Luiz Nogueira Barros
   
   
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CONTOS




21/11/2009 - 16h53min

A que exigiu uma estrela-candente !


Fonte: Luiz Nogueira Barros

Na viso fantasiosa dos meninos dava gosto ver as flores desfilarem juntas, inseparavelmente juntas. Uma, alva como o lrio, a boca de carmim, os dentes alvos tal o marfim e os cabelos negros como a noite, alm, era claro, dos sorrisos fartos e que mais pareciam sementes jogadas sobre os campos que esperavam as chuvas, e mais das vezes parecendo um postal antigo, tal a beleza que irradiava. A outra, morena, tambm com a boca de carmim, os dentes alvos como o mrmore, os cabelos tambm negros e o riso farto como o sol e mais das vezes parecendo com alguma coisa que houvesse germinado da prpria terra, telrica, a aquecer os campos semeados, tal uma deusa. A primeira, Mirian, um nome clssico. A segunda, Eluza, um nome brejeiro e com os ares do serto. Na nossa viso infantil ficvamos maravilhados com aquelas duas flores das tardes sertanejas. Mas elas estavam longe das nossas pretenses, por serem moas j em idade de casamento. Tnhamos que nos contentar com as meninas da nossa idade: que sorriam das janelas, que mandavam recados, ou ento com as que temiam mesmo serem abordadas para um elogio, tal a inocncia dos nossos anos.

Hbito comum era o de escrever poesia nos albuns de recordaes, que as meninas cobriam com capas delicadas. Uma vez escrevi num certo album: "Teus cabelos so fulvos, fulvos como a tarde ao por do sol. So bonitos, so profusos tal a cano do rouxinol." Mas nada nos dava a certeza da conquista. Por vezes, tudo falhava. E sobrevnha-nos algum sofrimento. E naquelas horas costumvamos analisar os nossos fracassos. E numa daquelas ocasies, sempre durante a noite, Guido chegou e foi nos dizendo:

Sei de um jeito que no falha!

Foi grande o nosso espanto. E quase todos perguntamos, ao mesmo tempo:

Ento fale logo.

Guido brincou com os dedos da mo, olhou-nos e ficou rindo. Insistimos. Ele pediu calma, todo importante. Depois, mais importante ainda, comeou:

Muito simples ! Basta olhar o cu durante a noite, esperar uma "estrela-cadente" correr no firmamento e fazer um pedido dizendo o nome da menina que deseja amar. Depois passar na igreja e rezar uma orao em agradecimento.

Ficamos perplexos e intrigados e desconfiados com a simplicidade da questo. Foi a que Guido insistiu:

Mas no simples. S se tem direito a uma nica escolha.

Respiramos fundo e quase falamos ao mesmo tempo:

Assim fogo! Isso uma armadilha!

Noites e noites fiquei a olhar o cu, abrindo a janela depois que os meus pais dormiam, em busca da minha "estrela-cadente". Na hora em que uma corria no firmamento eu ficava tomado de dvidas sobre o nome da menina escolhida, e perdia a minha estrela e a minha chance. E nos dias seguintes procurava reconferir meus sentimentos. Mas, um dia, uma menina vinda de outra cidade ribeirinha me acendeu os sentimentos. E pensei:

ela! No tenho dvidas !

Na mesma noite olhei o cu. A "estrela-cadente" passou. Fiz o pedido. Na manh seguinte fui Igreja-Matriz e rezei. Esperei! E tivemos um frgil e inocente ensaio de amor.

Noutro dia, l do passado (o do destino ?) mudei-me para a capital.

Anos depois, numa noite, me disseram:

Ela se casou com um professor do ginsio!

Olhei o cu e fiquei a rastrear estrelas. Depois ri e me lembrei de que nem precisei de estrela-candente nem de oraes para encontrar o meu grande amor, uma professorinha tmida no olhar e no sorriso, que vi pela primeira vez atravessando uma pracinha, numa linda manh de sol

O Dirio. 21.01.96





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