Luiz Nogueira Barros
   
   
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ENTREVISTAS




21/11/2009 - 19h24min

Entrevista em 31.12.2002, um dia antes da posse de Lula


Fonte: Gazeta de Alagoas

A eleição do Lula pode significar o renascimento, melhor dito, o fortalecimento do socialismo?

Acho o tema difícil, acadêmico, cansativo. Não é uma questão para grande parte da massa, do povo. Mas inquieta a todos. Deve ser discutido.

Não vejo bases históricas para isso. O socialismo, no Brasil, caso se deseje uma retrospectiva, rápida, um tanto já delineada, pode ter tido início em 1848, com a Revolução Praieira, Pernambuco, liderado pelo senador Nunes Machado. Naquele momento tivemos uma Manifesto ao Mundo, de 12 pontos, feito pelos portugueses aqui nascidos, e contra os reinóis, aqueles outros ligados aos interesses meramente da corte de Portugal. Seu conteúdo é utópico, digamos, estilo de Saint-Simon, pensador francês e profeta do Partido dos Trabalhadores, que terminou sendo uma realidade na Inglaterra, e não na França, porque ali aconteceria a Revolução Industrial.

Antonio Pedro de Figueredo, pensador mulato ligado aquele movimento revolucionário, chegou marxismo. É o primeiro, acho que sim, pensador em tal sentido. A Maioridade de Pedro II, a Guerra do Paraguai, a propaganda abolicionista e, finalmente, a República, incrivelmente, não alimentaram a utopia socialista. E Augusto Comte, secretário de Saint-Simon, foi o paradigma para a República brasileira, com o seu Positivismo. Compreensível porque, a sua lei dos Três Estados hierarquizava a sociedade de modo tal que as castas remanescentes da monarquia foram as privilegiadas, o que se chocava caso a solução pendesse para o socialismo. A Revolução Praieira foi esmagada. Mais tarde, com a fundação do Partido Comunista, em 1922, já com mundo bipolar, o partido desejou, logo em 35, atingir o poder através dos movimentos militares, universitário e sindical, fornecendo instrumentos para que Getúlio seu perfil ditatorial.

A intensa agitação sindical, camponesa e estudantil, nos anos 50, com certeza, forneceram material para o endurecimento do regime em 1964. Os eventos de confronto armado pós-64 terminaram por reduzir os movimentos armados a solitário núcleos de resistência ao sistema. Finalizando: a infância do socialismo, no Brasil, foi frustrada, abortada, reprimida violentamente, e o socialismo jamais conseguiu ser uma doutrina das massas. Ainda hoje é um arquipélago, algumas ilhas, onde se avistam e remanescem sindicalistas, universitários, intelectuais radicais, e uns poucos militares, que ruminam nostalgias muito mal resolvidas. E fato muito grave: num mundo no qual a mão de obra, leia-se trabalho, a força motriz da história, do processo socialista, está sendo trocada por emprego, Marx deve estar se revirando em sua sepultura..

Nos Estados Unidos da América, as experiências, ao menos com o socialismo utópico, foi mais longa, com Charles Fourrier e Robert Owens, os mais importantes. E, sofrendo menos repressão, e esse pode ter sido caminho para o seu esgotamento natural.

Mas muitos estão pensando que o Lula vai ressuscitar o socialismo.

Sei disso. Mas é bom não se esquecerem de que o perfil do Lula é a do político, e não a do revolucionário das armas. Seu perfil não inclui nenhuma vinculação a movimentos armados. Ele foi sempre o líder sindical em nome das melhorias das condições do trabalhador. Acreditou, sempre, na solução política, mais ou menos pacífica, na medida do possível, dentro do sonho de democracia Sua luta, se tem contornos de confronto com os patrões, tem também um conteúdo onde sempre buscou negociações. E mesmo, o Partido dos Trabalhadores, bem examinado, se acolheu correntes maoístas, trotskistas, marxistas, etc, o Lula é um observador da Internacional Socialista, de forte conteúdo social democrata.

Como o Lula vai conciliar isso, então ?

O tempo dirá. Ele fará uma escolha. Imagino que seja a via pacífica, negociada. Ele terá que compreender o seguinte: que concessão é algo que o capitalismo sempre faz quando no sufoco, porque tem horror ? interrupção do ciclo produtivo. Passado o sufoco sempre retirou, lentamente, praticamente tudo o que concedeu. E já não é possível confundir-se concessão com avanço, falo de avanço socialista, do ponto de vista de doutrina, de ideologia. O Lula terá sido um grande governante se criar e consolidar um política na qual os avanços possam ser mais bem vigiados e cobrados permanentemente pela sociedade. Como ? Basta conseguir reduzir os lucros bancários, pois 2002 deu a eles 30% de lucros nos seus investimentos. A indústria lucrou apenas 1.5%. Consiga retirar 5% dos lucros bancários e passar para o setor industrial, gerará alguns milhões de empregos. A isso junte-se algum sucesso com a política dos seus sonhos: o programa fome zero ! Poderá ser um ídolo. Veja que ainda não estou na consolidação do Mercosul, levantado o ânimo do perdido orgulho nacional da América do Sul. É muito sonho a ser realizado em 04 anos. Vamos aguardar: triunfo nem sempre depende das habilidades, mas de uma boa escolha.

Você, então, estabelece uma diferença grande entre concessão e avanço ?

Isso é coisa minha. E não sei se está inserida dentro dos métodos de análises históricas, pelos sociólogos e filósofos, enfim pelo academicismo oficial. Mas o vício é antigo, começando mesmo na Revolução Francesa de 1789, bastando que se veja quantas constituições foram promulgadas na França de então. Assim, eu perguntaria: a Constituição do PMDB, de Ulisses Guimarães, o grande líder daquele tempo, continua intocada ? Suas leis complementares foram sancionadas e incorporadas ? Constituição de 1988? Os pretendidos avanços do final da abertura democrática, falo de avanços sociais, estão mantidos ? Mas há um consolo: ao menos a democracia parece mais enraizada na história do Brasil. É fundamental não se confundir concessões no campo social com avanço no campo ideológico-revolucionário. Eles jamais serão a mesma coisa.

Vivemos, hoje, um intenso drama no qual mercado e ideologia causam tensões em todos os países do mundo, mesmo com o fim do socialismo, quer dizer, o fim da experiência socialista na ex-União Soviética. O socialismo está morto ?

Já falamos das dificuldades do socialismo, ao menos no Brasil. Acho difícil que uma doutrina que entrou na história pela porta da frente saia pela dos fundos, por um simples acordo de cavalheiros, ou então de não cavalheiros. Mas fico com a impressão de que se pode falar em descompromisso momentâneo, ou mesmo duradouro, com uma ressurreição socialista do tipo marxista-leninista. A força motriz, o trabalho, transformista da história, está comprometido, está sendo trocado pelo emprego. Agora, é claro, não se sabe por quanto tempo. Seria bobagem imaginarmos que capitalismo é o paraíso e o socialismo o inferno, o que já é uma contradição e portanto capaz de gerar uma luta interna.. E toda luta, supõe-se, terá um fim, um dia. Essa dialética é complicada. Bem diferente da velha contraposição metafísica dos antigos gregos, quer dizer: do claro/escuro, do alto/baixo, do feio/bonito, etc. A natureza jamais dispensará a luta dos contrários. A sociedade humana também. A questão é esperarmos para ver se o socialismo morreu, de fato. Ou então se tudo não passa de um descompromisso momentâneo. Mas o suposto paraíso capitalista, creio, está gestando sua própria contradição. O que virá ? Não sei !

Essa coisa de mercado, de produção, de subsídios para a indústria, para a agricultura e para a pecuária são a mesma coisa em todos os países? Delas qual a mais importante e inevitável ?

Elas todas têm sido inevitáveis, em todos os pontos do mundo. É assunto é de conteúdo muito técnico. Mas qualquer um percebe sua conseqüência imediata: um país que subsidia uma das suas fontes produtivas cria, ao mesmo tempo, emprego onde faz isso e, a outro tempo compete em melhores condições que outro que nada faz nada em tal sentido, na hora de expor seu produto no mercado internacional. Agora, quanto a um subsídio ser mais importante que outro, parece-me, que o subsídio ? agricultura e ? pecuária tem uma coisa interessante: gera alimentos, a um tempo, e a outro é uma maneira muito forte de se evitar os grandes êxodos rurais que incham as metrópoles, criando graves problemas. Países ricos se deram e se dão ao luxo de enormes sacrifícios em gastos do setor público, contanto que controlem o social e geram emprego. Foi assim após a quebra da Bolsa de Valores de 1929. tivemos o “ciclo keynesiano”, com forte intervenção do Estado na economia. Nos países considerados em desenvolvimento a tendência é a desarticulação do Estado, com o eufemismo de redução do seu tamanho, em função do livre mercado, por imposição externa dos mais ricos.

O que diria a um jovem entusiasta pregador do socialismo, digamos, o que adora falar em Karl Marx, Trotsky e outros tantos socialistas do passado?

O mais simples: leia, e leia muito.

Ainda hoje sofro quando vejo jovens falando algumas bobagens, cônscios de estarem falando reflexões definitivas. Citarei algumas:

1 - Falando num seminário, na UFAL, na presença de alguns líderes políticos, descobri que eles não conheciam determinados assuntos sobre os quais faziam catequese. Não sabiam, por exemplos: que luta de classe, não foi, na origem, uma doutrina de Marx. Sequer haviam ouvido falar em Augustin Thierry, francês que, estudando as sociedade dominadas e dominadoras, os primeiros tentando estabilizar os seus poderes e os segundo procurando a desestabilização dos mesmos, cunhou a palavra “ antinomia” , para estabelecer a tensa relação social entre dominados e dominadores. E que Marx havia escrito para seu grande parceiro, Engels ( Friedrich ) dizendo que havia nascido o pai da moderna historiografia, referindo-se a Thierry, e renomeando, a partir dali, a “ antinomia” como sendo “luta de classe”. Não sabiam que Engels, lendo Sociedade Antiga, de Lewis Henry Morgan, mudou parte do Manifesto Comunista no tocante a afirmação “ A história da humanidade é a história da luta de classe”, pela expressão “ A história da humanidade é a história da luta de classe, mas das sociedades que escreveram sua história”, considerando-se que as sociedades ágrafas, da tradição oral, não escreveram sua história ficava-se portanto, a se dever maiores explicações em tal sentido. E salientar, aqui, que a divisão da sociedade em classes, a divisão do trabalho, a propriedade privada, etc, surgem na final do período Paleolítico, e se estruturam com o início da civilização, na Mesopotâmia, com os povos sumerianos, acádios, amorritas, assírios e caldeus. A civilização, portanto, é que marca a história escrita. A escrita cuneiforme e o alfabeto sugiram em tal período e, naquele momento, com uma finalidade puramente contábil..

2- Muitos nada sabiam sobre Augusto Blanqui, e seus comandos blanquistas, elites intelectuais de certo modo clandestinas, que assumiriam as lideranças durantes explosões sociais. Fato recusado por Marx, que defendia que as lideranças devem ser formadas no calor das lutas sociais, os líderes correndo todos os riscos dos desgastes.

3 - Alguns jamais haviam ouvido o nome de Errico Malatestta, anarquista italiano que esteve no Brasil por volta de 1919, e que afirmara: “ As dificuldades econômicas da classe operária não produziram o fenômeno da solidariedade irrestrita” . E não consta, na história, que categorias operárias mais bem diferenciadas, metalúrgicos, petroleiros, por exemplos, entrem em grave em solidariedade a enfermeiros, comerciário e outras categorias mais fragilizadas, apenas como exemplos. E tudo nos faz voltar a 1848, quando Emmanuel Josheph Síyès, teorizou a “ luta intra-classe”, doutrina pela qual a classe operária, fatalmente, formaria suas elites, comprometendo a Ditadura do Proletariado como o produto final da História.

Então você não acredita que o PT possa fazer mudanças violentas, como a instauração do socialismo.

Evidentemente que não acredito. O mundo não o mesmo de 1950. A partir dos anos 70 o acúmulo de capital, por conta da violação do controle da remessa de lucros, nos países em desenvolvimento, ditos do Terceiro Mundo, que vigorou a partir de Bretton Wood, quando Roosevelt estabeleceu uma política até certo generosa com os aliados, e quando o dólar foi internacionalizado, com o final da Segunda Grande Guerra Mundial, os capitalistas mundiais acumularam fortunas que foram além dos 20 trilhões de dólares, num cálculo que jamais será revelado se exato. Aquele dinheiro poderá ter sido, e muitos especialistas afirmam, o combustível para a globalização, que investiu pesado na mudança das leis protecionistas dos países em desenvolvimento. E, claro, mantendo as suas nos seus países de origem. Estamos um labirinto mundial. E já está sedimentada a doutrina de que qualquer tentativa dos países em desenvolvimento de romperem tal situação, o caso é logo tratado como confronto ideológico, pondo em alerta os donos das fortunas internacionais. E saliente-se que, somente as grandes potências mundiais estão em condição de ação econômica e militar ? distancia de muitos e muitos quilômetros. Tudo eles exportam, inclusive o controle cultural dos países em desenvolvimento, transformados em entrepostos comerciais.

Nossa tradição nos remete para a Europa, onde o protecionismo é fantástico, nas diversas áreas da produção. Esse será um grande dilema para o PT, quando buscar parcerias comerciais. Mas é preciso lutar em tal sentido. A sangria que nos impõem precisa ser estancada, diminuída.

Então, não há motivos para medos, fobias e outras tantas coisas apregoadas durante o processo eleitoral ?

O povo votou na esperança de mudança, na esperança de que a sangria possa ser contida. Na esperança de que nossos parceiros internacionais tenham respeito e tratem o Brasil de modo que ele possa honrar suas obrigações sociais. O povo não votou para que o PT instaure, instale, o socialismo revolucionário. O povo votou porque sonha melhorias sociais. Agora, se elas somente forem possíveis por um processo de ruptura violenta, então, estamos diante de uma dilema sobre o qual muitas outras páginas terão que ser escritas. E ai me lembro de Hegel, quando nos afirma: “ A história não é o reino da felicidade. As horas de felicidades são suas páginas vazias” Quer dizer, precisam ser reescritas. Ou escritas, ainda ?

31.12.2002 Caderno Política - A9





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