Luiz Nogueira Barros
   
   
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CONTOS




21/11/2009 - 16h53min

A sepultura da estrada

Do tempo em que os mais velhos contavam histrias...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

A sepultura da estrada tinha uma pequena capela, encimada por uma pequenina cruz. E irradiava um mistrio. Muitas vezes me perguntei porque pessoas eram sepultadas naquelas solides, se existiam os cemitrios. Mais das vezes eu havia visto o padre encomendar os mortos: quando crianas, chamando-as de anjos; e adultos, exigindo-lhes alguma confisso e s depois ministrando-lhes a "extrema uno" como garantia para um repouso no cu. E por isso, o morto l da sepultura da estrada ocupava as minhas inquietaes. E pior: todos me torciam o nariz, se eu insistia sobre o mistrio daquela pequenina sepultura.

Um dia apelei para To, a minha velha empregada. Do tempo em que os mais velhos contavam histrias, To me encarou com alguma seriedade. Fiz-lhe ver que ramos grandes amigos. Que confiava nela mais do que em minha me, que durante anos s vivia grvida. To me olhou com um olhar de reprovao:

- Coisa da vida. Voc no pode censurar a sua me. Ela lhe quer bem. Isso coisa do casamento.

Voltei a insistir e ouvi:

Oua bem: at concordo que voc confie em mim. Afinal, cuido de voc desde os seus primeiros dias de vida. Mas seria melhor no lhe contar aquela histria. Ela muito triste.

A ltima palavra de To me aguou os sentidos. Fui decisivo:

- Conta ou no conta ?

A velha To sorriu, alisou minha cabea e iniciou:

- Muito bem! Naquela sepultura est um rapaz de nome Heitor. Quando morreu tinha trinta e trs anos, a idade de Cristo. Foi morto naquele local. Namorava uma moa conhecida como uma das lindas, aqui da regio. Todos sentiram a sua morte misteriosa. E ali, ento, por vontade da famlia, foi erguida aquele pequena sepultura em forma de igreja, com aquela pequenina cruz. Mais um dia, o pai de Heitor apareceu de namoro com a namorada de Heitor. E dizia, para as pessoas, que estava compensando a falta que o filho fazia para aquela moa que no se conformara com a morte de Heitor. E l um dia os dois se casaram. O espanto foi geral. E houve at certa revolta da parte das pessoas. E mais revolta ainda quando do casamento nasceu um filho deformado, um monstrinho! To deformado, que adoeceu e sua doena durou trinta e trs dias, aps os quais morreu. A coincidncia dos trinta e trs dias com os trinta e trs anos da idade de Heitor fez com que a polcia reabrisse o inqurito, tal a inquietao que o fato causou nas pessoas. E ento se descobriu que a namorada de Heitor e, claro, o pai de Heitor, os dois safados, que haviam assassinado o pobre Heitor, pois j tinham, em segredo, um caso de amor.

Curvei a cabea sobre o joelho de To. Perplexo, quase no podia respirar. Ela me alisou a cabea. Depois, respirei e perguntei:

- E aos dois, o que aconteceu?

To me respondeu, com tristeza:

- O pai sucidou-se....na priso. A moa ficou louca!

Fiz-lhe a ltima pergunta:

- E por que no mudam os restos mrtais de Heitor para um cemitrio?

To me parecia triste. E concluiu:

- A que est. Pela tradio ele somente poder ser mudado dali se a sua alma falar sobre o que aconteceu. A polcia descobriu tudo, mas a sua alma ainda no falou, talvez pela tristeza com a traio. E se isso no acontecer, Heitor ficar ali at o fim dos tempos.

Olhei para To: ela se benzia e me olhava com ternura. E ainda me falou:

Eu nem deveria ter lhe contado. Mas contei. um segredo. No fale para ningum, prometa-me.

Demorei-me a dormir, imaginando sobre a maior das juras que devo ter feito em minha vida. Mas, finalmente, apoiando a cabea sobre as suas pernas, o colo de ninar, terminei por adormecer. Na manh seguinte fui at a janela, ainda muito cedo, e fiquei a observar, na curva da montanha, a pequenina sepultura, quase invisvel. Alguns meninos j passavam pela rua. E me senti um tanto envelhecido, com o olhar perdido, dono de um enorme segredo.

Gazeta de Alagoas-6-12-92





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