Christiano Fernandes

Perdi a conta das vezes que insisti com o meu amigo para editasse seu livro de poesias, mestre do soneto que ele era. Ele sempre conseguia alguma desculpa. Tudo começou quando fiz, ainda universitário, uma análise do seu livro e corri para o Jornal de Alagoas, então dirigido pelo jornalista Arnoldo Jambo. Sentei-me e pedi para falar com o diretor. Minutos depois Arnoldo saía, indo provavelmente na direção da redação.Mas parou e me atendeu, rapidamente, lendo o meu trabalho. Riu discretamente e chamou por alguém cujo nome não recordo e mandou chamar Juarez Ferreira que, ao chegar, ouviu a seguinte ordem: " - Publique essa matéria desse rapaz no suplemento de domingo...o texto é razoável e quem sabe ele poderá continuar publicando por aqui, sempre que possível..." E ainda me perguntou se algo mais eu desejava. Agradeci-lhe dizendo que não E jamais nos vimos, senão agora quando retorna do Recife, depois de trabalhar anos no Diário de Pernambuco e sobre o qual escreveu a a história.
Christiano sempre resistia, achando que estava fazendo nada demais. Muitas vezes fui severo:
Você está jogando fora um privilégio sobrenatural, o de escrever sonetos. E mais grave: não deixar um registro em livro, reservando aos seus amigos um trabalho quase arqueológico quando as outras gerações precisarem conhecer os poetas de outros tempos, os nosso tempos.
Faz pouquíssimo tempo e usei o argumento final nos últimos quinze duas de sua vida, após haver mergulhado na leitura de documentos sobre navegação marítima portuguesa da era dos descobrimentos, contidos no livro do meu amigo Lenine Barros Pinto, historiador potiguar. E eu dizia para o meu amigo:" um dos episódios mais bonitos dos descobrimentos marítimos são as chamadas ilhas de fantasias. Elas foram frutos de astrolábios com possíveis defeitos, conhecimento imperfeito dos ventos e correntes marítimas, além, claro,dos segredos de Estado dos países envolvidos na navegação, receosos de que tais conhecimentos caíssem nas mãos de piratas e espiões. Daí que muitas vezes uma suposta ilha aparecia e desaparecia como que por encanto,causando perplexidade entre os navegadores, os reis, os espiões e os piratas, forçando a que se fizessem novas viagens na direção da ilha que ora mudava de lugar e ora desaparecia. somente o tempo foi provando se a ilha era uma fantasia ou uma realidade. Mas demorou muito essa odisséia das ilhas de fantasias. Você precisa publicar seu livro para que tenhamos uma referência, um porto seguro, e, finalmente, para que ele deixe de ser uma ilha de fantasia.
Christiano me ouvia, silenciosamente, dando-me a impressão de que eu estava vitorioso, finalmente.
Mas, de repente, me saiu com esta:"Linda, essa história das ilhas de fantasias. Eu nem me lembrava mais, tantos anos sem ler coisas da História, Mas veja bem que você me deu uma idéia poética, e que me faz preferir continuar sendo uma ilha de fantasia. E assim, os que me quiserem bem estarão sempre a me procurar"