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CONTOS




21/11/2009 - 16h55min

Cemitério dos elefantes


Fonte: Luiz Nogueira Barros

Santana do Ipanema dispersa-se sobre as ribanceiras do rio Ipanema e do riacho Camoxinga. Seus dois leitos são duas fraturas da terra que acomodam as águas das chuvas e as fazem correr na direção do rio Sâo Francisco, antes de alimentarem as fantasias sazonais da região. O Ipanema vem da Serra de Ororobá, Pernambuco, e o Camoxinga, da Serra do Poço, bem ali, diante dos nossos olhos, e sugerindo, de longe, um hipnótico azul celestial.

A região, em seu contexto de grandeza geológica, faz parte do que sobrou do desgaste da Serra da Borborema quando, no período pleistocênico, há pelo menos quatro milhões de anos, os ventos semi-áridos e as intempéries jogaram partes da serra sobre a margem esquerda do São Francisco e do Atlântico. Do que resistiu a aquele acontecimento longínquo sobraram os maciços das Serras da Maravilha e do Poço, onde oasis de altura, durante anos, testemunharam climas e vegetações daquelas alturas exóticas. E até se sabe que lagoas ali existiram, como a Lagoa dos Elefantes, desaparecida por conta das acomodações tectônicas e levando com ela animais pré-históricos.

Nas suas caminhadas, fugindo das glaciações que ocorriam nas calotas polares, os elefantes desceram pelo Corredor Andino Oriental, entre a Mata Atlântica e Cordilheira dos Andes, na direção do sul, onde também ocorria glaciação. Então, eles tomaram a direção do rio Paraná, dali alcançaram o São Francisco. Como desceram até sua parte mais baixa é um mistério. E outro é como subiram o rio Ipanema indo na direção da lagoa, na Serra da Maravilha.

Durante anos ouvi histórias que falavam do descoberta de ossos e cabeças de animais, de enormes proporções, durante escavações. E até mesmo por agricultores quando aravam a terra para suas plantações, informação pouco freqüente. E um dia me avisaram que um caminhão, cheio de ossos, estava seguindo para São Paulo. Corri na direção do centro da cidade. Não vi mais nada, mas ouvi:

- O caminhão já foi embora !

Não dei crédito e tornei a ouvir:

- Pode acreditar !

De certa vez eu, Juca e Zé Lemos fomos até o pé da Serra da Maravilha. Final de fevereiro era um bom período para se pegar "cágados" pelas estradas, por ser época deles aflorarem dos buraços após os seus nascimentos. A aventura nos permitiu ver a serra bem de perto, no vilarejo Maravilha. Nenhum de nós pensava em cavar a terra para encontrar algum osso de animal. Mas, por vezes, nos perguntávamos:

- E se nós encontrarmos algum osso gigante, ou uma cabeça de elefante, o que faremos?

E com aquelas fantasias nem nos apercebemos de que o tempo estava fechando, o sol desaparecendo e a noite chegando. E logo uma chuva torrencial apagava o contorno das coisas. A estrada virava um lamaçal. Os relâmpagos e trovões atordoavam nossas orientações. Restáva-nos voltar, urgentemente. Ensopados e apavorados conseguimos voltar para Santana sem que nossos pais suspeitassem da nossa expedição. Mas não atingimos o objetivo de trazer os filhotes de "cágados", recolhidos. A fúria da natureza como se houvesse retornado aos tempos primitivos, rugindo, nos castigara.

À noite, depois da tempestade, o céu estava limpo e estrelado. E perguntei para Téo, que era daquela região:

- Você já viu algum osso de elefante?

E ouvi:

- Eu mesmo, não. Mas os meus pais, sim. Lá na Maravilha existem muitos.

Fui para a rua encontrar-me com meus amigos. Olhei para a Serra da Maravilha e ela me pareceu um lagarto negro deitado na linha do horizonte.





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