Luiz Nogueira Barros
   
   
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IN MEMORIAM




11/02/2010 - 15h39min

"Estácio Menezes"

As aspas são asas...

Fonte: Luiz Nogueira - nogueirabarros@uol.com.br

As aspas colocadas no nome do meu amigo são propositais: são asas ! Era um anjo, hão de perguntar. Talvez, respondo com a maior sinceridade, que somos todos anjos os que vivem em permanente estado de sonho, numa interminável vigília ente a realidade e a fantasia.
Estácio era assim: esquecia-se da própria existência, e se desdobrava em falas e risos sempre que falava do teatro. Muitas vezes fiquei a observá-lo sem saber o que lhe era mais real: se o teatro com os personagens que viveu, ou se ele mesmo com os seus dramas existenciais. E pelo tom da voz, contigencialmente, por vezes me pareceu mais feliz como personagem de teatro que como personagem desta vida cheia de grosserias, brutalidades, diálogos não estilizados e mal acabados, abruptos e que quase sempre amesquinham o final de alguma história.
Provavelmente o meu amigo já se banhou no rio Letes - aquele que a mitologia nos ensina - no qual os desencarnados tomam banho para o esquecimento do mundo material, e daí passam para os Campos Elísios, uma visão pagã do céu, que parece encontrar no esquecimento da existência material o caminho da felicidade. E já deve estar vivendo uma outra existência, leve, volátil, sem medos, sem mágoas, sem tristezas, e sobretudo sem dramas.
Da última vez que o vi no teatro representava o papel de um cientista meio louco, na peça de Pedro Onofre "E na lua como será ?...", sátira que interroga se as situações humanas poderão se repetir na lua, ou até mesmo em outros espaços geográficos (cosmogônicos) do nosso universo. E lá estava o meu amigo, alto, magro, vestido de "smoking", usando cartola, o rosto transfigurado pelas tintas, esforçando-se para construir um foguete que iría para a lua. Tudo ao seu gosto: a fronteira entre a terra e a lua, violada por um engenho da ciência, um foguete lunar, fazia-o sentir-se, como sempre viveu, numa atmosfera entre o céu e a terra, e viagem para a qual sempre esteve preparado.
Da última vez que estivemos juntos ele me fazia uma visita domiciliar. Passamos a tarde inteira conversando. Claro: sobre teatro, cinema e literatura, que ele não sabia falar de outras coisas. Se o assunto era amizade tinha uma enorme indulgência - que ornamentava com risos e elogios - para com todos os seus amigos. Se o assunto era um projeto interrompido, infeliz, portanto, sempre tinha uma explicação na qual sobrava uma luz no final do túnel:
- Mas vai dar certo. Faltou um pouco de apoio. A verba liberada foi quase nada. O teatro está em reforma. Mas vamos adiante, de qualquer modo. Mesmo que não possamos montar um bom cenário, mesmo que o figurino não seja dos melhores. O importante é registrar a criação. Um dia as pessoas acordarão. Não podemos esperar eternamente por apoios governamentais. A política cultural está em contramarcha. Não vive os seus melhores dias...
Aproveite-me da sua utopia, da sua pureza e da sua inocência e até o explorei, apenas ouvindo-o, pois raramente temos a oportunidade de ouvir um homem puro. Tive receio de que desconfiasse e me perguntasse porque eu falava tão pouco. Mas eu já tinha a desculpa pronta, e lhe diria que ele me visitava e portanto deveria ter muitas coisas a me falar. Mas não desconfiou e me propiciou uma tarde extremamente agradável, melhor do que se eu estivesse no sofá de Freud a contar tristezas e ameaçar o que me sobrava de utopia.
E ainda ouço, com muita clareza, as suas últimas palavras:
- Gosto do teatro porque todos podem falar. Mesmo os diálogos de interrupção obedecem à lógica de um final feliz ou infeliz, uma vez que o teatro estiliza o drama existencial. Na vida, por vezes não podemos falar: tolhidos pela emoção, ou então porque nos cassam a palavra. No teatro somos sempre um principiante, porque tudo é sempre novo quando vivemos um personagem...
Estácio morreu como o desejou: sempre um principiante nas emoções que viveu, tanto na vida quanto no teatro.





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