuf, o Marechal Tukachevisky (condenados à morte), Generais Anemi e Tanaka, Allende e Getúlio Vargas (suicídios), Castelo Branco e Juscelino Kubitschek ( acidentes ) e, finalmente, Danton, Robespierre e Lavoisier (guilhotinados). Uma relação maior seria cansativa. E seria heresia, blasfêmia, colocar o próprio Cristo na mesma galeria, tal o peso do seu nome, tais suas características acima dos mortais comuns.
O que pretendo, com tais lembranças, é alertar contra o adormecimento conformista de que a humanidade é assim mesmo. De que é impossível, para os pensadores, os políticos e os militares, conviverem no mesmo espaço historiográfico onde são gerados os grandes e graves problemas da humanidade, e com isso tentarem ocultar os campos de sombra onde nascem os conflitos que, se não pudessem ser contornados, ao menos, poderiam ter conseqüências menos funestas.
A Idade Contemporânea está se esgotando: cheia de tragédias ! O terceiro milênio está a exigir uma Nova Ordem, que somente será possível com uma mudança de mentalidade. Uma mentalidade que permita convivência a mais pacífica possível entre pensadores, politicos e militares, porque, do contrário, jamais poderemos falar em Idade Futura, e a nossa saga sobre o planeta terá sempre a marca da tragédia. Por quê ? Por que idéias são coisas que tanto podem ser sagradas como sacrílegas. E Geraldo Escoteguy, nosso poeta, sobre ela nos diz "Cinco miras não acertam onde calar o poema", numa homenagem que prestou a Garcia Lorca. Quer dizer : mata-se o homem, não a idéia !
Hoje o Brasil comemora a Revolução de 1964. O Brasil já não é o mesmo. O mundo também. A guerra fria acabou: ou pelo menos já não expele fumaças visíveis a olho nu. O mundo tenta otimizar-se suavizando suas fronteiras, como se a fraternidade universal, finalmente, pelo menos encontrasse terreno para formulações teóricas. Muitos alinhamentos automáticos entre Nações passam por revisões necessárias : no tocante ao controle dos conflitos, uso de armas de alto poder exterminador, autodeterminação dos povos, reconfiguração dos exércitos nacionais e multinacionais e, finalmente, avaliação sobre o nascimento dos novos blocos econômicos mundiais.
Uma única coisa, entretanto, não parece haver mudado: o ódio dos intrigantes ! O ano de 1964 terá a sua marca histórica: apenas, embora com condições ideológicas contrárias, os militares e a esquerda estavam imbuídos de um sentimento de honestidade ideológica. Ainda é cedo para a História, com a sua frieza glacial, discernir com exatidão sobre os equívocos e excessos cometidos pelos dois lados. Mas uma coisa ela já pode fazer : separar os intrigantes e carreiristas de todos os tempos, nutridos em todos os regimes que se fizeram vitoriosos. É que eles só têm um lado : o deles ! E por nada se sacrificam, desmascarando-se, facilmente, perante a História, porque apenas quem tem convicção ideológica corre o risco de ser julgado como bom ou mau pela posteridade!
O Diário, 31. 03. 95