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CONTOS




21/11/2009 - 16h36min

"Seu" Frederico

Jamais usarei gravata! No coisa para homem...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Era um homem alto e magro, com o trax fletido sobre o abdome. O nariz grande, avermelhado. O olhar srio, complacente quando a falar de experincias vividas. Por vezes fechava os olhos e dizia frases definitivas sobre determinados assuntos. As suas mos giravam no ar como bailarinas. E cansei-me de ouvi-lo dizer:

- Mas isso coisa dos tolos. At as crianas sabem disso. Passei a vida a ver essas coisas acontecerem.

Das vezes que o vi conversar com o meu pai prostrei-me em admirar-lhe a figura esqulida, sria, e que ouvia o seu interlocutor de olhos fechados. E no conseguia entender como aquele homem, sempre de terno, chapu e um invarivel guarda-chuva, fosse vero fosse inverno, no usava gravata e conseguia encerrar os assuntos do modo to formal, despedir-se de olhos fechados e sumir. Do que eu sabia, ele havia sido fabricante de doce ou de algum tipo de bebida em Palmeira dos ndios, e indicado " prefeito-interventor " pela Revoluo de 3O. A ausncia da gravata me intrigava. Eu cansara de ver a minha me polir as abotoaduras de ouro que o meu usava nas camisas de mangas compridas e punhos endurecidos por gua-de-goma, passados a ferro de engomar, cuidadosamente. Mas o que me chamava a ateno, nas camisas do meu pai, era o "boto-de-colarinho", tambm de ouro, igualmente s abotoaduras. O colarinho da camisa, tambm com gua-de-goma e passado e ferro-quente, era o ponto crtico de afirmao domstica da minha me. Nem mesmo To, a velha empregada, merecia confiana naquele momento. O que no impedia que ela desse algumas instrues que, no fundo eram uma maneira de mostrar que somente ela sabia fazer aquilo:

- Veja bem To, basta que se faa com o ferro menos quente e tudo est perdido. Tem que estar na temperatura certa. H mulheres que nem ligam para o colarinho e os punhos das camisas dos seus maridos.

A velha To franzia a testa com ares de quem havia entendido tudo, depois ria e sempre encontrava palavras gratificantes:

- Isso quase uma arte. A senhora sabe que pouca gente tem jeito para isso.

A minha me ficava vaidosa.

Um dia, inopinadamente, intrometi-me naquela cena domstica entre a minha me e a velha To:

- S no entendo porque a senhora perde tanto tempo passando punhos e colarinhos das camisas do meu pai e ele raramente usa tais camisas, porque no gosta de usar terno, a no ser quando viaja.. "Seu" Frederico pelo menos usa terno todos os dias, embora no goste de gravata.

Minha me me fez sinal para que eu me retirasse, com um olhar de reprovao. To me fez um sinal com a testa franzida. Silenciei e obedeci. E ainda ouvi a minha me perguntar para To:

- O que que ele tem hoje?...

Naquela noite fui para o quarto de To. Ela me recebeu um tanto sria e depois desatou a rir:

- Voc sabe a histria da gravata do "Seu" Frederico?

Respondi-lhe que no. E ela, sem mistrios, me contou que quando ele havia sido prefeito usava gravata. Mas que num certo dia havia tido uma briga com "Seu" Adeildo Nepomuceno, um homem muito pequeno, quase ano. E como ele no tinha outro recurso contra o tamanho do "Seu" Frederico agarrou-se sua gravata e quase o enforca, no fosse a interferncia dos amigos. E que ento a partir daquele dia "Seu" Frederico fizera uma promessa.

Insisti para saber sobre a tal promessa. E To me falou como se falasse com a voz do "Seu" Frederico, engrossando a voz:

- Jamais usarei gravata! No coisa para homem. Se fosse no serviria de instrumento para eu morrer pelas mos de um homenzinho do tamanho do Adeildo.





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