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CRONICAS




21/11/2009 - 18h04min

A de olhos azuis

Era do que ele mais me falava...

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Riacho Doce: Bar do Doquinha, num domingo de muito sol! Conversávamos, eu e alguns amigos. Os mais afoitos tomavam "caipirinhas". Outros preferiam cerveja. Patas de caranqueijo, sururu, peixe frito e ostras com limão chegavam, aos poucos, trazidos pelas mãos da garçonete. Quem a examinasse, com algum cuidado, haveria de ver a marca de um trabalho desgastante naquelas mãos ainda jovens. Mesmo o disfarce das unhas cortadas e esmaltadas - com um esmalte vermelho escuro - permitia ver o que os sabões grosseiros são capazes de fazer nas mãos de quem ainda cedo precisa garimpar a sobrevivência. Mas a garçonete, para os mais conquistadores, poderia até nem ter as mãos. Seus lindos olhos azuis faziam com que todos, de modo por vezes incoveniente, ficassem abismados. Além do mais seu corpo era esbelto, ágil e desenvolto. E nem parecia andar, quando vinha até a nossa mesa. E isso provocou, da parte de um amigo poeta:

- Parece uma ave !

Percebendo ser observada ela sorria, discretamente, por vezes jogando para trás a cabeleira negra e esvoaçante. E então um vento inesperado e brincalhão corria sobre os seus cabelos revolvendo-os ora carinhosamente e ora de modo estravagante, semelhando os atos dos amantes. Mais de vinte anos ela não teria, com alguma certeza, diria outro amigo.Outro, mais afoito e não se controlando, afirmou:

- Que seios túmidos!

Ficamos a rir. Os tempos eram eram assim: a literatura adotara seios túmidos e languidez do olhar como importantes traços para um composição poética. Também se falava em "olhar mortiço", aquele iluminado pelos candelabros dos filmes de amor, os imperdíveis filmes da era hollywoodiana.

Mas era estranho que aquela garçonete, moça simples e sofrida, causasse tanta sensação entre a rapaziada, se possivelmente nenhum deles a desejaria para um longo caso de amor. E sobretudo para um casamento, tais os preconceitos em moda naquela época. Um outro amigo e poeta, mais calado e por vezes até pessimista, arrematou, para o espanto de todos:

- Seus olhos são lindos e azuis. Mas nela poderão ser inúteis!

Um longo silêncio tomou conta de todos nós. Era como se uma imensa atmosfera de fantasia houvesse se dissipado, estendida que estava sobre as nossas cabeças. Ficamos a olhar para o mar, azul como os olhos da linda garçonete.
Anos depois, terminando o curso de medicina e de plantão na maternidade, a enfermeira chegou ao meu quarto, ofegante, e me disse :

- Doutor, estamos com um caso difícil. A moça está dando à luz pela primeira vez. O senhor precisa ir até a sala de parto.

Foi-me facílimo reconhecer naquela moça aflita para ter o seu primeiro filho, a "quase-esquecida garçonete". Não senti que ela me houvesse reconhecido. O que expressava, de dentro dos seus lindos olhos azuis, era um humilhado pedido de socorro, indigente que era naquela hora.
Algumas manobras de facilitação do parto e uma linda menina, de olhos também azuis, veio ao mundo!
Na manhã seguinte fui até a enfermaria. Curioso, perguntei-lhe se o seu amado já havia visto a filhinha. Ela me respondeu:

- Não. Ele fugiu para São Paulo.

Insisti:

- Foram os seus lindos olhos azuis?

E tristonha ela balbuciou:

- Talvez! Era do que ele mais me falava.



O Diário.07.01.96





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