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CONTOS




21/11/2009 - 17h03min

Senhora Santana


Fonte: Luiz Nogueira Barros

Durante anos assisti aos festejos em homenagem a Senhora Santana, a padroeira de Santana do Ipanema. Aos seis anos de idade cheguei? quela cidade situada sobre as ribanceiras do rio Ipanema e do riacho Camoxinga, nas planuras do pediplano sertanejo e geograficamente inserida no polígono das secas. Muitas vezes ouvi dizer que "quem bebesse da água do seu rio" jamais se apartaria da cidade. Como se ele, o velho e transitório Ipanema, fosse um útero do qual não fosse possível cortar o cordão umbelical que o unia aos que ali nasceram, mas também aos que, por obra do destino, ali aportassem.

Os anos foram se passando. Quantas vezes não apenas me banhei nas águas do Ipanema, mas, e principalmente, matei a minha sede com aquela água salobra, se o inverno não fosse gratificante e as águas das chuvas não enchessem as cisternas das nossas casas. Naquelas horas era possível compreender a importância daquele rio misterioso que ora estava conosco e ora desaparecia como por encanto, deixando em todos uma sensação de desproteção. E quando desaparecia, no seu leito vazio os "carregadores de água", com seus jumentos e ancoretas, abasteciam a cidade descobrindo sob as suas areias o que havia sobrado da sua lâmina de água trazida pelo inverno. Ali estava o mistério do Ipanema que, quando cheio nos propiciava banhos e água em abundância para todas as festas das nossas fantasias e necessidades.

Do alto da torre, da Matriz de Senhora Santana, pode-se ver toda a cidade. E lá está Senhora Santana que a tudo vigia, com a sua autoridade. E mais que isso: no meu tempo de infância ajudada pelo padre Bulhões, um homem inquieto, afobado, de batina sempre velha, leal e profundamente humano. Tanto que, a sua casa, ao lado riacho Camoxinga, era muito mais uma creche para os desprotegidos da sorte que talvez uma casa para sua própria família. E não havia como não ser marcado pela lembrança daquele homem sério e verdadeiramente devotado à causa da Igreja de Deus, encarnando o poder espiritual da cidade. Foi assim que, um dia, recebeu um filho de "Corisco" (lugar-tenente de "Lampião") para criar, mudando o destino daquela frágil criatura com quem brinquei nos meus anos de infância. Nem a cidade nem o coronel Lucena (o poder dos homens) puderam se lhe opor, uma vez que ele representava a vontade de Senhora Santana, em seus sagrados domínios, e acima da vontade dos homens. E o menino cresceu e se fez homem.

Passados os anos fico a meditar: o que ainda me prende à quela cidade? E não sei se a água salobra do seu rio (que tantas vezes bebi e me banhei) ou se porque ali - naqueles domínios sagrados e ermáticos - desabrocharam as minhas primeiras e grandes compreensões dessas coisas que respondem pelo nome de mundo e existência.

Tudo o que sei é que ali continuarão, sempre - para outros meninos - Senhora Santana e o velho Ipanema, por vezes manhoso e desaparecendo, de repente, mas sempre retornando.

Gazeta de Alagoas, 23. 07. 93





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