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CONTOS




21/11/2009 - 16h22min

Dona Aninha

"Dona" Aninha era magrinha e dócil...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

A torre da Matriz de Senhora Santana estava em reforma. Os andaimes atraíam a curiosidade dos meninos. Vez por outra, um de nós subia naquelas armações perigosas o tanto quanto nossa coragem permitia, e o tanto quanto não ouvíamos algum grito de alerta e proibição de algum adulto prudente, mas insensível ao nosso espírito de aventura.

Ao lado da Praça da Matriz (perto do Hotel Central) ficava a casa de "Dona" Aninha, mãe do meu amigo Zé Viana. Muitas vezes fui ali onde sempre fui tratado com carinho. "Dona" Aninha era magrinha e dócil. Discreta, tinha aquela paciência das mulheres vocacionadas para a maternidade. E sempre tinha alguns docinhos caseiros com os quais nos presenteava, quando íamos encontrar o seu filho.

A sua magreza, com o tempo, já não parecia coisa normal. Tanto que, um certo silêncio tomara conta das conversas da sua casa. "Seu Artur", marido da "Dona" Aninha, era um antigo soldado da polícia e homem de confiança do coronel Lucena. Havia sido combatente nas "volantes" que lutaram contra os cangaceiros de Lampião. Era sério demais, para conversas tolas. Mas agora a sua "carranca", de traços inflexíveis, revelava alguma preocupação. E aos poucos "Dona" Aninha ia deixando de aparecer. Passava maior parte do tempo no seus quarto de dormir. Dr. Arcênio, o médico da cidade, muitas vezes demorava-se ali e depois saía fazendo recomendação com um ar de seriedade.

Um dia perguntei para a minha mãe:

- O que está acontecendo com a "Dona" Aninha?

Minha mãe, como era comum naqueles casos, respondeu-me com uma proibição:

- Nada demais. Isso é assunto para adultos. A "Dona" Aninha está apenas um pouco adoentada. Esqueça!

Um dia tivemos a notícia de que "Dona" Aninha acabara de falecer. Por uma grande aproximação que eu tinha com Zé Viana tenho a impressão de que fui um dos primeiros a chegar _à sua casa. O meu amigo estava calado, perplexo, como se dele alguma coisa também houvesse sido escondida. Era-lhe difícil entender que a mãe estava morta. E sobretudo: que o velho "Major" (sacristão e tocador dos sinos da Matriz) estava doente e que a sua mãe não poderia ser levada para o cemitério sem que os sinos não anunciassem o acontecimento. E mais grave: ser ele o único dentre nós, que participávamos da Cruzada Eucarística, o que sabia tocar os sinais fúnebres.

Do alto da torre, eu e Guido assistimos o nosso amigo tocar (entre soluços) os sinais fúnebres para o sepultamento da sua mãe. E um vento suave parecia vir, propositadamente, secar as lágrimas que molhavam as suas faces. Mudei o olhar e vi a paisagem: a velha “barragem” onde tomávamos banho nas épocas de verão; a Serra do Poço, aberta ao meio por meio de uma “tromba d’água”; o velho Ipanema, seco e com suas pedras descobertas e, finalmente, olhei na direção do cemitério. O meu amigo silenciara os sinos. O sepultamento terminara. Coberto de lágrimas, ele havia vivido a singular experiência de tocar “sinal fúnebre” para a própria mãe. Descemos a torre, em silêncio. À porta de sua casa nos despedimos, reprimindo soluços. A noite chegara.

Algum tempo depois o meio amigo foi para o Rio de Janeiro, incorporando-se à Marinha de Guerra mal completara 15 anos...


Gazeta de Alagoas, 17-3-93





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