Zumbi dos Palmares – enigma mal decifrado !

Óleo - Manoel Vitor

 

         ( Brevíssimas palavras para um ensaio que ajude a elucidar um enigma histórico )

 

            Zumbi é tema complexo, ainda de difícil solução. O mito, por exemplo, no qual se transformou, fato dificilmente questionável. Mas dos seus ideais, isso sim. Do que projetava com relação ao Estado primitivo que existiu nos seus domínios, após sua ruptura com Ganga Zumba, seu provável tio, morto por envenenamento, o que fez do herói negro uma mescla de fantasia e realidade. Registre-se aqui, também, que um profundo sentimento de culpa social, da classe dominante, ajuda, e em muito, a continuação do mito.

            Muito comum, sobre a história de Zumbi, a repetição de dados em muitos documentos. O nome Zumbi aparece, de fato, em 1673, em documentos portugueses. Antes, muitos mortos com o nome Zumbi eram documentos falsificados para a obtenção de pagamentos feitos pelo reino de Portugal.

            Sabe-se que em 1655 uma expedição chefiada por Brás da Rocha Cardoso prendeu um menino de nome Zambi, entregando-o ao padre Antônio Mello, de Porto Calvo. E que o referido padre havia ensinado ao menino Português e Latim. E que o mesmo menino, mais tarde fora batizado com o nome Francisco, e feito coroinha. E parece certo que fugiu para o Quilombo dos Palmares, ali adotando o nome de Zumbi. Há notícia de uma carta onde o padre revela ser Zumbi mais engenhoso até mesmo que muitos brancos. Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre.Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias ( e se informou sobre aquilo a Zumbi ) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus ( More ), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francisc Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro.

O significado do nome Zumbi é pouco claro: defunto, deus da guerra, morto-vivo, espírito presente, e até mesmo que se tratava de posto, graduação militar, dentro das forças militares do quilombo.

Em 1678 Canga Zumba, rei palmarino, aceita os termos para selar uma paz, proposta pelo governador pernambucano Pedro de Almeida ( já vimos documentos nos quais o nome do governador é Aires de Souza Castro ). Ganga Zumba muda-se para Cucaú, perto de Serinhaém, após as promessas de terras e devolução de alguns prisioneiros feitos pelas tropas portuguesas. Antes da proposta de paz o governador havia mandado, em expedição, o sargento-mor, Manoel Lopes, avaliar a extensão do quilombo. Dados históricos falam de uma extensão 150 quilômetros de extensão por 50 de largura. Penhascos, serras de até 500 metros de altitude, mata virgem, e outros tantos eventos geográficos, dificultaram a ação, mesmo dos holandeses, quando dominaram Pernambuco. Considere-se, aqui, as habilidade militares dos negros palmarinos, oriundos da África, onde sempre combateram  nas mais adversas situações. E praticamente aceito que a região pertencia aos índios Kariris. Tanto que, o quilombo não era composto apenas por pratos fugidos, mas também por índios, brancos pobres e comerciantes que não tinham poder de competição nos centros de maiores negócios, negócios de maiores vultos. Anotam-se as seguintes aldeias/mocambos, no quilombo: Amaro, Arotirene, Tabocas ( Observação importante, aqui, é lembrar de Montezuma chefe asteca que, aceitando os termos propostos pelos espanhóis, colocou-os dentro do coração da nação indígena, selando sua derrota), Danbranga, Aqualtene, Subupira, Andalaquituche, e Macacos, a capital. Tudo sugere uma organização de estado, primitiva, mas Estado. Um atavismo histórico faz supor que tal lembrança de organização não surge apenas por sobrevivência local, mas, também, algo vivido nos seus países de origem.

 Zumbi, voltando à questão da paz de Ganga Zumba, não aceita todos os termos do acordo, sobretudo no tocante a devolver os fugitivos não nascidos nos quilombos. Rebela-se. Seu tio morre por envenenamento, fato pouco claro, se por ordem de Zumbi, ou ação particular de algum dos seus partidários. Zumbi é o novo grande da gente palmarina, aclamado rei, general e tudo o mais. Aqui, nota-se uma herança somente ocorrida no sistema monárquico. Zumbi, portanto, tem como modelo de "Estado" seguir os mesmos passos do sistema monárquico. Não há uma República com parlamento e eleição. O Estado de Zumbi foi mais um "estado de revolta", com o sério atributo de que ele conseguiu transformar isso num " estado revolucionário ", e quase Estado, de fato.

Domingos Jorge Velho, homem de guerras, é  recrutado para destruir a reação e organização dos negros palmarinos. Se os holandeses, que somente saíram do Brasil, de fato, em 1670, vencidos nas Batalhas dos Guararapes, e a tal situação se acomodaram, agora, postos fora do processo colonial, Portugal não poderia permitir a existência  de tal enclave em terras prósperas como as de Pernambuco. Se a Companhia das Índias Ocidentais não lograra sucesso, o reino de Portugal haveria de cuidar disso pois, o descobrimento do Brasil havia sido ato de portugueses e precisava ser consolidado. A Cruz de Malta, de origem templária ( Ordem dos Templários ), destruída por Felipe, o Belo e o Papa, que buscavam suas supostas riquezas. Mortos os principais chefes da Ordem dos Templários, suas riquezas, salvas, financiaram os descobrimentos portugueses, quando criaram a Ordem de Cristo, em Portugal. A Cruz de Malta precisava ser respeitada e tremular nas velas das caravelas colonizadoras.

O ataque a Macacos, capital dos Palmares, termina por destruir o sonho de liberdade dos negros. É hora para as dificuldades históricas, das condenações e perdões. Da mitificação, esse processo histórico que emperra a história através da tradição oral. E somente diminuído, nem sempre encerrado, quando surgem novos documentos históricos sobre o mito criado em determinadas situações. E aí, por exemplo, com Zumbi, surge a dúvida se ele, de fato, atirou-se de um penhasco quando da chegada final dos invasores. E a versão de que conseguira fugir, continuar resistindo, até ser traído por um companheiro de lutas, de nome Antonio Soarez, a 20 de novembro de 1695. E mais, que degolado, seu pênis foi introduzido em sua boca. O que se tem por certo é que seu corpo foi espetado em praça pública do Recife, por decisão de André Furtado de Mendonça. A história está encerrada. Mais abaixo veremos que Décio Freitas, historiador gaúcho, concorda com Alfredo Brandão, alagoano, na informação de Zumbi foi morto em Viçosa.

 

Até agora falamos dos traços históricos anotados para o episódio do Quilombo dos Palmares, tidos como corretamente possíveis. Mas convém lembrar que portugueses e holandeses podem, mesmo por conveniência, não haverem liberados todos os seus documentos sobre a origem e destruição da organização negra que mais deu trabalho e prejuízo para eles, até mesmo porque, potências que eram, ficariam historicamente envergonhadas, pelas suas incapacidades militares ( foi quase um século de lutas ), e o pior, pelas atrocidades cometidas contra os negros brasileiros, aqui escravos, e na África homens livres, príncipes, reis e o que mais fosse nas suas escalas de organização social, ante o silêncio e cumplicidade das igrejas católicas e luteranistas. Faz pouco o Papa pediu desculpas aos negros brasileiros pela sua cumplicidade histórica com a escravidão. Convém lembrar, é verdade, que naqueles tempos o protestantismo não tinha influência no Brasil  tal nos dias de hoje.

Começa, aqui, o mito de Zumbi. As dúvidas e repetições da história estarão sempre presentes. As perversidades dos colonizadores são as mesmas em toda a história. Os artifícios de quem reage são os mesmos, também. Nenhuma raça do planeta é diferente, sob tais prismas, aspectos históricos.

Zumbi provoca a literatura e no futuro o poeta, o jovem poeta, Castro Alves, lhe garante lugar na história, com um grito contra a escravidão, em “Ao romper d´alva” : Senhor, não deixes que se  manche a tela / onde traçaste a creação mais bella  / De tua inspiração./ O sol de tua glória foi toldado.../ Teu poema da América foi manchado, / Manchou-o a escravidão.../  ou então em Vozes d´África Deus! ó Deus ! / Ondes estás que não respondes !  Castro Alves assim seguirá em sua obra poética que vale muito mais que todos os trabalhos, penso assim, de todos os demais trabalhadores intelectuais que trataram do tema. É verdade, sua visão do processo histórico tem uma essência teológica. O poeta vê o pecado cometido contra os negros. Não ideologiza a questão tal como foi, e´, e será, sempre, de natureza social, ideológica, política.

 

E agora um pouco de noção de Estado, para que falemos da República dos Palmares.

O Estado surge na Mesopotâmia, atual Iraque. A divisão do trabalho, o oprimido e opressor,  o escravo e o senhor, a propriedade privada e similares surgem, ainda no final do período paleolítico, e adquire configuração definida no período neolítico. Os povos sumerianos, acádios, amorritas, assírios e caldeus compõem sólida base para o surgimento das grandes manifestações sobre organização social com foros de Estado. Os  sumerianos criaram a escrita cuneiforme, para a contabilidade dos seus templos, verdadeiras casas de negócios, simbolicamente uma moderna bolsa de valores, dirigidas pelos patresis, sacerdotes com poderes tanto econômicos quanto políticos. Somente mais tarde os fenícios criaram o alfabeto, apenas de consoantes. Mais adiante os gregos adicionaram-lhe as vogais, universalizando o alfabeto criado pelos fenícios. A necessidade econômica estruturou o Estado.

O Estado nasce, portando, com uma conotação perversa, de dominação classista. E a isso chamam de civilização, e o seu berço é a Mesopotâmia. Não ocorreu, tal evento, na vastidão dos litorais marinhos, talvez mais propícios. Ali a civilização nascida também é potâmica, só que ás margens de rios, no caso o Tigre e o Eufrates.

Mais adiante os gregos realizaram um grande acontecimento histórico: a mudança do pensamento mitológico em pensamento teorizante, permitindo o surgimento das doutrinas, das especulações, das meditações e conclusões, filosóficas, artísticas, científicas, etc. As conseqüências de tal episódio são grandes demais para aqui serem totalmente esclarecidas. A Grécia é, de fato, o berço da cultura universal.

A Idade Moderna começa com a queda de Constantinopla, 1473, e vai até o advento da Revolução Francesa, 1789. Quatro grandes acontecimentos marcam esse período: os descobrimentos marítimos ( o Brasil foi descoberto em 1500 ), o Renascimento ( Florença, Itália, 1521), O Cisma da Igreja Católica, com Martinho Lutero e a formação dos Modernos Estados Nacionais, que mais tarde incorporaram novos atributos por força da Revolução Francesa de 1789, e são, portanto, mais ou menos o que conhecemos por Estado. 

Antes de tudo isso Giambatista Vico, Itália, suspeitava de que os mitos, sozinhos, não fazem a história, que uma ação coletiva dos homens diante de determinadas circunstâncias, fazem a história. Com base emVico, Jules Michelet escreveu a História da França, baseado em tal raciocínio. O mito começa a morrer, como fonte definitiva para a história. Mas não morrem os processos de mitificações, recursos sempre utilizados situações de angústia históricas.

Zumbi é o mito da angústia de um povo, a raça negra desterrada do seu país de origem e feita prisioneira.

Vale, agora, passados tantos anos, inquirir sobre as conseqüências da luta de Zumbi, no tocante à sua perenidade e capacidade de chegar ao futuro, até modificando-o.

Os negros permaneceram escravos, mesmo após Zumbi. O susto imposto ao sistema colonial português não foi suficiente para acabar a escravidão.

Os negros conheceram a Lei do Ventre Livre, algo ainda cruel porque os escravos nascidos ainda seriam explorados pelos donos dos seus país, até 18 anos de idade. Ou serem cambiados para uma creche, desde que o Estado indenizasse os seus proprietários. A Lei dos Sexagenários, quando os negros, bagaços humanos que para nada serviam, eram libertados nem tendo mesmo para onde irem. Muitos deles voltando para a senzala, por um simples prato de comida, dando origem ao que muitos chamaram de o bom escravo, aquele que amava o patrão, o seu dono. Finalmente a Lei Áurea, que a todos libertou, para que novos contingentes de brancos europeus pudessem chegar ao Brasil sem maiores constrangimentos. Mas os negros ainda lutarão ao lado de Vicente de Paula, o general de todas as massas, chefe do sedicioso movimento A Cabanagem, e agora é o negro papa-mel. Na Guerra do Paraguai Os Voluntários da Pátria eram negros que seriam libertados em caso de vitória do Império Brasileiro.

A história do negro, portanto, foi algo terrível e humilhante. A escravidão brasileira, entretanto, se gerou riqueza para os brancos europeus, também preparou as bases para o surgimento de uma República. Não fora esse o único motivo, com certeza foi um dos fortes motivos.

Mas a República foi ingrata com os negros, mantendo-os distantes dos focos de riquezas e decisões sócio-políticas. Distantes da educação e de outros bens sociais, marginalizados na periferia do processo histórico. Mão de obra barata, de pouca qualificação.

As grandes questões que devem ser postas: que papel, de fato, a República de Zumbi legou aos seus pósteros. Se ela não foi um episódio que se encerrou em si mesmo, finalmente. A par de tudo o que foi dito anteriormente, verificar se o padre Antonio Mello, que ensinou Latim e Português a Zumbi, também lhe ensinou a ler e interpretar as grandes utopias da história, sobretudo aqueles escritas no seu tempo existencial. E mesmo se o padre conheceu tais escritos.

Após Zumbi, e com o surgimento das Repúblicas, negros de outros países também continuaram sofrendo, isolados, quase que aldeados, descriminados. Parte deles adotou o luteranismo e outra parte o catolicismo, no Ocidente, principalmente. Outros chegaram ao poder político, na África e no Caribe.

Evidente que, se a Zumbi se dever maior organização militar, econômica e política, dentro do movimento palmarino, também é evidente que ali tudo foi primitivo, resquícios, talvez, das experiências vividas na África, nas suas estepes, montanhas, rios e florestas.

Zumbi, o solitário Zumbi, foi, antes de mais nada, o mais doce sonho de liberdade, de utopia. Um fenômeno singular, quando comparado aos outros negros do mundo inteiro, mesmo os da África de hoje, com novo sentido de luta quando procuram e procuraram libertação dos seus opressores. Nenhum deles, a notícia e essa, teve Zumbi como paradigma, como símbolo para suas lutas de libertação, como bandeira desfraldada, finalmente.

Zumbi foi o maior susto histórico sofrido pelo sistema colonialista do seu tempo. Lampeja, no episódio palmarino, a possibilidade de um Estado capaz de concorrer com o dos brancos europeus, sobretudo o de Portugal. Dantesco, inimaginável, que um escravo chegasse a tais alturas, altitudes, a tal ousadia, a tal ato de desorientar o poderoso colonizador. Daí a singularidade Zumbi. Daí a sua permanência histórica. Mas Zumbi ficou na ante-sala do que se imagina Estado, desde a Mesopotâmia, a Grécia, e a Europa.

Os negros de hoje, muitos deles que atingiram escalas sociais distintas, nasceram nos esportes e nas artes, e não por tradição geradas pelas suas famílias. E parece obedecem ao que defendia Sílvio Romero, que dizer, miscigenarem-se, casando com brancas e louras, com vistas a uma melhora da etnia futura. Outros alisam os cabelos e até mesmo os tingem de louro.

Um lei contra a importação de negros, de 1831, exigida pela Inglaterra, que precisava expandir seu parque industrial para o Brasil e havia apoiado Portugal no episódio da Independência, jamais foi cumprida, vez que proibia chegassem eles como escravos ao Brasil. A lei foi descumprida e serviu para se oficializar o contrabando de negros, por parte das autoridades, os negros aqui chegavam e continuavam escravos até 1888.

Décio Freitas, historiador gaúcho, dos maiores estudiosos do problema negro no Brasil, concluiu que os brancos não gostam de falar na escravidão porque isso lhes lembra o crime cometido. Vejam bem: Décio falam em crime, não em pecado, daí sua visão mais sociológica da questão, que em Castro Alves tem certo conteúdo teológico. E o mesmo Décio ainda afirma que os negros também não gostam do assunto, pois isso lhes lembra a humilhação a que foram submetidos, quando entrevistado, pela revista Última Palavra, 13 de maio de 1988. Finalizando, Décio nos informa que não há, de fato, no Brasil, uma história da Abolição, devido ao silêncio cúmplice mantido sobre o tema.

Do que foi dito, fica o mito de Zumbi. Mas a história está sempre precisando ser reescrita, o que implica incômodos e novas orientações, e que ferem as cumplicidades com o silêncio. Ouvir, de um governador, e de tantos políticos, que em Palmares nasceu o socialismo é, no mínimo, desconhecer a história do socialismo no Brasil e valeria a pena ler Vamireh Chacon, História das Idéias Socialistas no Brasil, demorar-se um pouco na Revolução Praieira de 1848. liderada por Nunes Machado, e que aqui não pode ser pautada tal a extensão do que por ali aconteceu, e prestar alguma alguma homenagem ao, talvez, nosso primeiro ideólogo e filósofo socialista, Antonio Pedro de Figueredo, que inicia os primeiros passos rumo ao marxismo. É verdade, Borges da Fonseca é o grande agitador político, que assina o Manifesto ao Mundo, contra o reino de Portugal, em nome dos portugueses aqui nascidos, embrião também de uma nova República. Mas uma questão poderá ser posta: e se Palmares foi uma sociedade primitivo-comunitária, daquelas do período palaeolítico, das sociedades gentílicas ( que antecedem a civilização mesopotâmica), de que nos fala Lewis Henry Morgan, em seu livro Sociedade Antiga ? Aí, então, poderia se falar em Estado negro. Mas um pequeno pormenor ainda complica as coisas: que Estado, do mundo, reconheceu a Repúlica Negra, de Zumbi ? Veja-se a dificuldade, no Brasil, para se criar uma Nação Índígena e o que implicaria em duas coisas: ruptura da soberania nacional, de um lado, e do outro o surgimento de um Estado dentro de outro Estado, se viesse, de fora, o reconhecimento de tal nação. Mas Décio Freitas, de quem já falamos anteriormente, Gazeta de Alagoas, Caderno E6, 23.11.2003, lembra-nos a tentativa de negociação entre Portugal e a República de Zumbi, até com negociadores, que ele chama de "embaixadores", sem resultados positivos. E o próprio Zumbi foi quem frustrou ítens dessa tentativa de acordo. Convém lembrar, em que pese a autoridade de Décio Freitas, que não houve, nas tentativas, nenhum vislumbre para que se formasse um Estado negro dentro do território de Portugal ultramarino. Tudo indica, o acordo seguiria as normas das revoltas internas, com concessões, perdões, e nada mais que isso, como tem sido o comum das rebeldias controladas pelo Estado, nas suas histórias sem rupturas do sistema. Décio Freitas ainda concorda com Alfredo Brandão, que muda o local de morte de Zumbi para Viçosa. Em história tudo pode ser novo. E como em Medicina, um documento, um exame sem sinais clínicos pode ser desconsiderado, em História um documento pode ser levado a isso, descoberta sua nulidade, insignificância, intenção despistadora, ou falsidade.

Tudo me faz crer que Hegel, pensador alemão, em sua Fenomenologia do Espírito, tenha razão, quando nos afirmava: “ A história não é o reino da felicidade. As horas de felicidade são suas páginas vazias”

 

Maceió, 06.10.2003

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