A morte do vulcão

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- Colaço morreu ! Ouvi, perplexo, da voz de Rubem Jambo. Quase não respondi. Depois lhe afirmei:

- Estarei no cemitério !

Desliguei o telefone. Colaço me parecia uma coisa eterna. Não aquele homúnculo por vezes desajeitado. Mas o vigor que havia na força do seu olhar, e a fé em suas convicções. E pensei :

- Tolice. Foi só a casca.

Colaço foi um animal pré-histórico. E será pós-histórico. Pertence à raça dos sonhadores. Dos utopistas, estranha raça que jamais se extinguirá. Que resiste aos dilúvios.

Podia até ser ingênuo. Mas era indomável. Jamais seria o rei dos Liliputianos : aquele que usava um par de sapatos, um com o salto alto e o outro com o salto baixo para agradar aos dois partidos políticos do seu Reino, o do "salto alto" e o do "salto baixo". Colaço podia dar uma "mancada" mas não mancava, como o rei dos Liliputianos. Tinha, era verdade, um andar feio e desengonçado. Mas erecto, sem oscilações.

Colaço morreu como um vulcão. As suas lavas ficarão sobre a terra, quentes como ele era, indiferentemente à frieza dos insensatos e dos tempos futuros. E talvez se cumpra o poema de Cecília Meireles "Motivo da Rosa", que nos diz: " Eu deixo aroma até nos meus espinhos \ e ao longe o vento vai falando em mim". Não que Colaço possa ser imaginado tal uma rosa. Que absurdo! Isso nunca! Mas quem sabe, um "flor de cactus", bissexta, selvagem, de difícil desabrochar e rodeada de espinhos? Espínhos que machucavam, porque predestinados a ferirem o conformismo. Espinhos predestinados a criarem sonhos e horizontes que muitos não conseguiam ver. Espinhos visionários. Espinhos que continuarão falando por ele ao longo dos tempos, enquanto o vulcão em repouso ressoará, em seu interior, cantigas de menino travesso e de homem precocemente envelhecido, sazonado nas lutas sociais.

Venceu-se o dia. A tarde. Um tarde habitual de transeuntes silenciosos, carros alucinados e um velho sol deitando no horizonte. Veio a noite. E Colaço não chegava. E o que chegou a provocar de um amigo :

- Ele chega já sozinho, afobado como era !

Depois, o mal iluminado cemitério recebia Colaço. Não os restos mortais geradores de piedades e lágrimas incontornáveis. Mas o Colaço inquieto e capaz de despertar discursos de inflamada oratória. Um Colaço capaz de ser inventariado e transformado em patrimônio político - privilégio somente reservado aos notáveis.

Pequeno e quase esquálido, Colaço seria figura impublicável, pouco fotogênica. Mas isso se a História fosse escrita apenas pelos gigantes físicos, ou pelos apolos da mitologia. E ele não fosse um universo de sonhos indomáveis que transcendiam à sua condição física.

Diário - 19. 1O.1991

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