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CRONICAS




21/11/2009 - 18h12min

A crônica


Fonte: Luiz Nogueira Barros

Mais das vezes fico a ler os jornais. Examino as crônicas. Pergunto-me sobre as suas destinações. Inquieto-me sobre o que pensam os autores a respeito dos seus próprios trabalhos. E, finalmente, o que as pessoas, de um modo geral, pensam sobre eles. Por vezes, me sinto afogado nos rios de tinta e papel de que são feitos os jornais. Nessas horas tudo me parece vago e sem sentido. Amedronto-me com as notícias exóticas.Penso em parar de escrever. A alma me responde não.

Os livros estão diante mim. Pego o livro "Assim Falava Zaratustra", de Nietzsche. Casualmente? Ou lembranças de leituras me conduzem a isso? Penso no homem. E Zaratustra diz (sobre ele) quando desce da sua meditação na montanha, para uma multidão que estava na praça: "Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou dolorosa vergonha? Pois é o mesmo que deve ser o homem para o Super-Homem: uma irrisão ou dolorosa vergonha". Sei que o Super-Homem de Nietzsche não tem uma natureza racial, mas ética, na medida em que sugere ao homem usar todas as suas potencialidades obstruídas pelas repressões residuais da Idade-Média. E sigo verificando que o homem continua sendo "Uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem: uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar". O risco de ser homem é muito grande e Zaratustra insiste: "Amo os homens que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super-Homem...amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino". Descubro que Zaratustra também se cansou. Não entendido pelos homens refletiu: "Não me compreendem; a minha boca não é a boca que estes ouvidos necessitam...terei que principiar por lhes destruir os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos...ou só acreditarão nos gagos?". Depois, refletindo, ainda insiste: "De qualquer coisa se sentem orgulhosos. Como se chama então,isso de que estão orgulhosos? Chama-se civilização: é o que os distingue dos cabreiros...falar-lhes-ei, portanto, ao orgulho". Paro um pouco e me questiono: "Nós, os cronistas, escrevemos e falamos por orgulho intelectual, ou sobre o orgulho dos homens que imaginam haver construído a civilização? E afinal, o que é civilização?". E fico sem saber se escrevo por orgulho, ou se pretendo ferir o orgulho dos que dirigem as coisas e o mundo, para que um dia as coisas e o mundo possam melhorar. Mas temo que eles não me ouçam. E pior: não posso lhes destruir os ouvidos. E descubro a desarticulação e a solidão dos intelectuais, encastelados nas suas torres de marfim. E outra vez me vem a imagem do saltimbanco que cai da corda, despedaça-se contra o chão e ainda vivo ouve de Zaratustra: "Fizeste do perigo teu ofício, coisa que não é para desprezar". Sinto-me o próprio saltimbanco e vejo no ofício da crônica um perigo que não é para desprezar. Mas não posso aceitar o caos ao meu redor. E outra vez volto a Zaratustra: "Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar a luz uma estrela cintilante". Tenho o caos dentro de mim. Padeço de utopia. Mas como demora a minha estrela cintilante!

E volto a escrever com todos os riscos e desencantos...


Gazeta de Alagoas, 04. 03. 93





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