Luiz Nogueira Barros
   
   
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CRONICAS




21/11/2009 - 18h05min

A que ficou na janela

Em muita noite houve esperança!

Fonte: Luiz Nogueira Barros


Senti uma mão pousar levemente sobre o meu ombro. Voltei-me. O meu amigo sorria. Olhava-me com aquele espanto que tem o olhar quando faz anos que não vê alguém das antigas amizades. De fato, a nossa juventude - embora ainda não perdida em trevas - não deixava de ser alguma coisa já um tanto perdida em brumas ainda claras. Sorrimos. E o nosso silêncio foi rompido:
- Quanto tempo, meu amigo, ouvi.
Respondi a mesma coisa e apertei-lhe a mão. Depois falamos de coisas da nossa juventude, daquelas mais imediatas e necessárias a um reencontro casual num supermercado. E nos sentimos velhas sombras de agora, desfilando nos dias e nos fatos de ontem. E logo nos olhamos seriamente e uma pergunta não pôde ser evitada, da minha parte :
- E então, tudo passou?
O meu amigo sabia do que eu falava. Sorriu e me disse que sim. Mas que, inevitavelmente, havia deixado uma marca, uma cicatriz. Mas que a vida era assim mesmo. E que tudo havia sido bom, como um sonho juvenil. E em seguida:
- Você talvez nem acredite, mas acabei de vê-la fazendo compras aqui no supermercado. Continua linda!

A minha pergunta havia sido proposital, pois eu mesmo acabara de vê-la. Ela, ou não havia me reconhecido, ou então fingira. Cautelosamente eu não havia insistido, desviando o olhar no nosso segundo encontro e fingindo olhar o preço de um produto que não iría comprar.

Silencioso, fiquei a lembrar-me do meu amigo. Todas as noites ele se dirigia até a janela da sua " amiga-amada", talvez para acalentá-la. O amor de Clarita, com um outro nosso colega de turma da faculdade, fazia pouco tempo havia terminado de maneira inexplicável. E por conta disso ela era vista na janela, nas primeiras horas da noite. E lá estava o meu amigo, segundo me dizia, para um gesto de solidariedade. Mas o tempo faria que ele se apaixonasse por Clarita, perdidamente. O que lhe faltava era coragem para aceitar o fato. Muitas vezes chegou a se irritar, quando lhe falei sobre estar apaixonado. Depois, mais calmo, passara a admitir a sua paixão. E então costumava me falar da beleza da sua amada com mais alguma intimidade, pois a via mais de perto, examinando os seus gestos de alegria, esperança e preocupação. Por vezes misturava a brisa da noite, a claridade da lua, os cabelos de Clarita soprados pelos ventos, os seus olhos amendoados e o seu riso largo e suave como fatores que lhe inibiam falar do seu amor. Um amor que Clarita devia suspeitar, como ele me dizia, mas que estava longe de lhe criar uma oportunidade para que ele fosse cantado em prosa e verso, talvez porque ela ainda sonhasse com o antigo namorado. O meu amigo, por vezes falava claro. Um dia ele me disse:

- Em muita noite houve esperança!

Respondi-lhe, naquele tempo, que a frase estava num poema de Cecília Meireles. E ele me respondeu:

- Que importa !

Eis-nos, agora, no supermercado recordando aqueles fatos. E Clarita casada com outro homem, nem com o nosso antigo colega de turma nem com o amigo do reencontro. E de repente ela torna a passar. Concordo com o amigo que ela continua linda, dando a impressão de que os anos passaram como brisas e poucas marcas lhe deixaram. Ela some. O meu amigo sorri e me diz:

- Não digo que seja infeliz. Claro que sou feliz! Mas a saudade não cicatrizou. Creio que você entende do que falo.


O Diário. 17.12.95





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