Universidade Federal de Alagoas - UFAL

Conferência pronunciada durante Ciclo de Estudos

FORMAÇÃO HISTÓRICA DO BRASIL

ABERTURA

Falar sobre a formação histórica do Brasil, para muitos historiadores, implica numa volta ao ano de 1453, quando os turcos tomaram Constantinopla, dificultando o caminho para as Índias.

Gilberto Freire, no seu livro "Casa Grande e Senzala" , nos diz que a característica da sociedade tropical portuguesa (brasileira) foi ser agrária na estrutura, escravocrata na técnica da exploração econômica e híbrida na composição. (P.43). E insiste em que o Estado português era mais etnocêntrico ( centrado na raça) que teocrático ( centrado em Deus). Anota a observação do Conde Keyserling sobre Portugal : " A raça não tem aqui papel decisivo", quando não encontrou um tipo português unificado, tais as misturas. E a de Alexandre Herculano, também sobre Portugal: " População indecisa no meio de dois contendores ( nazarenos e maometanos ), meia cristã, meia sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes".

E Rocha Martins, da Academia das Ciências de Lisboa, no seu livro " História das Colônias Portuguesas" ( obra patriótica, patrocínio do Diário de Notícias, tipografia do Diário de Notícias, de Março de 1934, Lisboa ) no prefácio " Alma da Raça", nos afirma: " Portugal, batido pelo mar, ou alvo das suas carícias, se não apresenta a estrutura duma caravela orçando os panos, evoca um vasto estaleiro no qual se laboraram, sob o mesmo influxo, naus e almas ansiosas de descobrir novos mundos, como se não coubessem nos limites do reino penosamente conquistado. Tais espíritos provinham dos argonautas, que nas mais recuadas idades, ungidos de bravura, desaproavam de suas pátrias - Grécia, Fenícia, Ligúria - em barcas trabalhadas nas madeiras jônicas, libanas e genovesas para vararem nas praias extremas da península".

Ferraz Macêdo, ao estudar o português encontrou um tipo dinâmico indeterminado, ou melhor, a falta de um tipo dinâmico determinado. E se deu conta de uma dificuldade fundamental : encontrou hábitos, aspirações, interesses, índoles, vícios, virtudes variadíssimas e com origens diversas etnias, dizia. E Gilberto Freire nos acrescenta: culturais, desejaria dizer Ferraz Macêdo !...

Ferraz Macêdo identifica no português as seguintes características : genesia violenta, gosto pelas anedotas de fundo erótico, o brio, a franqueza, a lealdade, a pouca iniciativa individual, o patriotismo vibrante, a inteligência, o fatalismo e a primorosa aptidão para imitar. Mas o luxo de antagonismos, no português, não o afastou da "realidade útil" e da "prudência". Aos portugueses é atribuída a criação dos "seguros marítimos" ( p.90 nota 12 do cap. I - G. Freire - Casa Grande e Senzala ).

Todo o desadouro de antagonismo ( G. Freire. p.46 ) é fruto de duas culturas: a européia e a africana ( católica e maometana ), uma dinâmica e outra fatalista, diluídas no português. Decorrência de tais antagonismos são a flexibilidade e a indecisão : o equilíbrio e a desarmonia deles resultantes irão permitir o especialíssimo caráter que teve a nossa colonização, equilibrada nos seus começos e ainda hoje fundada sobre antagonismos. Foi como se várias raças se diluíssem na alma portuguesa, de que nos fala Rocha Martins, usando-a como diluente para os seus projetos. O fato anterior, de maior expressão colonizatória na raça portuguesa, faz de tal raça, talvez, a "mais generosa" de todos os povos colonizadores, na medida em que examinarmos o extermínio dos Aztecas, Maias e Incas, promovido pelos espanhóis.

Na fundo Gilberto Freire nos passa a idéia de uma bicontinentalidade para o povo português, com dualismo de cultura e raça. O elemento semita se refleteria na capacidade de adaptação social e do português navegador cosmopolita do século XV. Tal espírito também estava impregnado do "realismo econômico", que desde cedo tendeu para corrigir os excessos militares e religiosos na formação do Brasil.

A "mobilidade", para G. Freire, explica a vitória portuguesa, com um quantitativo humano ( capital-homem ) que não teria explicações, fosse na Asia, na África ou na América. A precariedade de "capital-homem" haveria de ser suprida pela "mobilidade" e "miscibilidade". A atividade genésica, geradora de filhos, do português, portanto, instintiva, ou calculadamente um projeto político com fins a povoar as regiões aportadas, trazia graves conseqüências político-econômicas para o Estado português. As novas gerações miscigenadas, guerreiros, administradores, técnicos, etc, eram deslocados pela política colonial de Lisboa, como peças de um tabuleiro de xadrez, para os lugares mais adequados e necessitados, conforme as conveniência da religião ou da economia. A Duarte Coelho, enriquecido na Índia, D. João III entrega a capitania de Pernambuco. Seus filhos, Jorge e Duarte de Albuquerque são deslocados para as mais ásperas guerras na África. Da ilha da Madeira Portugal envia técnicos no fabrico do açúcar. Navios de carreira das Índias são aproveitados para o comércio com a terra americana. Os pretos africanos são transportados para o Brasil ( para a atividade agrícola ), como exemplos da política dos "quatro cantos do mundo".( G. Freire. p. 47 )

No intercurso de raças experimentado pelos portugueses saliente-se o contato com os sarracenos, com a sua figura da "moura-encantada", envolta em misticismo sexual, sempre de vermelho, penteando os cabelos, nos rios ou nas águas mal-assombradas. Mais tarde o português identificaria tal figura entre as nossas índias, que geralmente pintavam o corpo de vermelho, e tanto quanto as "nereidas mouriscas" adoravam banhos nos rios, com uma nudez ardente. Um tanto gorduchas, como as mouras, entregavam-se, inocentemente e alegres, por um pente ou espelho.

A observação permite observar-se a preferência portuguesa por mulheres: " Branca para casar, mulata para fuder, negra para trabalhar", G. Freire, p.48, segundo o ditado popular...

Além da mobilidade e da miscibilidade, a aclimatibilidade entra como fator de vitória da colonização portuguesa nos trópicos. O clima português, segundo os mais entendidos autores, como Martone, é mais africano que europeu, o que permitiu, ao português maior penetração no interior dos trópicos, enquanto os colonizadores nórdicos mais das vezes não foram além das "colônias litorâneas", ou então dos "estabelecimentos temporários" nos interiores tropicais.

A sociedade portuguesa, que realizou as bandeiras, a catequese, fundação e consolidação da agricultura, as guerras contra os franceses no Maranhão e Rio de Janeiro e holandeses em Pernambuco, era constituída de um pequeno número de mulheres brancas e maiores de miscigenadas com os indígenas. O caráter de permanência da sociedade portuguesa nos trópicos é superior a todas as outras, as nórdicas. Calvinistas franceses falharam no Brasil, nas Baamas ingleses e americanos fracassaram, quase sem deixarem traços colonizatórios. Ou então deixaram traços apenas nas praias ou nos arrecifes, por onde andaram se arranhando e se agarrando: os companheiros de Villegaignon fizeram isso antes de abandonarem as costas brasileiras, razão porque frei Vicente de Salvador tê-los chamado de "caranguejos". Bastaram apenas duas gerações para enlanguescer os americanos que tentaram se estabelecer no Havaí. A miscibilidade dos portugueses favoreceu a adaptação aos climas hostis dos trópicos.

Hoje já podemos interferir no clima: a drenagem muda a natureza dos solos influenciando as fontes de umidade para a atmosfera; a temperatura pode ser alterada pela irrigação; a força dos ventos pode ser alterada pela plantação de grandes massas de arboredos; a regularidade dos meios de transporte pode garantir a conservação dos produtos "in natura" e industrializados e, finalmente, as doenças tropicais podem ser controladas e até serem extintas, através de uma atividade médico-sanitária efetiva.

Diferentemente de outras colonizações, que apenas se preocupavam com o extrativismo mineral e vegetal, a portuguesa passou a criar riquezas locais embora á custa do trabalho escravo.

Em Pernambuco e no recôncavo da Bahia, a colonização desenvolveu-se de modo patriarcal e aristocrático à sombra das grandes plantações de açúcar, em "casas grandes", de taipa ou de pedra e cal, e não em palhoças de aventureiros litorâneos. Portugual enviou famílias inteiras, que vendiam seus bens e aqui se instalavam trazendo tudo o que possuíam, desde animais até certa tecnologia, sobretudo na área açucareira, mais conhecida dos judeus. Outrossim, mandou escravos africanos para o trabalho escravo. O capital particular entranhado no processo colonizatório, portanto, povoando e defendo a conquista militarmente, como era da exigência real. Ruediger Bilden afirma que a colonização particular, muito mais que a oficial, promoveu a mistura das raças, a agricultura latifundiária e a escravidão, tornando possível, sobre tais alicerces, a fundação e o desenvolvimento da colônia brasileira.

A partir de 1532 o que predomina na colonização é a família rural ou semi-rural, à sombra da atividade da Igreja, que condenava o "familismo" - atividade familiar fora da família rural-aristocrática, através dos padres da Companhia de Jesus. Entretanto é a família rural que faz tudo: desbrava o solo, instala fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, consolida-se como força social e política, etc, tornando-se a aristocracia mais poderosa da América. Tudo se passa como se o Rei reinasse mas não governasse.

A monocultura da cana propiciou a migração para o interior, com o nascimento das fazendas e a maior parte da atividade pastoril.

A lei de D. Dinis, de 7 de janeiro de 1453, afirma o general Sarmento: " Mandava tirar a língua pelo pescoço e queimar vivo os que descreiam em Deus ou dirigiam doestos a Deus ou aos santos". Por isto o português dos séculos XVI e XVII eram degredados para o Brasil. Também eram condenados por outros crimes de misticismo e até por crimes imaginários. Já pelos crimes de desonrar alguma mulher, matar e estuprar o indivíduo pagaria tais crimes com a "multa de uma galinha", ou "mil e quinhentos módios", contanto que fosse se acoitar num dos numerosos " coitos de homiziados", nos quais gozavam de determinadas imunidades. Foi gente de tal natureza que também veio para o Brasil. Duarte Coelho, numa carta ao rei pediu-lhe não mais enviar ao Brasil aquele tipo de gente , comparando-a com peçonha. Mas muitos cometiam crimes com o interesse de serem mandados para o Brasil, por conta de seus interesses. Muitas vezes cometiam o crime de beijar, alcovitar, molice no trabalho, pequenas feitiçarias, etc. G. Freire levanta a hipótese de que tais tipos, geralmente com intensa atividade genésica, interessava politicamente e economicamente a Portugal, que precisava aumentar a população da colônia. Vale salientar que muitos marinheiros abandonavam as caravelas e se escondiam na colônia, depois legalizando as suas situações.

Os padres da Companhia de Jesus desejam fazer dos índios "internandos que usassem camisolão", para o serviço de Jesus, como no Paraguai. Ou então seráficos caboclos que somente obedecessem as ordens dos ministros do Senhor, para trabalharem nas hortas e roçados das igrejas. Entre os índios, apenas o cacique, ou morubixaba, poderia usar as roupas características. Meninos e meninas índias deveriam usar a mesma "roupa-camisolão"...

Durante anos o Brasil esteve entregue ao abandono, a certa pirataria estrangeira, um determinado momento exigiu a presença portuguesa ao longo do seu litoral. E surgiram as expedições.

De 1501: Comandada por Gaspar de Lemos.

Percorreu o litoral, desde o Rio Grande do Norte até o Uruguai. Os exploradores deram nomes aos acidentes geográficos, sempre relacionando-os com festas religiosas. Cabos : de São Roque, de Santo Agostinho e de São Tomé; Rios : São Miguel, São Francisco e de Janeiro; Baias: de Todos os Santos e Angra dos Reis; ilha de São Sebastião, porto de São Vicente e assim por diante.

O piloto Florentino Américo Vespúcio, participante da expedição, alegrou os setores burgueses ao constatar a existência de grandes quantidades de "pau-brasil" na Mata Atlântica. O produto era conhecido desde as Cruzadas, quando fora trazido das Índias. Era indispensável nas manufaturas têxteis na Itália, França e Flandres. A mesma árvore também existia no Haiti, conforme constatação dos espanhóis.

Colocada sob monopólio estatal, a exploração da madeira territorial foi arrendada a comerciantes em 15O2. O primeiro contrato de pau-brasil foi realizada com mercadores portugueses e italianos, liderados pelo "cristão-novo" ( judeu convertido ao catolicismo ) Fernão de Noronha. O Estado se comprometia a não mais importar similar do Oriente, enquanto os arrendatários assumiam a exploração anual de 3OO léguas do litoral, o envio de navios às costas brasileiras e a manutenção de uma fortaleza, além do pagamento de direitos à Coroa.

1503

Comandada por Gonçalo Coelho e financiada com o dinheiro que rendeu da expedição de 15O1. Era necessário agir rápido pois o arrendamento havia sido feito por três anos. Descobriu-se a ilha da Quaresma, ou de São João, doada como primeira "capitania hereditária" a Fernão de Noronha, em 15O4, e que hoje tem o seu nome.

Os homens de Gonçalo Coelho ergueram benfeitorias em Cabo Frio e no Rio de Janeiro, e arriscaram a "primeira entrada" ao interior em busca de metais preciosos.

Está definida a entrada do europeu no tocante a atividade econômica. Nascem os "brasileiros", ou comerciantes de pau-brasil. O homem branco, de uma vez por todas, chegava e tirava a paz dos donos da terra...

O descobrimento do Brasil é apenas um episódio da expansão marítima européia no momento da transição do feudalismo para o capitalismo. As práticas mercantilistas e a predominância dos interesses econômicos sobre os aspectos religiosos e ideológicos se refletem até no nome definitivo que a terra é batizada. João de Barros, cronista, protesta, em "Décadas da Asia" : " Por artes diabólicas se mudava o nome de Santa Cruz, tão pio e devoto, para um pau de tingir panos".

O Brasil interessava ao Estado e a burguesia por causa do extrativismo da "ibirapitanga" ou "arabutan", dos tupis, realizado na chamada " Costa do Pau-Brasil ".

As relações dos portugueses crescem sem maiores tensões. As poucos os silvícolas conhecem o machado e outros instrumentos, fatores de transformações. Os objetos são trocados por trabalho e madeira: é o "escambo", forma comercial de troca. E a Europa, iniciando o trabalho servil, tinha suas indústrias têxteis abastecidas. Iniciava-se a dependência...

Mas as descrições do paraíso atraíram alguns românticos. Relatos de viagens se sucediam e encobriam realidades grosseiras da experiência vivida no local. E admite-se que Thomas More escreveu "A Utopia" com base nesses relatos. Utopia significava lugar imaginário. Do mesmo se admite que Shakespeare escreveu "A Tempestade" com base em relatos de uma viagem de Fernão de Magalhães ao Sul do continente.

O "Estanco" (monopólio estatal do pau-brasil) só foi extinto em 1859, em pleno Segundo Reinado. Durante todo período colonial o "extrativismo" ocorreu mediante concessões da Coroa portuguesa a grupos particulares, que muitas vezes se comprometiam a pagar uma quantia anual determinada ao Erário Régio. Para codificar toda a legislação vigente sobre a exploração da madeira e tentar evitar o desaparecimento das matas, que a atividade intensa do litoral estava realizando, decretou-se, em 16O5, o "Regimento Pau-Brasil"....

Em 1512 a Cruz da Ordem de Cristo podia ser avistada no arquipélago das ilhas Molucas, fonte produtora de especiarias. D.Manuel "O Rei Venturoso", a nobreza parasitária e os comerciantes, cada vez mais dependentes dos banqueiros estrangeiros mostravam que o Brasil tinha pouca importância para Portugal.

Outros povos andaram por aqui, sobretudo os franceses, que ao longo da nossa costa estabeleceu boa relação com os índios " tupinambás ", que se comprometeram a cortar o "Bois de Pernambuco" e levar os troncos para o litoral. Estava criado um problema: de quem seria o Brasil ?

Portugal reagiu. Criou a política de "Mare Clausum" (mar fechado), sob controle dos lusos, legalmente protegido pelo Tratado das Tordesilhas. Os protestos de D.João II e D. Manoel junto à Corte Francesa provocaram a famosa resposta de Francisco I, de França, afirmando que somente aceitaria o domínio de Portugal sobre o Brasil caso lhe mostrassem o testamento de Adão legitimando o Brasil como sendo português.

Portugal organizou "expedições guarda-costa". Capitaneadas por Cristovão Jaques. Elas agiram no litoral entre 1515 e 1528. Capristano de Abreu registra as suas selvagerias. Entre algumas, a tortura e entrega de prisioneiros a índios antropófagos para que fossem devorados. Mas o contrabando continuou em diferentes projetos de estabelecimento definitivo, como o da FRANÇA ANTÁRTICA, na Baía de Guanabara (1555-1567), e a FRANÇA EQUINOCIAL, no Maranhão, 1612-1615. Os motivos das tentativas estavam nos seguintes produtos: algodão, pimenta, pau-brasil e outros gêneros tropicais. No Rio de Janeiro o projeto da França Antártica serviu para refúgio de "huguenotes calvinistas" que sofriam perseguições.

A reação portuguesa foi determinando por uma ocupação militar. NASCIA O BRASIL LUSITANO, com seus canhões e fortes dispersos ao longo do litoral. Surgem as CAPITANIAS REAIS controladas diretamente pela Coroa, como as do Rio de Janeiro, da Paraíba, do Rio Grande, do Ceará, do Maranhão e a Feliz Lusitânia (Grão-Pará). E também as cidades, as primeiras do Brasil : Rio de Janeiro, Filipéia de Nossa Senhora das Neves, São Cristovão do Rio Sergipe, Natal, Fortaleza, São Luís e Nossa Senhora de Belém. O lema era: " Ocupar para não perder !"

E os primeiros donos da terra, os índios? Eles terminaram envolvidos em conflitos ao lado dos portugueses ou dos seus inimigos. A fundação da França Antártica, no Rio de Janeiro nos mostra isso: os Tamoios, com seus aliados, sob o comando geral do guerreiro Cunhambebe, lutavam bravamente. Movendo-se, com habilidade, os ataques de guerrilhas cada vez abriam claros nas hostes lusitanas, que tinham nas suas fileiras a indiada de Araribóia.

Estabelecida a paz entre os brancos, os índios, antes tão importantes como "bucha de canhão" são expulsos da terra e forçados ao trabalho, para os novos conquistadores. Mais tarde a lavoura açucareira, da iniciativa privada, teria o mesmo comportamento para com a nação indígena.

A notícia de prata, na bacia platina, com a expedição de Dias Solís (Bofes de Bagaço) aumentou o fluxo estrangeiro para o Brasil.

Em 152O Fernão de Magalhães descobre uma passagem para o Oceano Pacífico, o Estreito de Magalhães. As ameaças espanholas sobre a costa brasileira somente desaparecem quando as Coroas Ibéricas assinaram a Capitulação de Saragoça, em 1529. O governo espanhol cede as Molucas, sobre as quais tinha poderes desde o Tratado das Tordesilhas, e recebe uma indenização. Em troca, proibe viagens para a Asia através do Atlântico Sul, garantindo a hegemonia portuguesa sobre a área.

A prática mostrava que a única maneira de manter a terra brasileira era estabelecer povoações, organizando uma atividade produtiva. A ocupação militar havia provado ser insuficiente. A colonização se impunha.

Periodização Histórica do Brasil

Na primeira sessão do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, em 1º de dezembro de 1838, Januário da Cunha Barbosa fez a seguinte proposta: " Determinar-se as verdadeiras épocas da história do Brasil e se esta se deve dividir em antiga ou moderna, ou quais devem ser suas divisões". O mesmo autor autor ainda insistiria: " Marcar as diversas épocas da criação das capitanias gerais do Brasil, da fundação de seus bispados e das suas relações".

O primeiro autor sobre a periodização foi o general José Inácio de Abreu e Lima, no seu "Compendio da História do Brasil". Abreu e Lima, mais tarde conhecido como "general das massas", e depois chefe do estado Maior de Simon Bolivar O Libertador. Abreu e Lima era filho do Padre Roma, fuzilado após participação na malograda Confederacão do Equador. Os elementos levantados por Abreu e Lima são muitos e poderão ser lidos no livro "Teoria da História do Brasil", de José Honório Rodrigues, p.127.

O livro de Abreu e Lima foi examinado por Francisco Adolfo de Varnhagem. Do juízo de Varnhagem sobre o livro originou-se um dos mais acesos debates sobre a historiografia brasileira. Varnhagem acusou Abreu e Lima de haver copiado Alphonse Beauchamp, por sua vez um plágio de Robert Southey., além de apontar-lhe erros grosseiros. A questão estava criada. José Honório Rodrigues considera que Varnhagem carecia de conhecimentos teóricos e filosóficos, revelados na sua "História do Brasil". A reação de Abreu e Lima foi violenta.

A periodização histórica do Brasil passa: por Januário da Cunha Barbosa, que levantou o problema; brigadeiro Cunha Matos, importantíssimo na primeira discussão teórica e, finalmente, a primeira tentativa de periodização, com Abreu e Lima.

Um autor, José da Silva Lisboa ( Visconde de Cairu ) escreveu "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", imcumbência que lhe havia sido dada por D. Pedro I, com fins " a perpetuar a memória dos sucessos do Brasil desde o dia da sua independência".

Na 51ª reunião do I.H.G.B., a 14 de novembro de 1840, Januário da Cunha Barbosa ofereceu um prêmio de "cem mil réis" a quem oferecesse ao Instituto um plano para se escrever a história antiga e moderna do brasil, de tal modo organizado que, nele se pudesse compreender as partes política, eclesiástica, civil e literária. Acatada a idéia, o próprio Instituto acrescentou mais "cem mil réis" ao prêmio estabelecido por Januário de Cunha Barbosa.

O prêmio foi ganho não por um historiador, mas por um naturalista alemão: Karl Friedrich Philip Von Martius. Na verdade Von Martius não propôs nenhuma periodização histórica. Ele propõe, então, idéias gerais sobre o problema da história brasileira que não poderiam estar fora da preocupação dos historiadores, até então sem um ponto de partida seguro. Alguns tópicos de Von Martius:

a) - importância da contribuição das três raças na formação do Brasil. ( Não seria, portanto, desprezar-se a contribuição do negro e do indígena no desenvolvimento físico, moral e civil da população, como totalidade)

b) - com relação ao indígenas os costumes e a língua deveriam ser estudados cuidadosamente.

c) - o papel dos portugueses tinha uma conexão com as suas façanhas marítimas, comerciais e guerreiras, e não poderia estar isolado, dentro da história do Brasil.

d) - o historiador não poderia perder de vista o desenvolvimento civil e legislativo do país, os movimentos do comércio universal, incorporando-os à nossa história.

e) - o estudo das legislações e do Estado social de Portugal, observando o desenvolvimento das instituições liberais que haviam sido transplantadas para o Brasil.

f) - o papel dos jesuítas precisa ficar mais claro, estudando-se as relações eclesiásticas e monarcais.

g) - detectar como se estabeleceram e se desenvolveram as ciências e as artes como reflexo da vida européia.

h) - estudar como viviam os colonos, tanto nas cidades como nos estabelecimentos rurais.

i) - tentar a convergência das histórias das possessões de São Paulo, Minas gerais, Goiás e Mato Grosso; do Maranhão e Pará; Pernambuco, ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte; Sergipe, Alagoas e Porto Seguro, que queria dizer Bahia.

Von Martius foi o marco para as preocupações dos historiadores. Falar sobre todos os livros de história publicados é cansativo. Quem o desejar deve ler José Honório Rodrigues.

Mas alguns autores não podem ser esquecidos, sobre o tema:

Capristano de Abreu:

Como outros historiadores, sua obra reflete preocupações com o determinismo geográfico, a teoria evolucionista e o positivismo de Augusto Comte. As páginas 134 e 135 do livro de José Honório Rodrigues ( Teoria da História do Brasil) registram o seguinte:

Períodos:

1560 -1614 : - ocupação do litoral brasileiro. A resistência indígena e os ataques franceses forçaram a presença dos colonos no litoral.

1614 -1700 : - o povoamento do litoral, discreto no sul e terrenos do norte do Amazonas. Já são anotadas as internações pelo interior.

1700 -1750 : - o período das descobertas das minas.

1750 -1808 : - consolidação do sistema colonial : anulam-se as municipalidades, resgatam-se as capitanias dos donatários, declinam as minas, expulsam-se os jesuítas e transfere-se a capital para o Rio de Janeiro. Começam as rivalidades entre colonos e "reinóis", propiciando as idéias de independência.

A partir de 1808 começa a decomposição do sistema colonial, iniciado com a chegada de D. João VI e continuado com Pedro I...

Joaquim Nabuco:

em "Um estadista do Império" (1897) alargou as contribuições de Capristano de Abreu. Ele considerou a Guerra do Paraguai "o divisor de águas da história contemporânea". A guerra tanto marcou o apogeu do Império como as causas da sua decadência e fim.

Reinado de Pedro II

1840 - 1850 : - consolidação da ordem interna, fim das revoluções, aperfeiçoamento do governo parlamentar e luta contra o tráfico.

1850 - 1863 : - política exterior, equilíbrio do Prata, conciliação política, empreendimentos industriais, emissões bancárias, abertura do país pelas estradas de ferro e centralização crescente.

1864 - 1870 : - Guerra do Paraguai

1871 - 1878 : - emancipação gradual, liquidação diplomática da Aliança, começo da democratização do sistema ( imprensa e condução barata, - os bondes, que tinham começado em 1868, revolucionam os antigos hábitos da população, a idéia republicana, viagens imperiais e o caráter democrático que nela o Imperador demonstra e assume.

1879 - 1887 : - eleição direta, agitação abolicionista, maior importância do sul devido ao desenvolvimento de São Paulo, desaparecimento de antigos estadistas..

1887 - 1889 : - doença do Imperador e seu afastamento gradual dos negócios do Estado, descontentamento do Exército, abolição súbita, prevenções contra o Terceiro reinado ( da grande propriedade contra a Princesa Isabel; do Exército contra o conde d’ Eu, futuro Imperador), abundância em ouro, febre da Bolsa de Valores, positivismo e, finalmente, a Proclamação da República a 15 de novembro...

Sérgio Buarque de Holanda:

Em "Raízes do Brasil" marca 1888, ano da abolição da escravatura, como marco divisório. Antes da República o poder é agrário. A abolição traz o bacharelismo, as cidades, o romantismo, o positivismo e a transição do trabalho escravo para o livre.

Gilberto Freire:

Nos oferece o estudo mais exaustivo e completo da historiografia brasileira, ao abordar praticamente todos os elementos sugeridos por Von Martius. Sua obra é vasta: "Casa Grande e Senzala", "Sobrados e Mocambos" e "Ordem e Progresso".

A chegada da Família Real, para Gilberto Freire, propiciou a organização de uma burguesia urbana, a criação de grandes cidades, a fundação das Faculdades de Direito, etc. Ele também estuda a fase de industrialização do Brasil. sua obra não pode deixar de ser lida. No mínimo, casa Grande e Senzala é indispensável de ser lida...

Periodização histórica do Brasil, após a República, implica em se estudar a fundação do Partido Comunista do Brasil, o Tenentismo, as Revoluções de 30 e 32, a Intentona Comunista, o Estado Novo, etc. E, num passado mais remoto a Confederação do Equador, a Independência, a Revolução Farroupilha, as Regências, a Revolução Praieira de 1848, etc...

CONCLUSÃO

A história brasileira é longa e ainda em processo de definição. De prático podemos dizer o seguinte: o Brasil é multicontinental dos pontos de vista racial, religioso, cultural e político. É polinacional. É um aglomerado de nações dentro de um país, acomodando-se como nação única e, por vezes recorrendo ao sentimento de Pátria em tempos de guerras...

Não tratei de toda a periodização da história brasileira. Após a República tivemos a fundação do Partido Comunista do Brasil, o Tenentismo, as Revoluções de 30 e 32, o Estado Novo, a Redemocratização após a queda de Getúlio e, finalmente, O Movimento Militar de 1964, seguido por novo período de redemocratização. A periodização é longa e não caberia num trabalho deste tamanho. Além do mais, não pude tratar do problema racial-migratório, de italianos, alemães e japoneses, complicando ainda mais o nosso cadinho racial, com novas culturas estabelecidas e com forte predominância no Brasil. Em todo este quadro a cultura negra, com certeza, resistiu sem ter apoio financeiro...

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