Depois de tanta folia restava apenas um objeto sobre a mesa, para ser examinado. O Rato e o Burro, por cortesia, apontaram para o Professor Corujão, como a indicar-lhe que era a sua vez. O Professor Corujão riu e os dois correram a examinar o objeto, delicadamente, movidos por extrema curiosidade. O Burro olhou para o homem, ainda desacordado, na cadeira, como a fazer alguma comparação. E não se conteve:

– Acho que amarramos o homem de modo muito parecido com este outro que aqui está entre estes dois pauzinhos cruzados.

O Rato brincou:

    – Coisa engraçada: como eles ficam parecidos. Quase a mesma posição. Só que este aqui está pendurado, com as mãos cravadas por pedacinhos de ferro. E suas mãos dão idéia de sangramento. Além do que, está muito magro.

    Ainda sério, o Professor Corujão falou que não se tratava de dois pauzinhos cruzados, mas de um crucifixo, uma cruz sobre a qual foi sacrificado um homem especial para o seu tempo.

    O Burro interrogou, olhando o crucifixo:

– Quem era ele ?.

    O Professor Corujão estava muito solene:

    – Cristo, o filho de Deus, como ficou conhecido entre os homens. Tão importante que o tempo ficou dividido e conhecido como antes e depois Dele.

    O Rato e o Burro estavam assustados. Então o Burro perguntou se naquela posição ele sofreu bastante, e se o homem também poderia estar sofrendo, ali, amarrado.

    Caminhando na direção do homem o Professor Corujão continuou:

    – Difícil saber, pois ele, o Cristo, era a encarnação de Deus. Pode ter sofrido como homem, talvez. Mas o nosso homem aqui não pode estar sofrendo, pois está desacordado. Quanto ao Cristo, é certo que nenhum castigo poderá ter sido maior do que o que que Lhe foi infligido, pois naquela posição havia sido colocado ainda vivo.

    Andou um pouco e concluiu:

    -...essa é uma posição que simboliza sofrimento. A morte do Cristo foi uma boa oportunidade para meditações. Mas não tenho certeza até que ponto ela foi aproveitada pelos homens.