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CONTOS




21/11/2009 - 16h51min

O que temia assombrações

Quantas vezes Romildo ganhou apostas ...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Tudo começava muito cedo. Mas só tomei conhecimento quando ouvi e entendi a cançãozinha “Boi da cara preta” que a minha mãe cantava para que eu e meus irmãos dormíssemos, sempre que aquele não era o nosso desejo. A canção pedia para o "boi da cara preta" pegar o menino que tinha medo de caretas. Na verdade eu nem entendia o porquê daquela história de caretas, se ninguém ainda havia me testado fazendo as tais caretas. E muitas vezes, mais adormeci pelo cansaço e pela ação hipnótica do balanço da rede que pelo medo do boi, ou de caretas. E sobre os meus irmãos menores, por vezes embalados nos braços da minha mãe ou de alguma empregada doméstica, sempre pensei que mal ouviam a canção senão que, talvez, murmúrios que não devessem entender. De outras vezes ouvi cantigas de ninar que eram mais amenas, quando se tratava da minha irmã. E me lembro de que apenas uma vez a minha mãe me disse que colocasse o lençol tapando o ouvido que aquilo fazia o sono chegar, pois ele gostava do silêncio.

Para nós, os meninos, entretanto, a regra era sempre alguma ameaça. Mesmo a mais velada, se alguma insônia vadia, de repente, tomava conta das nossas inquietações.

Se insistíamos em não dormir (já um tanto crescidos) quase sempre alguma história de assombração nos era contada. Uma bruxa malvada, o "Papa-Figo", o "Bicho-Papão", a Caapora (pedindo fumo) e o Saci Pererê (saltando numa única perna), poderiam vir tomar satisfações conosco. Mesmo um cão que latia (numa distância sempre longínqua) na solidão da noite em busca de um ladrão era o bastante para nos assustar, porque sempre havia a possibilidade do ladrão vir se esconder em nosso quarto. Além do mais, existiam "as almas penadas", vadias, ainda pagando culpas por pecados cometidos durante a vida. Mas nem tudo era assombração: algumas vezes, rebelde ao sono, ouvi que o pedido era de "Papai do Céu", preocupado com a fadiga dos meus pais que precisavam trabalhar no dia seguinte.

Em muitas noites, tapei os ouvidos com o lençol para não ouvir os uivos dos cães que latiam no silêncio das noites. Noutras temi que alguma "alma penada", o Saci, o Papa-Figo e o Bicho-Papão, de repente, chegassem e me pedissem satisfações. Por vezes acreditei nas bruxas, com suas vassouras voadoras. E então eu preferia me antecipar abrindo algum diálogo com "Papai do Céu", para poder dormir tranqüilamente e sonhar com os "anjinhos".

As histórias de assombrações também estavam fora das nossas casas. Ouvir falar, atentamente, das estórias de homens que faziam "orações de envultamento", era algo capaz de causar curiosidades e medos. E nós, os meninos, quantas vezes nos deliciávamos com as histórias do "Seu" Né Fidelis, um homem valente, perigoso, e do qual se suspeitava já haver morto outros homens. Preso pela polícia, "Seu" Né Fidelis jamais amanhecia na prisão. A explicação era sempre muito simples:

- Ele sabe uma oração de envultamento, transforma-se em sombra e atravessa as grades e as paredes. Não adianta prendê-lo: ele sempre fugirá!.

Quantas vezes Romildo ganhou apostas em dinheiro para entrar no cemitério do Monumento por volta das seis horas da noite, hora da "Ave-Maria", e uma vez lá dentro gritar desaforos para todas as almas. Até o dia em que saiu correndo, assustado, pondo-nos a correr desabaladamente, fato jamais explicado pelo nosso amigo de peraltices, que nunca devolveu o dinheiro daquela última aposta.

Passados os anos, ainda sem todas as mania da velhice, nas minhas noites de insônia recordo-me daqueles símbolos dos medos infantis. E ainda, antes de adormecer, invariavelmente tapo o ouvido com o lençol. E experimento a impressão de que quem está adormecendo é o menino que ficou morando dentro de mim, e não o adulto fatigado, machucado pela vida.

O Diário. 18.02.96





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