Questão Religiosa


Desde a antiqüidade até os dias de hoje o número de pensadores é muito grande. Mas, estranhamente, há pessoas que apenas se dedicam a citações sobre o marxismo. De má fé, é bom que se diga, porque jamais leram Karl Marx, pelo menos suas própria obras, ou pelo menos os autores mais responsáveis que dele trataram. Recentemente, provocado por um desses intelectuais cujo mau hábito é fazer, de público, interrogações com ares de grande sabedoria, olhando para os lados à cata de algum tolo, pensando que se sairá bem. Pois bem: estava eu com alguns amigos e conhecidos, num espaço comercial onde sempre bato um papo, quando um tipo, risonho e com falsa indulgência me fez a seguinte colocação, sem me conhecer com maiores intimidades:

- Sempre lhe respeitei e admirei. Sei que você é comunista e ateu. E agora como fica o mundo sem o marxismo, sem o materialismo ateu do seu pensador favorito. Desculpe-me, sim ?...

Tal foi a minha perplexidade que fiquei a olhar para o tipo. A curiosidade dos circunstantes não foi menor, e os olhos do intelectual brilhavam de alegria.
Minha primeira reação foi natural. Perguntei-lhe sobre como fazer a diferença entre ateísmo, materialismo, dogmatismo e agnosticismo. Gago, sem saber me responder, chegou mesmo a colocar que o importante seria minha resposta. Ri e insisti se ele havia lido A "Questão Judáica", tanto a de Bruno Bauer e a de Karl Marx. Ele sequer sabia da existência das obras. Decidi-me por lhe esclarecer algumas coisas, ante uma platéia já inquieta e interessada. E comecei:
"Quem se der ao trabalho de ler os pensadores atomistas, da Grécia, já encontrará os fundamentos do materialismo. Ainda não do ponto de vista do problema de religião, mais propriamente do de mitologia, os gregos haviam transformado os deuses em algo que eles conheciam, doutrina de nome antropomorfismo, dando forma e face aos elementos da natureza, o que lhes facilitava um relacionamento com tais entidades.
Na Normandia, norte da França, os monges da Abadia de Mec, não inteiramente satisfeitos com As Sagradas Escrituras, pediram a Santo Anselmo de Aosta (1033-11109 ) o Prior, que redigisse algo mais racional a respeito das revelações divinas, com a lógica da razão. E foi assim que Santo Anselmo escreveu Monológio (exemplo de meditação sobre o fundamento racional da fé ), provando a existência de Deus, ainda de um ponto de vista que tinha tudo do platonismo, doutrina de Platão. Não atendidas as inquietações dos monges, Santo Anselmo redigiu Prológio , nova tentativa para discutir o problema de Deus, mantendo acesa a chama da discussão, transformando a Abadia de Mec num grande centro de debates.
E lendo os pensadores do Século XVIII (Século das Luzes ou dos Ilumnistas) da França, como La Mettrie ( Julien-Offrroy de ) , o homem foi comparado à máquina, na sua obra "O Homem-Máquina"
Condillac ( Etienne Bonnot de Condillac:1715-1771-França). Foi religioso e abade. Publicou "Traité des Sensations", em 1754. A tese fundamental era a de que "as sensações são a fonte fundamental do conhecimento". E pressupunha o homem fazendo parte da natureza. Portanto, as sensações como o tato, o paladar, a visão, o olfato e a audição, é que forneciam tais conhecimentos, que nada tinham de sobrenatural. Condillac contrariava os "fideistas", que somente aceitavam o conhecimento como algo decorrente da fé.

Para Platão o conhecimento era pura reminiscência, abrindo, assim, uma porta para o passado, permitindo mesmo que se falasse em reencarnação, doutrina contestada por Santo Agostinho, que via no conhecimento coisa do presente, e dada pelo Criador. Quem leu sua obra "A Cidade de Deus", compreende o seu esforço para conciliar as " idéias da revelação divina " com as idéias da filosofia. A tentativa faz parte do que se chama filosofia patrística, dos padres filósofos, e ponto alto da Igreja dos Doutores em Teologia, fonte de homens notáveis. Santo Agostinnho chega a afirmar, de modo convicto: "Intelligas uti creda, credi ut intelligas", que, traduzido, é mais ou menos o seguinte: ver para crer, crer para compreender, uma reflexão que pode haver sido a origem do racionalismo cartesiano (René Descartes, com o seu "Cogito ergo sun", do "penso, logo existo" ), indo além, em sua ousadia, ao concluir: "Se eu me engano é porque existo, porque quem não existe não se engana."
Com Denis Diderot, organizador e pai da Enciclopédia Francesa, Bíblia dos iluministas, a filosofia era desconfianças e exigências.

O Iluminismo teve como princípio básico:"Todo movimento é inseparável da matéria". Com suas teses, portanto, os iluministas criaram teses irreligiosas e intrinsecamente ateístas, também liquidando com o Teocentrismo, ou seja, Deus como o centro de tudo..
Charles Darwin, ao publicar "A Origem das Espécies" aboliu o mito do judeu primitivo, Adão, como o núcleo de origem da humanidade que, a partir de então tinha sua ancestralidade num primata superior.
A própria luta pela sobrevivência, explicitada em Charles Darwin, permitiu a que Thomas Hobbes, pensador inglês, fizesse a transposição da lei da selva para a sociedade humana, sem refletir que o animal irracional agia por instinto e o ser humano agia por inteligência, favorecendo a lei da selva entre os homens, permitindo as traições, truques e armadilhas de toda a natureza
Teilhard de Chardin, padre, teólogo e arqueólogo, francês, em "O Fenômeno Humano", defende que a natureza num trabalho de bilhões de anos criou a matéria com estado anímico (matéria viva, com movimento, portanto) que terá sido a origem de todos os seres vivos do planeta (e quiça do universo), outra vez negando a origem da humanidade em Adão e Eva. Inteligente e piedoso, entretanto, Chardin teologiza a evolução, ao afirmar que o fim último da matéria, a hominização ( formação do homem ) , obedecia a uma vontade divina. Castigado pelo Vaticano, Chardin pagou, com o silêncio, alguns anos de desterro na China, onde preferiu se exilar nas Grutas de Chucutien. E ali descobiu o Sinantropo Pekinense ( Homem de Pequim), ancestral humano ( provavelmente esqueleto de mulher, de nome Luci ), mais velho que o Homem de Neanderthal. Quando o Japão invadiu a China levou tal exemplar, até hoje procurado pelos serviços de inteligência mundial. Tarefa, aliás, em vão.
Mas, voltando à questão religiosa, cuja culpa tem sido atribuída apenas a Marx :
Quando os judeus desejaram emancipação religiosa, na Alemanha Imperial, Bruno Bauer respondeu-lhes que aquilo equivalia a negar o Estado cristão. E mais: caso os judeus aceitassem tal emancipação o fato implicaria em aceitar o jugo imperial. Portanto, judeus e cristãos deveriam lutar pela emancipação política, uma vez que a emancipação religiosa era uma meia-verdade. E conclui que a antítese religiosa entre os dois somente se resolveria abolindo-se as religiões, e achando que elas deveriam competir num plano científico. E até nos brinda com a seguinte reflexão: "Tão logo cristãos e judeus reconheçam que suas respectivas religiões nada mais são do que diferentes fases do desenvolvimento do espírito humano, diferentes peles de serpente com que cambiou a história, sendo o homem a serpente que muda de pele em cada uma destas fases, já não se enfrentarão num plano religioso, mas somente num plano crítico, científico, num plano humano". Portanto, Bruno Bauer, com tal reflexão pode, com certeza, haver proposto o fim das religiões...
Na sua "Questão Judáica" Marx examina a reflexão filosófica de Bauer. Embora concorde em grande parte com o que ele diz, não aceita o conceito de Estado cristão. Acha que o Estado deve ser algo mais amplo, real e democrático . E afirma que o Estado não pode fazer dos princípios humanísticos dos Evangelhos princípios políticos de Estado. O Estado que assim se comportar terminará por não cumprir os princípios humanísticos da religião e se tornará um guardião de tais erros. E depois um Estado opressor, invertendo a ordem das coisas. Portanto as religiões não deveriam teologizar o Estado, mas existirem num plano secular. O que equivalia a sair do direito público para o privado, fato que se deu nos países que adotaram o protestantismo, desde Martinho de Lutéro a John Calvin, basta que se examine a Constituição de tais nações. No Brasil se diz : "...em nome de Deus !", porque o Estado brasileiro continua com seus princípios de Estado teologizados. Nos Estados Unidos da América se diz "...com a ajuda de Deus !" porque ali os direitos sociais foram construídos sobre os direitos humanos, os direitos dos cidadãos, enquanto que a religião está muito mais num plano secular, equivale dizer no campo do direito privado...

Quando se acusa Marx sobre a sua frase, dando a impressão de algo isolado, "A religião é o ópio do povo", não se publica a sua reflexão filosófica. Ei-la, portanto:"...o fundamento da crítica irreligiosa é o seguinte: o homem faz a religião, a religião não faz o homem (...) A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo perverso e a alma das circunstâncias desalmadas. É o ópio do povo". E assim, bastasse que as circunstâncias desalmadas (perversas) desaparecessem do meio social e a crítica irreligiosa de Marx ficaria sem sentido. E logo o Estado responderia pelo não cumprimento do pacto social dos homens. E as religiões deixariam de ser apenas pontos de fuga para o sofrimento humano, destinando-se às situações transcendentais.
Mesmo em sua tese de doutouramento, ainda jovem, participando da juventude hegeliana de esquerda, quando Karl Marx afirma, no prefácio, "A filosofia não faz segredo de si. A confissão de Prometeu - ‘ numa palavra, abomino todos os deuses’ - é a própria confissão da filosofia, constitui seu "slogan" contra todos os deuses do céu e da terra que não reconhecem na auto-consciência humana a mais alta divindade", convém lembrar que Prometeu foi o deus que roubou o fogo sagrado de Zeus e o deu para os mortais comuns, tornando-se, portanto, símbolo de resistência à eterna dominação do deus maior do Olimpo, que a todos subjugava com as intrigas e o poder..."
Detive-me um pouco em examinar a estupefação do meu amigo. Depois lhe disse que era um agnóstico, quer dizer: levo em conta o menor raio de luz, a menor possibilidade. E que o materialista somente acredita nas manifestações da matéria, sem se preocupar com o problema-Deus ; que o ateísta somente acredita nas manifestações da matéria, recusando-se a examinar Deus e, que, finalmente, para o dogmático tudo passa pela fé.
E de súbito ouvi, do meu amigo:

- Foi ótimo ter conversado com você. Estou certo de que ainda aprofundaremos o tema. O nosso diálogo foi ótimo. Seria ótimo que você escrevesse algo sobre o assunto...

Infelizmente encerrou-se assim, melancolicamente, o que o meu amigo chamou de diálogo, levianamente...

O Repórter 15.06.96
Gazeta de Alagoas 15.09.96

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