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ENSAIOS




10/02/2010 - 06h38min

Osman Loureiro e o seu tempo

O novo Governo Provisório não era composto totalmente por

Fonte: Luiz Nogueira Barros-nogueirabarros@uol.com.br

A 7 de outubro de 1930 o governador de Pernanbuco, Estácio de Coimbra, passou por Alagoas fugindo da Revolução de 30. Aqui, o governador Álvaro Paes confiava que haveria resistência. e ouviu, do coronel Reginaldo Teixeira e do major Pedro Pierre, do 20º BC, que a munição não seria suficiente, mesmo com a da policia, para uma reação eficaz. Além do que, dizia o coronel Reginaldo, carecia de uma ordem do Presidente da Republica para uma reação. Carlos de Gusmão, talvez o mais preparado e lúcido intelectual e político do seu tempo, considerou a situação como perdida.

A 10 de outubro um avião sobrevoou a cidade, soltando panfletos dirigidos principalmente aos militares, embora também falassem aos civis. O titulo do panfleto: "Aos briosos camaradas do 20º BC e ao heróico povo na nobre terra de Floriano e Deodoro da Fonsêca". Na noite deste dia o governador de Alagoas, Álvaro Paes, abandonou o governo e viajou para o Rio de Janeiro, levando em seu séquito o coronel Lucena Maranhão. No Palácio dos Martírios ficaram apenas Graciliano Ramos, o aspirante Medeiros e um guarda-civil, conforme anotações de Carlos de Gusmão, no livro "Boca da Grota".

No dia 11 de outubro o coronel Reginaldo Teixeira assumia interventoria de Alagoas, lançando um manifesto de paz.

No dia 15 de outubro o general Juarez Távora discursou, da sacada do Palácio dos Martírios. O Dr. Hermilo de Freitas assumiu foi referendado como o novo chefe do Governo Provisório.

Carlos de Gusmão, num encontro com Pontes de Miranda, o futuro jurista de fama nacional e internacional, um tanto gago, dirá, respondendo a uma insinuação de Carlos de Gusmão: " É...qui...qui...eu não sabia qui...qui...o meu partido era tão grande, senão há muito teria feito a revolução..." O partido a que se referia Pontes de Miranda era a Aliança Liberal.

O novo Governo Provisório não era composto totalmente por "revolucionários", o que acalmou Carlos de Gusmão, que se utiliza de Joaquim Nabuco " A fatalidade das revoluções é que sem os revolucionários não é possível fazê-las, e com eles não é possível governar".

O Dr. Hermilo de Freitas foi substituido pelo capitão Tasso Tinoco e este pelo capitão Affonso de Carvalho, que chegou a Maceió em 1933, para preparar as eleições de maio, com vistas a eleger os representantes da Assembléia que faria a Constituição de 34.

O partido do interventor Affonso de Carvalho - Partido Nacional de Alagoas - ficou com as seis cadeiras que couberam a Alagoas, na Assembléia Constituinte. Os demais partidos, Partido Socilaista e o Partido Economista Democrático de Alagoas ( PEDA), não elegeram qualquer candidato.

No Rio de Janeiro dois acontecimentos precisam ser anotados: 1) os intelectuais lançaram o " Manifesto dos Revolucionários" ( época na qual os intelectuais alagoanos eram levados mais a sério, pois tinham prestígio nacional ), dirigido ao general Góis Monteiro, acusando o interventor Affonso de Carvalho de fraudar as eleições, o que a revoluçao de 30 tentara abolir; 2 ) um irmão do general Góis Monteiro, Silvestre Péricles, dá uma entrevista, longa, ao "Correio da Manhã", a 7 de dezembro de 33, chamando o capitão Affonso de Carvalho de chantagista.

A "Política de São Patriotismo" e o "Centro Alagoano"

A política são patriotismo acontece sob a proteção do general Góis, Ministro da Guerra, de Getúlio. Ele havia recebido uma relação de quatro nomes indicados para a nova interventoria de Alagoas, enviada pelo Centro Alagoano, na qual não constava o nome de Osman Loureiro. E respondeu dizendo que havia enviado sugestões que considerava boas. O Centro Alagoano e a bancada federal de deputados inclinavam-se para os seguintes nomes: Drs. Rodolfo Pinto da Mota Lima, Venâncio Hemetério Lobo Labatut e Antonio Virgílio de Carvalho e o almirante Arestides Vieira Mascarenhas.

Getúlio precisava dos votos dos então "constituintes", no plano federal. Em Maceío, Edgar de Góes Monteiro recebeu do deputado Álvaro Guedes Nogueira um telegrama no qual acusava a destituição do capitão Affonso de Carvalho da interventoria e nomeava Osman Loureiro como o novo interventor, que tomou posse 1º de maio de 1934, perante o Ministro da Justiça, marcando, de fato, a intenção da política de são patriotismo, que apaziguaria a família alagoana. A indicação ocorrera no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, durante uma audiência com Getúlio, abrindo uma crise na política alagoana.

Costa Rego apressou-se em contornar o inusitado do acontecimento, ao enviar telegrama realçando a ação leal e espontânea do general Góes Monteiro que, noutro telegrama confirma sua intenção de ver a família alagoana unida. Mas não conheço nenhum documento que prove Osman Loureiro haver sido o candidato do general Góes. Antes, é possível descobrir um embrião do desgaste do general Góes perante o Presidente Getúlio Vargas, que sabia, e como sabia, que a sua vitória militar estava muito longe de uma vitória político-civil sobre os derrotados em 30. E assim, colocava a cabeça do seu poderoso ministro, o general Góes, sob riscos e pelos quais pagaria, futuramente.

Estamos em 1934 e Silvestre Péricles tenta a governança de Alagoas. Manda telegrama ao senhor Higino Belo, avisando que chegará pelo vapor Duque de Caxias, o que ocorreu 21 de setembro. Ao desembarcar faz uma caminhada pela Avenida da Paz, uma homenagem ao Tratado de Versalhes. Hospeda-se no Hotel Bela Vista.

A política de são patriotismo preparava uma homenagem para Costa Rego, que estava por chegar. Mas a notícia de que Silvestre Perícles iria impedir tal homenagem tumultuou a cidade. O fato motivou telegrama de Carlos de Gusmão para o general Góes, que, conhecendo o temperamento do irmão, respondeu que mandara providenciar, junto ao interventor, as garantias para a homenagem.

A homenagem a Costa Rego não aconteceu. Mais experiente politicamente, Costa Rego preferiu dar uma lição de desgaste no seu opositor: deu conhecimento do fato a todos, ao tempo em que agradeceu a homenagem como havendo acontecido, motivando o general Góis a também lhe agradecer, publicamente, através de telegrama, esclarecendo que a atitude do irmão independia dele.

Na volta para o Rio de Janeiro Silvestre Péricles ainda continuava com uma concepção militar da vitória de 30, quando afirmou que jamais haveria reversão ao passado, "neuroticamente saudoso, cheio de negociatas e cobardias"

A passagem de Silvestre Péricles aquecera o ambiente político, em preparação para a eleição constitucional de governador, desde a Revolução de 30. A definição da preferência do general Góes era um fato esperado, ansiosamente, por todos, apesar do evidente desgaste do então titular da Guerra, diante de Vargas. O lançamento de Silvestre Péricles como candidato tornaria o quadro mais complicado. Os vencidos de 30, acusados de desejarem a reversão ao passado estavam bastante organizados. A definição sobre a preferência do general Góis seria o fermento necessário. Esgotadas as trocas de telegramas, dezessete deputados lançaram a candidatura de Osman Loureiro, assim noticiada pela " A Gazeta de Alagoas", de 01.12.34 : " Alagoas estava vivendo diante de uma fase de mal estar diante da falta de atitude sobre um assunto de tanta gravidade"

A impressão que se tem do eufemismo "indefinição do general Góis", usada pelos políticos que apoiavam Osman Loureiro, poderia ter outro nome mais apropriado: a perda do comando da política de são patriotismo por parte do general Góes, ainda ressentido pela indicação de Osman Loureiro como interventor. E a única indicação de que, mesmo aborrecido, teria que apoiar Osman Loureiro, poderia ser detectada num telegrama de Costa Rego a Quintela Cavalcante: " O general vai responder concordando candidatura Osman e sugerindo se complete composição com escolha de senadores e presidente e líder Assembléia." O telegrama é nebuloso, não publicado por provavelmente conter assuntos que deveriam tumultuar o ambiente político, lamenta Carlos de Gusmão.

Com a chegada de Edgar de Góes Monteiro, do Rio de Janeiro, suas declarações sobre a escolha de Osman Loureiro acalmaram o ambiente. Mas Carlos de Gusmão, numa visita ao general Góes, no Rio de Janeiro, afirma ter ouvido : " Carlos, o nosso Osman perdeu a cabeça e eu estou inteiramente contra ele e os deputados"

O Chefe de Polícia, de Osman Loureiro, era o Dr. Ernandi Teixeira Bastos. Sobre ele Silvestre Péricles colocou a culpa para o caso de haver derramamento de sangue em Alagôas.

O general Góes estava entre a cruz e espada e a política de são patriotismo ameaçada, forçando a que ele telegrafasse a Rocha Cavalcanti isentando-se de apoiar qualquer dos candidatos.

Silvestre Péricles voltou a Maceió a 5 de fevereiro, a bordo do vapor Pedro II. No cais do porto estava a polícia, armada de metralhadoras. Dali, Silvestre Péricles seguiu para o Hotel Bela vista. Nesse período Dr. Ernandi T. Bastos pediu demissão e foi substituído por Edgar de Góes Monteiro. E logo aconteceram as prisões e recambiamento de alguns militares do Exército, oriundos do Rio de Janeiro e tidos como participantes de uma estratégia para, se bem orientada, provocar intervenção federal em Alagoas. Mas o possível plano de subversão ficou sem nome e sem autores definidos. Mas o general Góes está perdendo, ou já está perdido, politicamente, razão porque solicita sua demissão da Pasta da Guerra, aceito a 7 de maio, pelo presidente Getúlio Vargas, e será substituído pelo general João Gomes Ribeiro.

Mas antes, em março, dia 7, os irmãos Romeu de Avelar e Delorisano de Moraes, repórteres de " A Imprensa", haviam sido intimados pela 1¦ Delegacia de Polícia. Eles resistem. Silvestre Péricles os leva para o Hotel Bela Vista, que já estava cercado por um comando da Guarda Civil, tendo à frente Alfredo Sampaio, quase gerando um conflito, evitado graças à interferência de um sub-delegado de bairro, o tenente Capela. O episódio termina em tiroteio. O próprio Edgar de Góes Monteiro chega ao local, onde foi ferido por uma bala perdida. Adauto Viana e Rodolfo Lins também chegam ao local e daí rumam para o 20º BC, em busca de apaziguamento. Dali, rumaram para o Palácio dos Martírios. E logo voltaram para o Hotel Bela Vista. No percurso de volta, defronte à Chefatura de Polícia ( não obtive documentos sobre a ocorrência ), foram metralhados. Rodolfo Lins faleceu e Adauto Viana ficou ferido. Do episódio, em seu livro "Sangue", Antonio Góis relata invasões a residências particulares, de políticos como Baltazar de Mendonça e Orlando Valeriano. E só então o 20º BC passou a controlar a situação em Maceió.

Dr. Armando Wucherer, Procurador Geral da República, pediu a prisão preventiva de Silvestre Péricles e dos seus correligionários, em número de 22, sob os protestos do candidato, que dizia o tiroteio não haver sido iniciado pelo seu grupo, em declaração aos jornais.

Osman Loureiro foi convocado ao Rio de Janeiro, pelo Ministro da Justiça, Vicente Rao. A pacificação estava em marcha, quando general Góes deu uma entrevista publicada pelo "Jornal do Comércio", a 17 de março, antes de ser substituído, e na qual considerou Alagoas a "Serajevo" ( capital da Bósnia ) brasileiro, Bósnia, onde houvera sido assinado Francisco Ferdinando, herdeiro da Coroa austriaca, dando início à Primeira Guerra Mundial. Na mesma entrevista o general ainda fala de uma conspiração contra a sua família, na qual envolve a presença de militares do Exército. Na passagem de comando da Pasta da Guerra, o discurso do general Góis é longo e cheio de ressentimentos. O grande estrategista militar de 30 e 32 não compreendia, em profundidade, as manobras políticas do poder civil - estruturadas no poder secular e na habilidade diplomática.

A 27 de maio de 1935 saiu o resultado da eleição: Osman Loureiro teve 17 votos; Affonso de Carvalho 03 votos e Silvestre Péricles nenhum voto. Os senadores eleitos foram Manuel de Góis Monteiro ( Manola ) e Pedro da Costa Rêgo. E eleição foi indireta. Os Góis estavam divididos.

Silvestre Péricles voltou para o Rio de Janeiro a bordo do vapor Itahité, a 2 de junho de 1935. O general Góis já não era titular da Pasta da Guerra.

Os Góis Monteiro e Osman Loureiro ainda voltariam à cena política, tanto no plano estadual qunato nacional. Mas em circunstâncias que somente poderão ser discutidas e analisadas num outro trabalho.

O Diário, 30. 07.95





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