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ENSAIOS




11/02/2010 - 08h09min

Tiradentes : o herói persistente

Duzentos anos de mentiras e conveniências?...

Fonte: Luiz Nogueira Barros-nogueirabarros@uol.com.br



Duzentos anos de mentiras e conveniências ritualísticas e Tiradentes persiste como herói nacional. Em seu lugar poderiam estar Frei Caneca, da Confederação do Equador; Nunes Machado, da Revolução Praieira ;Vicente de Paula, da Guerra dos Cabanos e até mesmo Zumbi dos Palmares. Mas a cronologia histórica e a concentração de riquezas não permitiriam que tal acontecesse. As riquezas estavam nas Minas Gerais e a cronologia histórica da Conjuração Mineira está inserida no contexto do Século XVIII, onde mineiros e cariocas liam a Constituição dos Estados Unidos da América; "Do Espírito das Leis", de Montesquieu; "Do Contrato Social", de Rousseau; tomavam conhecimento da Contra-Reforma, de Santo Inácio de Loiola e conheciam as idéias dos jesuítas como João Mariano, Roberto Belarmino, Francisco Soares e Hugo Grotius, que somente aceitavam o Estado como fruto de um consentimento popular, além de se rebelarem contra o componente divino dos Reis e Imperadores, o que em muito coincidia com os princípios adotados por um soberano do porte de Frederico, o Grande, da Prússia, ainda em 174O, e todos fatos notáveis para a época.

Mineiros e cariocas formavam seus filhos nas escolas da Europa, sobretudo em Coimbra. E puderam ter um José Alvares Maciel. E sobretudo um Joaquim da Maia, que fez contacto com Thomas Jefferson, ao qual pediu ajuda para a conjuração, e que não veio por conta de compromissos de interesses econômicos que os Estados Unidos mantinham com Portugal. Os mineiros tinham Cláudio Manoel da Costa, o intelectual das "Cartas Chilenas", documentos satíricos contra os dirigentes locais à serviço da Coroa Portuguesa; Inácio José de Alvarenga e Thomás Antonio Gonzaga, riquíssimos senhores das Minas Gerais...

Se com Martinho Lutero os Príncipes alemães viram a possibilidade de se libertar das explorações do Vaticano, com Tiradentes os ricos sulistas viram a possibilidade de se libertar de Portugal, do jugo da "derrama" e do "Alvará de 5 de Janeiro de 1785"assinado por D. Maria, Rainha de Portugal, que proibia a existência de indústria textil no Brasil, cumprido rigorosamente pelo "fanfarrão minésio" das "Cartas Chilenas", o terrível Tenente-Coronel Luís da Cunha Menezes, e "pardelas", o sargento Parada e Souza

E Tiradentes, o que vivia pedindo aos amigos que lhe traduzissem livros em inglês e francês, tornou-se o propagandista de fala fácil e imprudente e o estandarte da saga libertária que o século permitia e que havia chegado com "os pedreiros" (maçons) desde 177O, nas caravelas, e com os intelectuais que estudavam na Europa.

Denunciado por Joaquim Silvério dos Reis, Basílio de Brito Malheiros Lago e Inácio Correa Pamplona, entre outros, Tiradentes foi preso. Compreendeu o seu papel e resignou-se. Os heróis são assim...

A igreja mais conservadora e monarquista, nas palavras de D.Justiniano, Frei Raimundo Penaforte e D. Domingos da Encarnação, condenou Tiradentes nas suas prédicas, supervisionada pelo Conde de Resende.

Sua cabeça foi raspada , como lhe foram raspados a barba e o cabelo crescidos durante a prisão. Seus companheiros de condenação tiveram a pena máxima transformada em degredo...

Sua alma subiu para a eternidade, solitária, nas nuvens do sonho e da pureza com que sonhou a liberdade. E bem nos diz Cecília Meireles, no "Romanceiro da Inconfidência" :

" Pelos caminhos do mundo / nenhum destino se perde / há o grande sonho dos homens / e a surda força dos vermes..."

Tiradentes pode ter sido um tolo, mas foi um gigante.

Com ele a República ensaiava os primeiros passos. Mais tarde poderia ter vindo à luz com A Revolução Praieira, de 1848, que até lançou um Manifesto ao Mundo no estilo socialista utópico, próprio de Saint Simon, o profeta do Partido dos Trabalhadores. A Revolução Praieira teve pensadores como Antônio Pedro de Figuerêdo, o mulato-filósofo. E o agitadores Borges da Fonsêca e Nunes Machado. Mas, estranhamente, A República veio surgir em 1889, com pensadores do positivismo, de Augusto Comte, doutrina que não se afirmaria nem na França nem na Inglaterra mas que, por aqui, exerceu o fascínio das palavras ordem e progresso....

Tiradentes, portanto, continua um gigante.

O Diário, 21.04.95





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