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CONTOS




21/11/2009 - 16h48min

Thomazinho

Ele queria ser piloto de guerra, da Aeronáutica...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Porte mediano, com tendência para gordo, Thomazinho passava pelas ruas com um ar solene e misterioso. Cumprimentava as pessoas sem o menor sorriso nos lábios. O olhar parecia parado, mas lá no fundo alguma coisa se movimentava como a procurar palavras carinhosas. E só então, descoberto na intimidade do olhar, ensaiava um sorriso curto, fugidio para, depois, assumir um ar enigmático. E se despedia.

Seu pai, "Seu Caiçara", velho soldado da polícia militar do tempo de combate a Lampião, por vezes era recolhido ao quartel com crises nervosas. E nós, os meninos, muitas vezes fomos vê-lo, movidos pela curiosidade. Dias depois ele circulava pelas ruas, manso e cordial. Houvera sido um homem valente e respeitado. E por aquilo era querido.

O Hotel Central era o local onde os homens jogavam baralho durante a noite, inclusive o meu pai. E dali Thomazinho saía para a casa de Odete, uma velha prostituta por quem ele havia se apaixonado. Na verdade, Odete não era uma prostituta no sentido comum. Havia sido casada e tinha um casal de filhos. Por volta dos quarenta anos ainda sugeria uma beleza capaz de causar ciúmes.

Tinha em sua casa algumas jovens prostitutas que, segundo diziam, ela orientava no mais antigo labor do amor a retalho. Mas Thomazinho já lhe havia sugerido deixar aquela vida, que ele se casaria com ela. Odete recusara, dizendo não ser mais criança. E sobretudo, porque tinha um casal de filhos para o qual não desejava padrasto. Mas um dia foi ameaçada por Thomazinho:

- Se eu lhe encontrar com algum homem eu lhe mato.

Odete temeu. Pediu tempo para pensar. Mas o tempo, longo, foi impacientando Thomazinho.

No "poço dos homens" (do rio Ipanema) onde nós, os meninos, também tomávamos banho perguntei para Zequinha, irmão de Thomazinho:

- Por que seu irmão é tão estranho?

E ouvi::

- Não sei. Ele queria ser piloto de guerra, da Aeronáutica. Mas foi reformado. A minha mãe falou que ele não é bom da cabeça. Só sei isso...

Encerramos o assunto.

Uma noite, ao se dirigir para a casa de Odete, Thomazinho teve a impressão de haver visto um homem entrando no seu quarto. Não vacilou: atirou na direção do vulto matando uma das jovens prostitutas e ferindo outra. Depois, alucinado, entrou no quarto de Odete.Com o quarto fechado, escreveu dezenas de frases de amor pelas paredes. E logo dois estampidos foram ouvidos, coincidindo com a chegada da polícia. Derrubada a porta estavam lá Thomazinho e Odete, sangrando e expirando os últimos estertores da morte. Ele havia morto Odete e depois atirado no seu próprio ouvido. A perplexidade das pessoas confundia-se com o frio e o silêncio da noite.

Pouco tempo depois mudei-me para Maceió. E lá um dia encontrei o meu amigo Zequinha. Apresentávamo-nos ao Exército, como recrutas. Ele me olhou e não se conteve:

- O meu irmão era louco!

Tentei dissimular. Abraçamo-nos, cordialmente. Servimos na Primeira Companhia do 20 B.C., Maceió

Com o tempo Zequinha se tornou um ébrio. De certa vez (Teatro Deodoro) ele me disse, bastante envelhecido:

- Pois é: adoro o teatro. Ele imita a vida.

Depois rimos sobre episódios do tempo de Exército.

Anos depois eu soube da sua morte. Meu irmão foi seco:

- Problemas hepáticos. Bebia demais. Mas nunca perdeu a cordialidade.


Gazeta de Alagoas 21.03.93





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