Luiz Nogueira Barros
   
   
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21/11/2009 - 17h03min

A guerra

Aquela reunião de homens sempre me tirava o sono...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Muitas noite, antes de dormir, vi o meu pai ligar o rádio tentando sintonizá-lo. E sempre acompanhado por alguns amigos, também interessados em notícias da guerra. Para mim a guerra não era novidade. Uma noite, numa viagem de canoa entre Penedo e Pão de Açúcar, sob um céu estrelado, ouvi o meu pai falar sobre a guerra que "devastava o continente europeu", expressão na qual ele carregava a voz num tom dramático. Mas agora, já crescido, aquela reunião de homens sempre me tirava o sono fazendo com que eu, por vezes, me escondesse por trás da porta para ouvir alguma coisa. O rádio, orgulho do meu pai, era um SEMP, e ele pronunciava o seu nome com uma satisfação incomum:

– SEMP quer dizer Sociedade Eletro Mercantil Paulista. E este é um rádio especial, de seis válvulas

Tarde da noite o meu pai sintonizava a BBC de Londres, porque além de potente ela informava melhor sobre a guerra, na visão do meu pai.

Durante os dias, com outros meninos, recolhi aquele papel aluminizado que envolvia os cigarros, quando a carteira era de cigarros especiais. E aos montes, bem dobrados, nós os entregávamos para "Dona" Maria Wanderley, que os enviava à capital, para uma entidade que não sabíamos o nome. Tudo o que sabíamos era que aquele papel seria reprocessado para a extração do alumínio que outra vez seria usado para a fabricação de aviões de guerra, num esforço descomunal para vencer os alemães, os "cães da guerra e do terror"

Um dia jogávamos "bola de meia" ,nas areias do Ipanema, quando o sino da matriz começou a tocar e não mais parou. Ficamos assustados. Olhamos na direção da matriz e nos perguntamos sobre o que poderia ter acontecido. Momentos depois as pessoas saíam das suas casas e ocupavam as ruas. Um tanto de longe tínhamos a impressão de que não se tratava de acontecimento trágico, pois todos se abraçavam e por vezes faziam gestos de comemoração, erguendo os braços para o alto, uns, e outros se ajoelhavam como se agradecessem alguma coisa.

Pouco depois os sinos silenciaram. Mas as ruas continuavam uma festa. As pessoas continuavam correndo, desabaladamente, em todas as direções, ou então formando pequenos grupos.

Decidimo-nos por ir na direção daquele acontecimento. Mas nem foi precis: muitas pessoas já corriam na direção do outro lado do Ipanema gritando a todos os pulmões:

– A guerra acabou! A guerra acabou! Os alemães foram derrotados!

A notícia chegara pelo telégrafo. Os sinos anunciavam isso! E aí nos demos conta do que havia acontecido. Ingênuos participantes da guerra, "no esforço de recolher papel aluminizado para a fabricação de aviões de guerra" ficamos a nos olhar. E por vezes nos perguntamos porque a guerra não chegou até nossa cidade se, por vezes, falava-se que um bombardeio ("raid noturno") poderia nos atingir. E não conseguimos entender aquela história de ensaiar apagar as luzes como proteção contra bombardeios, uma vez que os alemães preferiam, como diziam os adultos, as cidades litorâneas e nós estávamos lá no alto sertão. De repente Dalmo chegou, correndo, suado:

–A guerra acabou. Mataram os alemães!

E alguém perguntou:

– Todos os alemães?

E ele respondeu:

– Só pode! Senão a guerra não acabava!





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